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Esta crise foi o maior atestado de falhanço das visões neoliberais.

Transcrevo uma das lapidares sentenças formuladas por António Costa na sua última entrevista ao Público. Faço-o sem a balizar com aspas, sem a inclinação estilizada do itálico.

Assim decidi, com vista a simular uma hipotética realidade em que o pensamento fosse também meu: já muito confrangido por não o conseguir através de construções menos extravagantes, tento, desta forma, lobrigar algum fundo de verdade ou compreensão nessas palavras. Aproprio-me, inclusive, do negrito (ou do negrito, tornando o texto impoluto), como veículo de fortalecimento.

Esta crise foi o maior atestado de falhanço das visões neoliberais.

Numa atitude de millennial milenarista, começo por ver que, desde o dealbar do século, foram sensivelmente sete os anos encabeçados por um governo de centro-direita.

Assim sendo, e até assumindo que esses mandatos se regeram efetivamente por políticas neoliberais – o que é uma fabulação –, que se pode inferir do aforismo do Primeiro-Ministro? É um atestado de competência aos seus adversários, capazes de projetar no futuro, nosso presente, as suas perigosas agendas?

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Advirá, dessa suposição, o siamês atestado de incompetência à geringonça e corrente Governo, ambos incapazes de socializar o poder e a sociedade ao longo dos seus seis anos em São Bento. Esta avenida desemboca num beco sem saída: creio que ninguém poderá negar que a cúpula socialista tem sido exímia em alastrar a ação do Estado (melhor, em alastrar a sua ação através do Estado). Aliás, António Costa não é partidário de atos de contrição.

Esta crise foi o maior atestado de falhanço das visões neoliberais.

Quinquagésimo segundo. É este o lugar que Portugal ocupa no Índice de Liberdade Económica de 2021 da Fundação Heritage.

Portugal, onde se atesta o falhanço das visões liberais, foi o terceiro país da zona euro onde, durante 2020, menos se gastou, em matéria de medidas fiscais, na resposta à Covid-19 (menos de 3% do PIB). Outros países detentores de posições mais eminentes no sobredito índice, como a República da Irlanda (5º lugar), Dinamarca (10º), ou Lituânia (15º) gastaram, respetiva e aproximadamente: 5%; 4% e 6,5%.

França (64º), cujo peso relativo do pacote de medidas fiscais é semelhante ao português, destaca-se, do lado da receita, com uma resposta de pouco menos de 15% do PIB em garantias estatais. Em Portugal, esse valor não chegou aos 5%.

A análise comparativa não é linear (a Finlândia, ocupando a 17ª posição, apresenta gastos próximos), pois que depende do impacto da pandemia e da precedente situação financeira de cada país, todavia deixa-nos com algum alimento para refletir sobre a perigosidade ou os benefícios de mais ou menos liberdade económica.

Para tal reflexão, é necessário um derradeiro deslinde do mistério para que possamos sanar essas alegadas feridas: quais as medidas neoliberais que forma implementadas? Por quem? Porque motivo, depois de cinco anos de navegação conjunturalmente positiva, ainda assacam culpas dos grandes males nacionais?

Os últimos governos socialistas, tendencialmente agnósticos quanto à criação de riqueza e mestres na sua cativação, parecem juntar o pior dos dois mundos: menos liberdade, menos investimento público, menos capacidade de reação a crises e falta de convergência com a Europa.

Esta crise foi o maior atestado de falhanço das visões neoliberais.

A frase de António Costa, aspirando machadar o liberalismo, afigura-se-me, ironicamente, como um inteligentíssimo golpe de foice e martelo investido sobre a visão estatizante. Querendo provar o falhanço da tal visão neoliberal, recorre-se de uma situação que, por força da sua extrema natureza, subtrai (por ação governativa) liberdades fundamentais a inúmeros cidadãos, como o direito ao trabalho.

Ou seja, António Costa elogia a gordura tentacular do Estado em detrimento de uma sociedade mais livre no preciso momento em que a primeira asfixia a segunda em prol do bem comum. Para existir um falhanço de algo face a um seu rival, é imperativo que ambos se encontrem em condições iguais de se enfrentar.

Seria como organizar um jogo de póquer e proibir um amigo de nele participar, dizendo-lhe simplesmente para se sentar no sofá a ver televisão. E, claro, algures durante o jogo, o organizador ostentar que essa é a prova da sua superioridade face ao banido – o que seria deveras revelador da auto-percecionada qualidade de jogo do primeiro, não tanto da efetiva qualidade do segundo.

Esta crise não foi o maior atestado de falhanço das visões neoliberais, por mais que se levante a figura do Papão Neoliberal. Figura que poderá servir para alimentar e assustar algumas consciências políticas. Portanto, convirá não esclarecer o que é o liberalismo, pois as quimeras são mais eficazes quando delas não se sabe muito, não se lhes conhece uma cara. O medo do desconhecido (que engloba o medo de ter medo), como tática de controlo, poderá ultrapassar em sucesso o medo do conhecido, que se acaba por normalizar.

Quando era criança não tinha medo do Papão. Não por qualquer tipo de bravura excecional, mas pela sua ausência do meu imaginário. Lembro-me bastante bem, no entanto, do Homem do Saco. Aquele que poderia aparecer nos parques, com o seu grande saco disposto a levar os meninos e meninas que não quiseram ir para casa à hora suposta.

Passados uns valentes anos, e não tendo ainda percebido a constelação dos prefixos (neo, turbo, mega, ultra, hiper), sei que sou um liberal (sem militância política). E, sendo um liberal, mantenho o medo para com o Homem do Saco, não tendo qualquer questão com o Papão.

A diferença é que hoje o meu medo foca-se no Homem do Saco Socialista, o ser que se revela capaz de, nesse gigante saco, encerrar parte da minha liberdade e autonomia. Bem conhecido e identificado, mas ainda assim amedrontador, já que competente na atividade de lá sequestrar, além de direitos, dinheiro. Dinheiro que muitas vezes acaba esbanjado em investimentos duvidosos e caros, como o da TAP, ou em contratos de roupa e vinho consumados com empresas criadas dias antes dessa contratualização.

Sim, o Homem do Saco Socialista é indubitavelmente mais assustador do que o Papão Neoliberal.