Meses atrás, neste mesmo jornal, dava conta do triunfo do silêncio. Um silêncio bom, onde os aviões, a barafunda dos carros e das pessoas tinha dado lugar ao silêncio dos pássaros e de todos os bichos que ainda habitam este mundo. Um silêncio talvez necessário, num país que se tornara ensurdecedor, numa Lisboa proibitiva de se morar, num Porto que se esquecera da alma que tivera.

Essa calmaria, por esse ponto de vista, ainda é bem-vinda. Deixar estar ao largo todos esses ruídos, por muito, muito tempo, pois é bem recebida a sua apaziguadora e benéfica simplicidade, que deixam falar um mundo emudecido pela força constritora do aço, do cimento, do carvão, da indústria e do mundo moderno, demasiadamente mecânico, absurdamente digital.

Falemos do outro silêncio. Do silêncio longe da costa, distante das províncias sobrelotadas do país. O silêncio das pessoas, das gentes, das festas, dos convívios, das pândegas, das almoçaradas, das jantaradas, das famílias de sangue ou de proximidade, do interior já de si calado e ensimesmado.

Há já tanto tempo que nos calámos. A primavera chegou e o verão partiu, dando lugar às folhas coloridas dum mudo outono que se mostra duro, austero ou chuvoso. O verão, já lá tão atrás, quase esquecido, foi brutalmente abalroado por um silêncio constritor.

Por esse país de norte a sul, por essas aldeias de lés-a-lés, o verão passou triste, vazio e solitário. Os bailaricos foram cancelados. As feiras proibidas. Os ajuntamentos renegados. A alegria de tantas aldeias deprimidas, onde pequenas sociedades se juntam incansavelmente, ano após ano, para organizar a festa do emigrante, a festa da santa ou do santo padroeiro, deu vez a uma nostalgia do passado e granjeou uma nova ansiedade para que tudo isto passe. Ficaram por vir os conjuntos musicais, os organistas, os tocadores de concertina, os zés pereiras e todos os outros artistas que vêm tocar o seu jazz, e assim se cobriram serras e vales sob silêncio que se fez residente, tornando-se inquilino ingrato.

Chega agora, com as chuvas e o frio, os tempos dos magustos, onde o contacto físico é obrigatório – enfarruscar as mãos e as caras dos outros é ritual que comanda a boa tradição. Vai ficar para o ano. Na sua versão outonal, regressa uma nostalgia, irmã daquela que preencheu o verão.

Acercam-se agora noites longas e pesadas, em que a natureza sucumbe à sua dormência. Arribam os dias de chuva em que se fica à soleira ou por dentro da janela, à espera de um raio de sol para se desfrutar da liberdade do ar livre.

Por forma a esconjurar a depressão sazonal, ao longo de gerações e gerações criaram-se artimanhas para esconder as angústias duma solidão sonora. Músicas, danças, bailes. Tradições cantadas, tradições contadas ao borralho com os avós. Cantigas às janelas, em noites de Janeiro frio. Tudo em modo de espera. Pula-se um ano e com ele os hábitos e tradições, esperando que este sacrifício silencioso e quedo alumie uma esperança para que no fim, tudo corra da melhor maneira possível.

Ainda que em silêncio, é tempo de modesto regozijo! Celebremo-lo, ainda que pesado. Pois melhor é este silêncio mandado, que o silêncio do choro duma mãe a ver o filho partir para a guerra, que o silêncio que se segue ao cair das bombas ou ao disparo dos canhões.