O Almirante Gouveia e Melo transformou-se numa figura nacional durante o Covid, quando organizou de um modo exemplar as vacinas nacionais. Passou a ser uma das figuras mais populares do nosso país. Uma figura que transmitia autoridade, disciplina e competência. Valores que têm faltado a grande parte da classe política, e que muitos portugueses sentem que são necessários a Portugal. No fim do ano passado, no início deste ano, quase todos consideravam que seria o próximo Presidente da República. E as sondagens confirmavam.
Desde aí, Gouveia e Melo passou a cometer erros sucessivos. Começou por fazer escolhas fracas e discutíveis. Não se entende, desde logo, a escolha de Rui Rio para mandatário nacional. Rio fez uma liderança do PSD medíocre, acumulando derrotas eleitorais. As candidaturas que querem ser vencedoras não escolhem para lugares visíveis políticos com imagem de derrotados. A aproximação de outros políticos com um passado polémico (mesmo que tenham sucesso eleitoral), como Ângelo Correia, Isaltino Morais e mesmo Alberto João Jardim, também não ajudou. Um candidato presidencial que se apresentava como um sinal de ruptura com o sistema político não pode aparecer rodeado de figuras com décadas de política nacional. Pior do que tudo, fica a impressão que estas figuras se juntaram a Gouveia e Melo sobretudo porque são inimigos de Marques Mendes. Gouveia e Melo nunca devia ter permitido que a sua candidatura fosse vista como um meio de vinganças pessoais.
Gouveia e Melo cometeu ainda mais dois erros, que poderão marcar o resto da sua campanha. Em primeiro lugar, começou por não se definir politicamente, dizendo que “está ao centro.” O centro é um lugar terrível porque dá uma imagem de fraqueza, de indefinição e causa medo aos próprios. Quem é de centro não quer desagradar a nenhum lado. Quem tudo faz para não desagradar, acaba por não agradar.
Pior do que tudo, o “centrismo” foi abandonado de uma forma trapalhona e errática. Apesar do discurso do centro, Gouveia e Melo começou a tentar fazer um acordo à direita com André Ventura para aumentar as hipóteses de vitória. Hoje, depois de meses de campanha, define-se como “um socialista democrático”, confessando que o antigo Presidente que o inspira é “Mário Soares.” Hoje, Gouveia e Melo tornou-se num candidato da área socialista. Mas nada disto parece autêntico, é tudo táctico. Os assessores de Gouveia e Melo sabem que o PS está dividido em relação à candidatura de António José Seguro. Também sabem que o espaço da direita está demasiado preenchido, com Marques Mendes, Cotrim Figueiredo e André Ventura. Por isso, a candidatura de Gouveia Melo acredita que a melhor maneira de ir à segunda volta é com a conquista de votos socialistas. Em especial, os apoiantes de Sócrates e de António Costa (muitos são os mesmos) detestam Seguro e querem fazer tudo para evitar que passe à segunda volta.
Veja-se bem. O candidato que queria trazer um “ar fresco” à política portuguesa acaba por ser um instrumento de vinganças contra Marques Mendes e contra António José Seguro.
Há um segundo problema com a candidatura de Melo Gouveia, ou melhor com o próprio candidato. O candidato não tem experiência política e sabe isso. A suas entrevistas são fracas e o seu discurso político é demasiado superficial e muito pobre. Quando Gouveia Melo usa a sua experiência militar (uma carreira que merece o meu respeito) e da organização das vacinas para dizer que tem experiência política, está a tentar convencer-se a si próprio. Não convence mais ninguém.
As intervenções públicas mais recentes de Gouveia e Melo mostram um candidato desorientado, perdido e, muito provavelmente, consciente que está a ser usado por muitos como uma arma política. Desconfio que os debates vão expor ainda mais as lacunas de Gouveia Melo. As campanhas eleitorais são como as guerras: sabemos como começam; mas nunca sabemos como acabam. E nunca há vitórias antecipadas.