Foi um choque, um terramoto, uma desilusão. Em poucas palavras, elegante como é seu timbre, incisivo como é seu hábito, o presidente norte-americano Barak Obama baniu do debate do referendo britânico de 23 de Junho um argumento fundamental dos defensores da saída do país da União Europeia (UE): o de que não caminhariam sós e que o velho aliado, os Estados Unidos, seria alternativa e respaldo no caso da vitória do “brexit”.

Os “brexiteers” (os que defendem a saída da UE) têm um credo: acabar com a liberdade de circulação de pessoas mantendo o acesso ao mercado interno europeu. E dizem mais: que o país recuperará independência, poupará na contribuição para a UE, ganhará controlo sobre a migração e as fronteiras e representação nos fora internacionais. Dizem, finalmente, que no fim ficarão dois, Reino Unido (RU) e EUA, quase 30% do PIB mundial, unidos (ou separados?) por um oceano, uma língua, uma história e algumas guerras em comum.

Primeira questão em caso de “brexit”: em que medida poderão os ingleses negociar com os titulares do mercado interno – os Estados-membros sem o RU – um acesso semelhante ao actual ou que pelo menos mantenha o nível de exportações britânicas para o continente? Porque não emular a Noruega, que não pertence à UE mas tem índices de desenvolvimento e justiça social ímpares? Por fazer parte do Espaço Económico Europeu, a Noruega tem acesso ao mercado interno europeu, mas é obrigada a implementar as normas europeias respectivas, sem poder de decisão sobre elas. Participa mas não vota – e paga, sendo o 10º mais importante contribuinte para o orçamento europeu. Num modelo semelhante, calculou o Open Europe, o RU gastaria 94% do que gasta hoje em dia. Valerá a pena?

Segunda questão: como será negociada uma eventual saída? Explica o “Economist”: “o artigo 50 prevê que a UE negociará um novo acordo com o país que sai no prazo de 2 anos. (…) ao negociar um novo acordo, actua sem o envolvimento do país que sai. (…) imaginem um divórcio pedido unilateralmente por um parceiro sendo os termos fixados unilateralmente pelo outro”. É difícil imaginar um resultado favorável ao RU, conclui o artigo: os restantes países não teriam “incentivo para actuar com generosidade”, até para não favorecer a ideia de que a saída da UE é um processo indolor, alimentando a retórica populista.

Em toda esta discussão, afinal, o que dizem “eles” (isto é, como vai o debate)? O Chanceler do Tesouro britânico, George Osborne, apresentou uma análise concluindo que um acordo pós-“brexit” com a Europa que prescinda da livre circulação reduzirá o PIB britânico em 6,2%. “(…)cada família ficaria mais pobre em cerca de 4.300 libras por ano” (Osborne). E o que dizem “os outros”? “É uma oportunidade para renovar as nossas relações com a Commonwealth”, afirmou David Davis, convicto eurocéptico conservador. Até porque “(…) a continuação britânica na União impede a nação de reforçar os laços comerciais com os países da Commonwealth, muitos dos quais crescem a níveis superiores aos das economias europeias” (Tamara Chabe, Telegraph). É verdade, mas a UE, em que se inclui o RU, tem hoje ou está a negociar acordos de livre troca com quase 90% dos 50 países da Commonwealth, para além de que o comércio inglês com esses países é menos de um quarto do que é com a UE. “(…) perde o interesse para o Canadá se (o RU) não for parte do mercado europeu, porque o mercado europeu é muito maior do que o britânico” (Jayson Myers, economista chefe da Canadian Manufacturers and Exporters association).

De um lado e de outro, não faltam argumentos. O que dizem “eles”? Que o “brexit” pode “provocar graves danos regionais e globais” (FMI); que a defesa da continuidade na União deve basear-se no patriotismo (Gordon Brown); que a presença britânica na Europa é fundamental para atrair investimento (os líderes de federações comerciais de 34 países europeus). Enquanto isso, “os outros” dizem que a UE empobrece o país, retira-lhe soberania, leva ao crescimento descontrolado da imigração e dos refugiados, impede o aprofundamento das alianças naturais inglesas (com Commonwealth e EUA); dizem que a saída permitirá ao país negociar os seus próprios, exclusivos e mais estreitos acordos comerciais com os americanos. E foi nesse exacto ponto que, no decorrer da semana passada, o presidente norte-americano “tirou o tapete” aos “outros”. O que disse Barak Obama:

Que a relação especial entre os dois países continuará eternamente. Que, em qualquer caso, a decisão é exclusivamente dos britânicos. Mas que a presença britânica na liderança da Europa magnifica o seu poder e influência no Mundo. E sobretudo, disse que uma eventual saída do RU deixará o país “no fim da fila” (“in the back of the queue”) dos acordos comerciais com os EUA. “É justo dizer que algures no tempo haverá um acordo entre RU e EUA mas não acontecerá em breve, porque o nosso foco está na negociação com um grande bloco, a UE”.
Foi como se uma bomba atómica rebentasse no campo dos “brexiteers”. A reacção destes foi rápida e violenta: o Mayor de Londres, Boris Johnson, sugeriu que a posição do “em parte queniano” presidente Obama tinha a ver com a sua “antipatia ancestral pelo Império Britânico”. “Façam como eu digo, não façam como eu faço”, referiu Johnson a propósito da ideia de cedência de soberania que, na sua opinião, resume a relação britânica com a Europa e que os EUA nunca aceitariam. Obama respondeu referindo organizações como a NATO, o G7, o G20 (e, acrescento, a Organização Mundial de Comércio), exemplos de como o reforço da segurança se faz hoje justamente pela cedência de soberania. Nigel Farage, líder do UKIP, classificou como “monstruosas” as declarações de Obama. E foi mais longe: “(…) com o que ele disse, assegurou o seu futuro financeiro (…)” permitindo às grandes corporações norte-americanas, através do Acordo Transatlântico, “comprar grandes bocados dos nossos serviços públicos”. Essa seria a grande motivação do presidente americano.
Tinha Barak Obama direito a fazer aquelas declarações ou terão razão os críticos – racismo e aleivosias à parte – em contestá-las? À luz do que os defensores do “brexit” proclamam, não me parece: se a alternativa à UE é uma outra (espécie de) união, o reforço dos laços – comerciais, mas não só – com os americanos, então estes devem ter algo a dizer.

Os britânicos, a crer nos estudos de opinião, dividem-se entre indiferença e indignação. E já alguns encolhem ombros: afinal, Obama vai-se embora no final do ano. É verdade, mas entretanto Hillary Clinton, mais do que provável nomeada democrata e muito possível primeira mulher presidente dos EUA deixou claro, através do seu conselheiro político Jake Sullivan: “acredita na cooperação transatlântica, e que essa cooperação é tanto maior quando a Europa está unida. Ela valorizou sempre um RU forte numa União forte. E valoriza uma voz britânica forte na EU”. Os defensores da saída podem ainda ter esperança em Donald Trump, mas esse é um dos problemas da campanha pela saída: entre os seus apoiantes contam-se por exemplo Marine Le Pen, que aparentemente não é bem-vinda ao RU para dar apoio ao “brexit” (e alimentar um possível “Frexit”…).

Há argumentos a favor e contra. O “brexit” pode despoletar uma saída escocesa (pelo menos um novo referendo); determinará o futuro do RU e da UE (mas o respeitado Paul de Grauwe defenda que a saída britânica reforçará a coesão da União, tornando-a mais forte), sem falar do destino político de Cameron. Contra o “brexit” pronunciam-se e pronunciaram-se líderes europeus, norte-americanos – Obama e Clinton -, de todo o Mundo (da Commonwealth), outras organizações internacionais, como a EFTA e o FMI, grandes empresas multinacionais, a City de Londres, entre muitos outros. A favor, Nigel Farage, Boris Johnson, inúmeros deputados conservadores, Le Pen (Putin?).

“Se o Reino Unido tiver de decidir entre a Europa e o mar aberto, deve sempre escolher o mar aberto” (a frase não é exatamente assim, sugiro a leitura do artigo “A revealing deception about Winston Churchill?”. “O governo fez bem em candidatar-se à adesão à Comunidade Económica Europeia”. As duas frases são atribuídas a Churchill. O que dirá o povo inglês no dia 23 de Junho de 2016?