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A felicidade não é assim tão fácil de reduzir ao seu significado. Cada pessoa sabe o que a faz sentir-se feliz de acordo com as suas próprias fontes de satisfação. É um sentimento de plenitude e sensação de equilíbrio total, sendo a alegria o ingrediente principal que anima esse afeto de vivacidade.

É o desejo mais aspirado por todos, fazendo parte de todos os pedidos íntimos; no sopro das velas do bolo de aniversário, na entrada do novo ano, nas mudanças de etapa de vida, todos esperam alcançar esse estado. Ao mesmo tempo, há uma consciência coletiva de que é difícil mantermo-nos permanentemente felizes, devido às coisas mais pesarosas da vida que atrapalham e pregam rasteiras.

Aristóteles reconheceu como elementos básicos da felicidade, a boa saúde, a liberdade e uma boa situação económica. Algo tão atual nos discursos generalistas sobre o que ajuda a ser feliz: ter saúde, amor, um bom trabalho e dinheiro. Passados séculos e séculos, as principais aspirações não mudaram.

Bertrand Russel, no seu livro A Conquista da Felicidade, concluiu que para atingir a felicidade é necessário alimentar uma multiplicidade de interesses e de relações com os outros Homens. Para manter o gosto de viver, deve eliminar-se uma posição egocêntrica e ultrapassar o perigo/infelicidade que o cansaço gera. Ou seja, a pessoa que é capaz de descentrar-se e olhar para os outros, sendo altruísta e fazendo os outros felizes, ganha com o reflexo da felicidade que causa à sua volta.

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Freud elucidou-nos que todos os Homens procuram a felicidade através da regência do Princípio do Prazer, mas explica-nos igualmente que, como não é possível viver apenas segundo o Princípio do Prazer porque existe outro Princípio, que é o Princípio da Realidade, o máximo a que conseguimos aceder é a um estado de felicidade parcial. No balanço entre prazer e realidade, vivemos mais ou menos felizes quanto melhor conseguirmos encaixar e equilibrar os dois princípios no nosso modo de vida. Devemos aceitar o imperativo da realidade e usufruir dos nossos sonhos tornados realidade, das conquistas conseguidas, da capacidade de sonharmos acordados.

Se a felicidade é, sobretudo, um estado mental que se traduz na serenidade sentida na psique e num estado de relaxamento sentido no corpo,  todos os sinais de ansiedade que nos podem assaltar devem ser identificados para serem suspensos. Quando invadidos por tais ânsias, podemos tentar pausar o nosso pensamento, adotar uma atitude compreensiva sobre o que nos está a deixar ansiosos, de modo a não perder o pé e continuarmos a nadar sobre as várias marés da vida.  Afinal, inevitavelmente, temos de nos defrontar com momentos infelizes e temos de ser capazes de não nos afundarmos na amargura. Ultrapassar esses momentos contribui para o sentimento de feliz alívio. Suplantar as adversidades permite reencontrar a segurança e manter a noção que tudo se compõe. Na maioria das vezes, mesmo vivendo situações muito difíceis,  os aspetos da nossa vida que alimentam a sensação de bem-estar geral não são afetados. A frase feita que diz que “a vida continua” é senão esse conforto e embalo para continuarmos a andar para a frente.

É importante termos a noção que a prevalência de mais ou menos estados de felicidade depende da nossa interpretação do mundo, de como pensamos e sentimos, de como nos colocamos nas nossas relações e da nossa vivência interior.  Aproveitarmos a nossa vitalidade, irmos auscultando como mantemos o que gostamos, apreciarmos os nossos e o que é nosso, rirmos com genuína vontade e alegria, reconhecermo-nos no caminho que escolhemos seguir ao longo da vida, deixarmo-nos surpreender pelo que o mundo nos traz de novo e sentirmos a calma são ingredientes para conservar os pedaços de felicidade. Há que guardar bem os momentos doces, que ajudam a combater aqueles ocasionais amargos. Sabemos bem que não é possível termos todas as esferas da nossa vida irradiadas pela luz cor-de-rosa. Aliás, nem nós aguentaríamos estar sempre a suspirar de êxtase. Há que intercalar tranquilidade e estados de paz. Aceitar as intempéries. Ora bem, a felicidade mora num lugar precioso dentro de nós, competindo-nos saber onde está a chave que abre essa porta, para aí entrar e ficar, nem que seja por uns instantes.