A tecnologia e o aspeto económico encantam, mas os dilemas éticos precisam de ser resolvidos. Os veículos autónomos já estão entre nós. Numa escala de autonomia de 1 a 5, estão disponíveis, desde 2018, carros que alcançam o terceiro grau. Isto significa que os veículos travam, aceleram, estacionam sozinhos, conseguem refazer caminhos em marcha atrás ou em auto estradas, fazem curvas e entendem placas de sinalização, adaptando-se à velocidade do tráfego na via, mas ainda com a supervisão de um ser humano. Os níveis 4 e 5, que devem ser alcançados apenas na próxima década de 2020, não vão exigir o acompanhamento humano tão atento. Será possível dormir ou assistir à Netflix numa viagem entre Lisboa e Porto, enquanto se degusta um vinho tinto.

Porém, o avanço da tecnologia não virá sem dilemas éticos. Se um carro autónomo tiver de escolher entre evitar a morte de uma criança que cruza uma estrada ou bater contra uma carrinha com cinco passageiros adultos, qual será a opção dos algoritmos? Como ficarão os empregos de milhões de motoristas da Uber e Lyft depois de os níveis 4 e 5 de automação forem alcançados? Dilemas como estes ainda não foram resolvidos, mas estão a ser discutidos por académicos em todo o mundo. Em sociedades tão distintas, onde a ética tanto pode ser regida por livros sagrados, como por constituições, a discussão sobre estes temas não é trivial.

Enquanto isso, o aspeto económico prevalece. A Uber e Lyft, mesmo sem ainda terem uma frota autónoma, amealhavam, em setembro de 2019, cerca de 72 mil milhões de dólares de valor de mercado. A título de comparação, a Lufthansa, a maior companhia aérea da Europa, vale menos de oito mil milhões de dólares. Isto porque investidores e analistas veem o potencial do transporte compartilhado e apostam no futuro autónomo desta indústria, quando talvez ela se tornará lucrativa.

Discussões com taxistas à parte, o transporte partilhado no Brasil, por exemplo, transformou as metrópoles do país mais do que qualquer política pública. Os brasileiros fizeram mil milhões de viagens somente no ano passado. Tais números refletem somente o começo da curva da disrupção que o setor dos transportes irá sofrer na próxima década, acelerado pela fenómeno dos carros autónomos.

Por outro lado, o anúncio da Google sobre o seu projeto de lançar um veículo autónomo para o grande público produziu ‘ondas’ em todo o mundo e despertou os gigantes da indústria automóvel e empresas como a Uber. O efeito manada é positivo para o consumidor, porque agora assiste da plateia a uma corrida ao ouro de, pelo menos, 20 grandes players.

E, importa não esquecer, os efeitos positivos destes novos veículos. Os carros autónomos prometem acabar com o problema de estacionamento nas grandes cidades e o desperdício de combustível, bem como diminuir as emissões de gases no meio-ambiente, já que a maior parte deles “nasce” elétrico. Na indústria, camiões e veículos de cargas autónomos já estão a ser usados para transportar contentores em portos e nos arredores de Frankfurt, com a autobahn (sistema rodoviário federal de acesso controlado da Alemanha) a possuir uma via exclusiva para estes veículos.

A economia de escala que esta tecnologia vai proporcionar e o aumento de produtividade só vão poder ser medidos quando as primeiras cidades a adotarem verdadeiramente. Conseguem imaginar nunca mais chegarem atrasados a uma reunião porque o taxista errou no caminho ou receberem na varanda da vossa casa uma garrafa de Rioja para o jantar entregue por um drone? O futuro promete.

*Alessandro Barbosa Lima é cofundador do grupo Elife e do BuzzMonitor.

Este texto insere-se na série de artigos de opinião denominada “Stranger Topics – Tendências para a década de 2020”, desenvolvida pela Elife – empresa pioneira em inteligência de mercado e gestão de relacionamento nas redes sociais. Cada texto é relativo a uma de oito tendências digitais que a empresa definiu, com base numa perspetiva otimista para a próxima década.