O “alegadamente” é uma nova forma de vida. Vive connosco, respira connosco, atravessa as redações, as empresas, os cafés e as conversas de jantar. O “alegadamente” tornou-se uma vulgaridade verbal, um escudo moral, uma espécie de vacina para quem quer dizer tudo e não assumir nada. Com uma simples palavra, o orador acredita que se liberta de qualquer responsabilidade. Mas está redondamente enganado. Porque o “alegadamente” é, queira-se ou não, a cobardia de quem quer ferir sem deixar impressões digitais.
O jornalismo, que devia investigar antes de publicar, passou a funcionar no modo “alegadamente”. O título é lançado, a suspeita é semeada, o rumor germina, e quando se descobre que afinal nada daquilo se confirma, o dano está feito. O “alegadamente” é a melhor forma de lançar lama e continuar de mãos limpas. É a desculpa perfeita para o imediatismo das redes sociais, onde importa ser o primeiro a dizer — não o primeiro a estar certo.
Mas não é apenas nos media que o “alegadamente” reina. Nas empresas, o fenómeno é igualmente pernicioso. Alegadamente alguém disse isto numa reunião, alegadamente aquela chefia almoçava com alguém da concorrência, à descarada, alegadamente há um plano oculto, uma intenção, um favorecimento. E de alegação em alegação, o ambiente degrada-se, a confiança evapora-se e a cultura organizacional implode. O “alegadamente” é, assim, a arma do cobarde e o refúgio do invejoso: destrói reputações, semeia divisões e mata silenciosamente o sentido ético das equipas.
No espaço público, a palavra funciona como uma licença para difamar. Comentadores, cronistas, influencers e cidadãos comuns usam-na como um detergente sem qualquer filtro moral. “Alegadamente” alguém roubou, mentiu, traiu, enganou. E quando a verdade chega — se chegar — já ninguém quer saber. O boato, uma vez espalhado, tem vida própria. E o “alegadamente” foi apenas o início de uma longa história de contos e pontos e mais pontos.
O mais inquietante é que o “alegadamente” já invadiu o nosso quotidiano pessoal. Nas conversas entre amigos, nas redes sociais, até nos grupos de família, o verbo substituiu a responsabilidade. Alegadamente, o vizinho faz isto. Alegadamente, o colega fez aquilo. Alegadamente, o outro disse. E todos participam num jogo perigoso, de “telefone estragado”, onde a fronteira entre a verdade e a invenção se dilui. Com uma agravante, fácil de adotar, omitir também a palavras alegadamente. E quando chamado à colação é o diz que (não) disse. Devia ter dito alegadamente. Tudo estragado na mesma.
O “alegadamente” é, por isso, um vírus sem cura fácil. Alimenta-se do vazio ético, da pressa e do prazer de julgar. Transforma a dúvida em condenação e a suspeita em sentença. Destrói carreiras, amizades, reputações com a leveza de quem apenas quis “comentar”. Mas há sempre vítimas — e raramente há culpados.
Tudo o que seja não comentar, não alimentar, não saber e sair da conversa, caiu em desuso. É pena. Pena porque temos um novo modo de estar que é o “alegadamente”. E, com isto, tudo se pode fazer, dizer, inventar. Temos o mundo dos cobardes do “alegadamente”. Destruidores de vidas. Destruidores de pessoas. Inexistentes em carácter.