Há um mês o Sami fez os Coliseus. O Sami é o Samuel Úria. Em Portugal o músico que faz os Coliseus prova que deu certo. São as duas salas gémeos que, em Lisboa e Porto, representam o maior prestígio. Imaginem, por isso, a festa que foi para os amigos do Sami estarem com ele nessas duas datas. Foram, de facto, inesquecíveis.

Eu e o Sami somos quase família porque a mãe dele, a Dona Madalena, é irmã de uma tia minha, a Tia Manuela, que casou com o meu Tio Teotónio, irmão do meu avô paterno (já partiram os dois). Conhecemo-nos, por isso, desde sempre. Mas foi só a partir de 1998 que nos tornámos mesmo amigos. Nesse ano estive na Igreja Baptista de Tondela, onde eu e ele passámos meia hora a tocar juntos apenas no acorde de Mi. Foi nesse momento que para sempre se selou a nossa amizade.

Nessa altura eu tinha uma banda de rock que era um grande sucesso no minúsculo universo das Igrejas Baptistas portuguesas. Chamava-se “A Instituição” e o Sami era fã. Depois daquele encontro músico-existencial no acorde de Mi, o Sami sentiu-se mais à vontade para me ir mostrando através de conversas do MSN algumas canções que ele fazia em jeito de brincadeira. Quando comecei a ouvi-las entendi imediatamente que o que o Sami fazia a brincar era melhor do que aquilo que eu tentava fazer a sério.

Foi nesse contexto que um ano depois, em 1999, tivemos a ideia de fazer uma editora discográfica. A FlorCaveira nasceu da mistura da ressaca adolescente do punk com uma esperança vaga de maturidade futura, agora que terminávamos os nossos cursos superiores e os casamentos estavam à porta. Por um lado, tínhamos de crescer, por outro, queríamos resistir contra a vida adulta. Seis amigos selaram esse pacto: eu, o Sami, o Miguel Sousa, o Paulo Ribeiro, o João Marques e o João Eleutério.

Os discos da FlorCaveira eram ouvidos por quase ninguém mas mesmo nesse aparente fracasso destacava-se o Sami: as suas composições eram clássicos instantâneos até quando pareciam apenas brincadeiras, o seu carisma absorvia as atenções dos ouvintes, a sua simpatia derretia todos. Os nossos concertos passavam por fases distintas mas em todas permaneciam estas qualidades do Sami. Tocávamos fados em restaurantes e o Sami marcava, tocávamos punk em casas ocupadas e o Sami marcava, tocávamos louvores em igrejas evangélicas e o Sami marcava.

Apesar disso, nunca esperámos que a FlorCaveira desse nas vistas. O efeito-surpresa veio com a banda-mascote nascida em 2005: os Pontos Negros (que comemoraram 20 anos a semana passada num belíssimo concerto no B.leza). Aqueles miúdos que tinham aprendido a tocar connosco ofereceram uma espécie de viçosa versão portuguesa a partir de referências como os Strokes e os Arctic Monkeys. As palavras eram na nossa língua com uma autenticidade que naquela década não se praticava em Portugal. Foram eles que deram nas vistas. Em pouco tempo a Universal contratava-os e a imprensa especializada descobria que, atrás deles, existia um estranho universo de religião e punk rock.

Quando no início de 2008 os Pontos Negros deram um concerto no entretanto extinto Music Box aproveitei para lançar um disco novo que tinha acabado de gravar chamado “IV”. Aquela noite estava cheia de gente da indústria e da imprensa que recebia à entrada um suspeito CD-R numa capa barata de cartão. Fiz a primeira parte dos Pontos com um palco invadido por cúmplices que mais tarde deixariam a sua marca também: o Sami, o Jorge Cruz, o Manuel Fúria e o João Coração. A seguir vieram os Pontos que cumpriram as expectativas mas, verdade seja dita, o momento mais inclassificável tinha sido nosso.

Nesse ano a FlorCaveira rebentou. Em retrospectiva, há quem encontre nesses tempos uma espécie de renascimento da nossa língua na música pop e uma revalorização da produção independente. Concordo. Acho que foi isso tudo. Mas também foi mais: houve um teste a todos os artistas que no contexto da editora se destacavam. Passados quase 20 anos, foram poucos os que ficaram a viver dessa música surpreendente. O Sami foi um deles.

Numa das canções do “IV” tentei imitar o Sami. Escrevi um refrão que começava só com palavras começadas pela letra M: “mano a mano medimos manias à maneira/murmuras modelo em Madonna mas tu beijas como uma freira”. Essa canção tornou-se a mais conhecida do disco e foi essa canção que o Sami fez questão que cantasse com ele nos Coliseus.

Há alturas na nossa vida em que sentimos que círculos se completam. É uma bênção quando assim acontece. É uma bênção também aquilo que o Sami é para tanta gente. Para mim, seu amigo de longa data, e para todo um país que o vai reconhecendo. Com ele sou sempre agradecido e, porque sei de onde ele veio, sei também para onde ele vai. Só é preciso um primeiro acorde de Mi.