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Um partido, um Governo e um país são realidades distintas, procurar fundi-las numa só espoleterá um de dois resultados: o início do fim do Governo ou, pior, da democracia. Certo é, que o caminho que conduz a um destes resultados leva à degradação das instituições do Estado.

No período de maior pressão sobre a capacidade de resposta do Estado para com os cidadãos, é quase impossível não existirem falhas no cumprimento do serviço público. Na Justiça, reguladores, forças de segurança, Saúde e em tantas outras áreas, o Estado não funciona com normalidade porque não vivemos um período normal.

Esta aceção é clara e básica, percetível pelo cidadão comum. No mesmo sentido, torna-se evidente que não se devem sacrificar os setores do Estado com atos de egoísmo partidário. Porque num contexto de pandemia, estes atos resultam inevitavelmente numa má gestão e consequente pressão brutal sobre as nossas instituições. Se é tão básico perceber isto, torna-se chocante assistir a graves falhas e erros na Justiça, Saúde, forças de segurança e em tantas outras áreas nestes últimos meses.

A nomeação para a Procuradoria Europeia e o caso do SEF são os episódios mais recentes de uma série de acontecimentos a que se juntam Pedrogão Grande e familygate como exemplos de um vasto leque de casos. Todos eles são reveladores de flagelos da governação socialista que fissuram as instituições do Estado.

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A lealdade política do ministro Eduardo Cabrita a António Costa não deveria ser um critério para o manter no Governo. É a atuação da ministra daJustiça que é nociva para a imagem do país e não são as críticas à sua conduta que degradam a imagem de Portugal. O Primeiro-Ministro defende os ministros do seu Governo com critérios que sedimentam o seu poder no PS, mas degradam a política do Governo e abalam as instituições do país. Ou seja, põe os interesses do Governo e do país no mesmo plano dos interesses políticos do PS.

Deste padrão de governação surge uma clara relação: os casos políticos do atual Governo aconteceriam independentemente da Covid-19. Mas não deveriam ocorrer, especialmente durante a pandemia.

Colocam uma pressão maior sobre a capacidade de resposta do Estado. A amplitude destes erros obriga a uma gestão política pelo Governo. Consequentemente, o Primeiro-Ministro e os membros do seu Governo consomem o seu tempo a gerir os próprios erros em vez de se dedicarem à primeira prioridade do país: combater a doença Covid-19.

A necessidade de gerir estes casos é intensificada, porque mediante os erros sucessivos demitem-se diretores de primeira linha e os políticos responsáveis pela sua nomeação, hierarquicamente superiores, permanecem num estado politicamente “zombie”. Ou seja, quase mortos, ocupam um cargo político, mas esvaziados de autoridade moral.

Esta realidade não ocorre no melhor interesse do país. Ocorre no melhor interesse de uma parte do PS, que confunde o Governo com o partido. Se não confundisse, saberia que precisamos de um Governo com pessoas capazes em vez de “zombies”. Esta prática enfraquece a luta contra pandemia e cria uma pressão ainda maior sobre o Estado.

Esta estratégia política do PS não é nova. Aliás, não foram poucas as vezes, antes da pandemia, que António Costa foi apelidado de grande estratega pela forma como lida vom os casos políticos. A questão é que Portugal não precisa de um Primeiro-Ministro que saiba manter-se no poder, precisa, antes, de um governante que saiba mobilizar o país no combate à Covid-19.

O governo socialista está tão “viciado” em defender que “está tudo bem” que ignorou a necessidade de encerrar as escolas e recusou a ajuda dos privados na Saúde até que a situação se tornasse insuportável.

Nunca seria fácil gerir a terceira vaga desta pandemia. Ainda assim, meses antes da atual evolução deste surto epidemiológico faziam-se previsões sobre esta em toda a Europa. Portugal atinge os piores resultados, não apenas da Europa, mas do mundo. Perante esta realidade, é difícil perceber se o erro mais grave do Governo é não ter preparado a terceira vaga ou a forma como está a geri-la.

De junho a novembro de 2020, o Governo entreteve-se com os “namoricos” da gerigonça para aprovar o Orçamento. António Costa considerou ser mais importante dizer ao país que não precisava do PSD, que o BE lhe causou um desgosto e elogiar a geringonça “versão 2.0” com o PCP e PAN. Com esta atuação, a preparação da terceira vaga da Covid-19 ficou esquecida porque o PS estava demasiado ocupado em manter-se no Governo.

O comportamento do PS faz duvidar sobre qual seria a forma como lidaria com esta situação se estivesse na oposição. Em março de 2020, quando o país viveu o primeiro confinamento, Rui Rio desejou que o Primeiro-Ministro tivesse o melhor resultado possível no combate à Covid-19. Um mês depois, com uma postura oposta, António Costa recupera “desajustadamente” as palavras de Mário Soares: “Quanto mais a luta aquece, mais força tem o PS”. A luta é do país, não é de um partido. Torna-se claro que o PS não percebe isso.

Um partido merece continuar no Governo pela forma como gere o país e não como gere o poder.