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Os caçadores e gestores cinegéticos são os únicos ecologistas que investem dinheiro do seu próprio bolso na conservação da biodiversidade (quando me refiro a único, falo de estruturas com alguma dimensão). Pausa para digerirem esta frase.

Neste momento do artigo, tenho que demonstrar a algumas pessoas, sobretudo urbanas de alcatrão, aquilo que escrevi. Vejamos se consigo. Vou seguir duas estratégias, na esperança de ter sucesso com pelo menos uma. Na primeira, vou apresentar factos, na segunda lançar um desafio.

Há algumas décadas atrás, tínhamos uma agricultura de pequena escala, familiar, de subsistência e com pouca industrialização que favorecia as espécies selvagens. Restava um campo agrícola que tinha ficado “fraco”, por apanhar, de girassol, de centeio, de aveia, havia uma couve e uma alface que o coelho-bravo roía, que a perdiz depenicava e em que a lebre-ibérica fazia a cama e paria. Hoje os pés de trigo são milimetricamente do mesmo tamanho, crescem todos por igual, pela água e fertilizantes, e quando vem a debulhadora, nem palha fica para contar a história, quanto mais grão.

A caça é a agricultura familiar dos dias de hoje. É ver homens e mulheres, jovens e reformados a acordarem de madrugada para ir encher os bebedouros e comedouros por esses campos de fora. E é ver as espécies selvagens, cinegéticas ou não, a correr ao seu encontro, e que bem que lhes sabe. Não têm grande alternativa. E fazem-no gastando dinheiro do seu próprio bolso, aos milhões, ano após ano, década após década. Noutras zonas, onde não é feito este apoio pelo homem, os animais desesperam buscando alimento, até que são atropelados ou entram dentro de uma estufa destas, de livre circulação, e são capturados para sessão fotográfica. Ou desesperam à busca de uma poça de água da chuva que às vezes tarda em chegar. Há quem lhe chame efeito de estufa, e o PAN é o primeiro partido a sofrer dele.

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Inês Sousa Real disse a 13 de agosto de 2021 que “proteção das espécies não rima com caça”. Eu tenho até dificuldade em comentar esta afirmação, mas a única coisa que me ocorre é: sendo o PAN um partido demagogo, será que nas suas assembleias gerais discute as suas novas propostas de lei, felizmente quase sempre extensamente chumbadas, consoante as coisas rimam ou não. As poucas aprovadas, são mesmo com PANo à frente dos olhos. Neste caso, resta-me dizer que o seu apelido rima com “surreal”.

Afirma ainda que “Portugal não pode continuar a investir em setores do século passado que nada acrescentam à nossa sociedade e menos ainda à preservação das florestas e da biodiversidade”, esquecendo-se que a caça não é um setor do século passado, é um setor do Paleolítico Superior, de há cerca de 40 mil anos, no mínimo. E pelo caminho selecionou das raças de cães mais equilibradas, inteligentes e úteis que temos na atualidade. Os urbanos selecionaram braquicefálicos, que mal respiram. Mas história e verdade não rimam com PAN.

Conseguimos ainda ouvir que “caça não é sustentável” ou que “é um entrave à conservação de espécies, contribuindo para o seu declínio”. Atreve-se a colocar duas referências bibliográficas para justificar estas afirmações, que tive curiosidade em consultar. São elas um website estilo blog e um artigo publicado numa revista científica do quarto quartil (revistas classificadas entre as 25% piores), com um impact score de 0.00 (valor que vai de 0 ao mais infinito, sendo 0 o pior). Sabemos porque o fez, porque todas as fontes fiáveis dizem exatamente o contrário. PAN não rima com fontes fiáveis nem com ciência.

Mas não acaba, conseguimos encontrar algo como “cães de caça devem estar presos à trela ou devem utilizar açaimes” ou “Conselho Nacional da Proteção da Biodiversidade e da Natureza”. Aparentemente a primeira é a mais insólita, mas preocupa-me mais a segunda. É que demonstra que o PAN é um partido que se parte por todos os lados, porque não sabe que Biodiversidade é a diversidade da Natureza viva, ou seja, propõe um “Conselho Nacional” para estudar algo que o próprio nome afirma desconhecer, ou baralhar. É como separar no seu próprio nome, Pessoas, Animais e Natureza, como se as pessoas não fossem animais e como se as pessoas e animais não fossem natureza. PAN não rima com definição.

Em segundo lugar, deixo um desafio para o PAN ou para os seus apoiantes: escolham uma área que conheçam em Portugal, onde tanta gestão ecológica e da biodiversidade é feita sem existir atividade cinegética. Não vale Parques Naturais onde um trabalho excelente e notável é feito pelos vigilantes da Natureza do ICNF (mas impraticável replicar em todo o território), por uma questão de conflitos de interesses. É que uma boa parte do orçamento do ICNF vem da caça. Eu escolho uma zona de caça a meu gosto.

De seguida, fazemos um jogo, sabemos que o PAN gosta de brincar à Disney. Vamos juntos contar o número e diversidade de espécies em cada uma das duas zonas. Eu pago o almoço, perdizes de escabeche com vinagre de framboesas. Deixo partir à frente três abutres negros e dois lince-ibéricos (5-0). Vamos ver onde se encontram melhores ecossistemas. Até ajudo o PAN numa previsão, a partir daí, cada dezena de animais que virmos na sua zona escolhida corresponderá ao número de deputados eleitos em janeiro. Com sorte um, bem contadinho.

Perdoem-me o erro ou ironia, não podem ser nem abutre-negro nem lince-ibérico, esses estão todos em zonas de caça, porque será. É que caça rima com família, com autenticidade e com biodiversidade. Mais, a atividade cinegética, num país consciente seria um bem de utilidade pública. O trabalho que os caçadores e os gestores cinegéticos fazem todos os dias é um dos poucos exemplos de altruísmo ecológico que temos à face da terra. Se um dia desaparecerem, custar-nos-á muito dinheiro, inimaginável, replicar o seu trabalho. E nem com dinheiro o conseguiremos fazer.