Esperavam que, como os outros, falasse de “estabilidade”. Mas Pedro Passos Coelho falou de reformismo. A imprensa fez logo soar os alarmes: Passos “destoara”. Talvez Passos tenha, de facto, destoado, porque neste ambiente oficial de situacionismo rigoroso, é fácil destoar. Mas Passos, destoando ou não, quando falou de “reformas” falou também de “estabilidade”. Porque em Portugal, se alguma coisa devíamos ter aprendido dos últimos vinte e tal anos, é que nunca haverá estabilidade sem reformas.

A estabilidade, tanto social como governativa, depende neste momento de reformas. A estabilidade social é necessariamente sinónimo de viabilidade. Em Portugal, há demasiados “sistemas” – de saúde, educação, segurança social, etc. — que precisam de ser viabilizados, o que só se poderá alcançar com reformas. Sem as reformas, as dúvidas acerca desses sistemas tenderão a subverter a confiança pública, e a criar uma constante expectativa de dificuldades e de colapso, como aconteceu com o SNS durante o último ano. As reformas são também a chave da estabilidade governativa. Quando a governação depende da concertação de vários partidos ou de várias correntes dentro de um mesmo partido, um pacto reformista, até pelo vínculo que cria com o público, será o único meio de levar grupos políticos diversos a sustentar um governo forte.

Mas nunca haverá reformas sem uma maioria parlamentar reformista. As reformas, por mais necessárias que pareçam a alguns, dividem. Dividem porque incomodam interesses instalados, geralmente os mais ruidosos, e porque aquilo a que chamamos reformas são opções de orientação liberal. Pressupõem que a liberdade e a prosperidade derivam da maior autonomia individual dos cidadãos perante o Estado. Nem todos pensam nestes termos. A esquerda, por exemplo, pensa de outra maneira. Nenhuma governação apoiada na condescendência da esquerda poderá, portanto, ser reformista.  As reformas requerem uma comunhão de pontos de vista que só é possível entre forças políticas que neste momento estão à direita. As combinações entre direita e esquerda dão o que vemos na Alemanha: um governo estropiado logo no primeiro momento.

Por isso, nunca haverá uma maioria reformista em Portugal sem que a liderança do maior partido à direita, por enquanto ainda o PSD, tenha a visão e a autoridade requeridas para congregar uma direita agora plural no sentido de sustentar um esforço de mudança bem ordenada. Sem visão, nunca haverá um impulso reformista que possa mobilizar os diversos grupos políticos, e sem autoridade, ninguém os poderá dirigir. O grande problema político de Portugal neste momento é que a actual liderança do PSD não tem visão nem autoridade. Visão, nunca a teve, reduzindo desde cedo a sua governação a uma imitação do tipo de domínio político do PS, e autoridade, se alguma vez a teve, perdeu-a pela opção do primeiro-ministro de não separar negócios e carreira política.

Os fiéis do situacionismo continuarão a repetir o mantra manhoso de que “o país não quer mudar”. Se o país não quisesse mudar, ainda seríamos governados pelo PS. O país sabe que tem de mudar. Aliás, o país está a mudar, sob pressão do envelhecimento, das migrações, do marasmo económico e da turbulência internacional: a questão já não é mudar, mas obter controladamente, no meio das transformações em curso, a adaptação que mais convém à sociedade. As reformas não são uma alternativa a ficar tudo na mesma, mas ao caos de mudanças descontroladas. Por isso, a desgraça do país reside nesta sequência fatal: o PSD, por causa de Luís Montenegro, não está capaz de liderar uma maioria reformista, sem esta maioria reformista não haverá reformas, e sem reformas não haverá estabilidade, por mais que falem dela.