Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

1 – Há mil cerimónias como esta, o mesmo modelo, o mesmo tom de voz emocionado, discursos, um palco onde alguém elogia outro alguém. Aquilo de que hoje quero aqui deixar registo também foi assim – uma homenagem, um homenageado, emoção, abraços comovidos – mas não foi só assim. Foi qualquer coisa de muito próprio, teve uma assinatura e não o digo por não me ser nada indiferente o protagonista. Não. Digo-o porque foi a vida e a história de José Manuel Galvão Telles – o homenageado – que teceram a envolvência deste encontro. Amigos, familiares, homens de leis, colegas, políticos, artistas, intelectuais, um mundo enfim, que de algum modo se revia naquele homem e naquela vida e que acorreu à chamada para lhe dizer isso mesmo.

Uns disseram-lhe no recato de um abraço; outros, em voz alta, diante de um microfone, como António Pinto Leite ou António Serra Lopes, partilhando com a plateia uma homenagem que se propunha celebrar a carreira e a vida do advogado José Manuel Galvão Telles.

Mas quer na forma, quer conteúdo, talvez nunca se tivesse achado o sentido dessa homenagem se José Manuel Galvão Telles, antes e depois de Abril de 1974, não tivesse deixado uma “marca de água”, na advocacia, na política, na sociedade civil, nos seus amigos.

Das organizações juvenis católicas à oposição ao antigo regime, da barra dos tribunais aos grandes casos da advocacia; da diplomacia que exerceu brevemente como embaixador de Portugal junto da ONU em 1975, ao exercício da cidadania, intervindo, escrevendo, participando; da criação de um dos melhores escritórios de advogados do país, onde ainda hoje, ininterruptamente e sem regateio de horas, exerce a sua profissão, ao Conselho de Estado (e estou a resumir), houve sempre o mesmo elo a unir estas tarefas e moradas. E esse elo é justamente a sua “diferença”: o modo persistente, generoso, fogoso, com que incansavelmente serviu causas e tantas foram. Causas através das ideias, de pessoas, de “casos” jurídicos, de empenhamento cívico. Discordei de algumas delas – e dele, tantas vezes – mas que importância teve isso afinal, se estava inteiro na dedicação tenaz ao que acreditava? Se no caminho, nunca “atropelou” ninguém – nunca lhe ocorreria, sequer – e sobretudo, se sempre soube ouvir adversários e até inimigos? Não que não discordasse deles – com veemência, com som, até ao osso; não que deixasse de os triturar com o brilho do jurista ou a farpa do político – mas ouvia-os, fazendo caso do que ouvia. A idade temperou-lhe o fogo da veemência, matizaram-se ideias e sentimentos e agora veio a “sagesse”, dote raro que não cabe a todos. José Manuel é um “sage” e não acho melhor palavra para dizer aquilo que a vida – e o que com ela ele fez – fizeram dele.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Patriarca do seu escritório, atento e generoso, presente e activo, mantém-se ainda hoje um exemplo como advogado – e cidadão e homem de família – para todas aquelas gerações, que se cruzam dentro do enorme edifício da Rua Castilho. Há tempos, dois desses advogados (ou deveria dizer os seus dois “delfins”?) Rui Patrício e Miguel Almada, acolitados pela competência profissional e o apuro estético de Nuno Galvão Telles, também ele advogado, quem sai aos seus não degenera, resolveram pôr em livro “uma vida de causas”. Juntaram papeis – alguns, muitíssimo interessantes, de resto – pediram testemunhos, contaram histórias, escolheram fotos, organizaram os sinais – jurídicos, políticos, intelectuais, culturais – de uma vida intensa. A concepção do livro é notável, indo muito além do mero somatório de “depoimentos” laudatórios, e concentrando-se antes na revisão de uma vida com as suas etapas, cantos e capítulos, com um painel de “causas” em fundo. Na capa, um surpreendente retrato de Galvão Telles, pintado por Júlio Pomar, amigo de todas as horas. Alta qualidade, portanto.

Não é todos os dias que se assiste a uma homenagem tão justa e simultaneamente tão genuinamente afectuosa. Em Portugal é raro celebrar-se a vida, guardam-se gestos e palavras para a morte, coisa com menos arestas. Mas também não é toda a gente que merece as magnificamente bem escolhidas palavras de António Pinto Leite, orador inspiradíssimo no retrato falado que “tirou” ao seu sócio… ( de muita estimação)

2 – Na campanha eleitoral para as eleições presidenciais em 1985, ficou a saber-se uma coisa extraordinária sobre Freitas do Amaral, dita aliás pelo próprio julgo que numa entrevista: “descobri a politica aos trinta e três anos”. Tardote, convenha-se. Andaria certamente entretido com outras coisas mas caramba, trinta e três anos é muita vida, foi preciso que até àquela idade não tivesse havido absolutamente nada na vida do país, em nenhuma das suas “fatias”, que o afligisse, incomodasse ou sequer interpelasse.

Lembrei-me disto ao tomar conhecimento de outra história de pasmar, mas as pessoas, de facto, podem ser extraordinárias. É o caso de Carlos Abreu Amorim que decidiu confessar – foi até louvado em editorial de um jornal de referência – que a crise do BES o fizera descobrir que já não podia ser liberal. Assim de pé para a mão, aos certamente mais que trinta e três anos, há alguém que “descobre” – puerilmente, infantilmente, oportunisticamente, malevolamente? – que o choque provocado pela crise económica mundial e as escassas semanas em que terá contactado de mais perto com a saga do BES, lhe tinham subitamente vetado o credo liberal.

É certo que não sabemos há quanto tempo tal veia e credo lhe orientavam a vida cívica e politicas mas, assim como assim, vestir e despir “peles” políticas e credos doutrinários, como se fossem casacos, é capaz de não exigir nem muito tempo, nem grande esforço. Seja como for, tudo aquilo me pareceu confuso, mas das confusões doutrinárias de Abreu Amorim já outros se encarregaram com uma competência que eu certamente não teria. O que vivamente me interpelou – ao contrário de Freitas do Amaral, com a política antes dos trinta e três anos – foi o motivo da mudança que no mínimo deixará pasmado qualquer ser normalmente constituído. E depois, claro, a própria mudança que o levou a zarpar para um, digamos, porto de abrigo mais aconchegado. E mais “ar do tempo”, mais conforme a alguma “media” bem pensante que isto de asfixiar o Governo num reduto onde ele nunca esteve, é de borla e traz grandes ganhos de popularidade a quem nunca a provou.

Sim, quem não se extasia perante alguém que confessa no palco a “insanável” contradição entre a “natureza humana” e o “liberalismo económico” – seja lá qual for o entendimento que Amorim tenha dele – desde que tal condenação acarrete consigo a condenação explicita deste “liberal” Governo?

Confrangedor, tenha Amorim mais ou menos de trinta e três anos.

3 – Há pessoas que pela sua qualidade intrínseca, pela prioritária prática do bem, pelo dom de si, encarnam o melhor da natureza humana e não só nesta quadra propensa ao olhar mais atento perante a capacidade de serviço de alguém.

Joana Santiago quase me põe em sentido, mas põe toda a roda do ano e não só neste natalício Dezembro. A sua “folha de serviço,” apesar da sua bela juventude, anima até os mais desconfiados perante esta coisa da bondade pelo outro: mãe de um filho portador de deficiência criou há uns anos um “banco de informações de pais para pais” (BIPP) pensando no aflitivo desnorteio que se apossa de quaisquer pais que se vejam subitamente na mesma situação. E por isso, baseado na sua capacidade de iniciativa e em dois ou três “carolas”, começou, sem “apoios”, por criar um serviço de atendimento social e apoio terapêutico e promoção da inclusão, com o objectivo de informar, aconselhar e capacitar crianças, jovens e famílias. Hoje o BIPP é já uma “Associação BIPP- Inclusão para a Deficiência”, orientado para a implantação de projectos que visem a inclusão de cidadãos com deficiência na sociedade.” Já estão em curso alguns desses projectos, existe já uma estrutura mais profissionalizada e conta-se com alguns, (não muitos) apoios. Ou seja, Joana Santiago e a sua equipa fizeram o BIPP galgar montanhas.

Assisti há semanas à apresentação de um desses programas, concreto, real, que já está no terreno e não apenas circunscrito ao papel ou encalhado no patamar das “boas intenções”. Chama-se “Semear” e ocorre no silêncio acolhedor da magnifica área arborizada da Faculdade de Agronomia. Trata-se de um “programa inclusivo de formação certificada e inserção profissional de jovens com necessidades especiais nas áreas da agricultura e jardinagem, sediado numa universidade” e quem o acolheu de mãos abertas e desperta consciência social foi justamente a Faculdade de Agronomia.

Há histórias felizes. Mas o que há sobretudo é pessoas que podem ser extraordinárias.

4 –Não aconteceu nada. Ninguém estranhou, ninguém achou esquisito, ninguém se incomodou que um “eleito da nação” tenha confessado a dois ou três dos seus pares no Parlamento, no âmbito da Comissão de Inquérito ao BES, que “ia lixar o gajo”, porque tinha em sua posse um “documento” que ele (gajo) “não sabia” que “eles” (deputados) tinham. O gajo, um membro da família Espírito Santo era o interrogado desse dia e o socialista José Magalhães mal escondia a ferocidade sibilina da sua alegria por ir “apanhar o gajo”, supostamente desmunido face à suposta armadilha um qualquer papel.

Já não está em causa a polca politica que ali se dança, nem os interesses políticos e não só políticos que ali se cruzam, nem é isso que me interessa agora. Já há muito que se percebeu, nesta devastadora história, de que é que a casa parlamentar gasta. Interessa-me sim a seriedade de processos, a responsabilidade parlamentar e a integridade de quem se senta diante de alguém com o objectivo de ser esclarecido e com isso, esclarecer o país. O comportamento do deputado e a confusão intencional entre o seu papel naquela comissão parlamentar e um vulgar jogo do jogo do gato e do rato, prova exactamente o contrário. Provavelmente porque os “maus” não estarão só do outro lado desta aflitiva história.

Por falar nisso, saúde-se o pedido de desculpas – e não por acaso “institucional” – de José Manuel Espírito Santo. Aconteça o que acontecer, é difícil esquecer esta forma de lisura quase cândida de tão evidentemente genuína, em cenário tão hostil e no turbilhão de uma das piores histórias de que me lembro.

5 – Se repararmos bem, a Grécia nunca deixou de estar na ordem do dia. Apenas variou o grau em que esteve no palco europeu: mais quente ou menos quente, mas sem nunca estabilizar numa temperatura normal. Durante meses meses e meses não havia ninguém com acesso a media, jornalistas ou comentadores que não nos colassem à Grécia, anunciando de caminho “o” segundo resgate que viria, era questão de semanas.

Portugal descolou totalmente da Grécia, não houve segundo resgate e até foi dispensada uma última “tranche” do empréstimo da troika. Espanta que tanta veemência posta na permanente comparação com os gregos nunca tenha conhecido o contraponto da realidade: a ninguém ocorre na Europa a comparação entre Portugal e a Grécia. O país, mesmo com trambolhões e tropeções, saiu do radar, não pertence à zona vermelha; a Grécia nunca saiu de lá e vejam-se as permanentes vicissitudes e dificuldades em que constantemente tropeça — e nem sequer me refiro apenas às goradas tentativas de fazer eleger um presidente… Basta só pensarmos no que ocorreria na Grécia e fora dela – na Europa mas não só na Europa – com uma vitória do Syriza. (Mas pensando ainda mais um bocadinho, talvez não fosse nem desinteressante nem inútil que tal ocorresse: o susto e as consequências do susto talvez agitassem as consciências de alguns portugueses e as “certezas” que elas produzem — e logo perfilhadas de resto pelos oportunistas úteis).

Ao contrário do que possa parecer não estou a pensar na velocidade com que a extrema-esquerda radical — esteja ela alojada onde estiver — passaria do êxtase ao mais glacial ressentimento. Refiro-me sobretudo aos que ainda mantêm como um “erro”, um “pecado” ou mesmo um “crime” (Soares, por exemplo!), que o centro-direita tenha “assumido” como o fez (sub-entendido, com “”austeridade”) o memorando de entendimento com a troika (se não o tivesse feito de onde chegariam os salários do mês seguinte?); ou os que ainda consideram que “valorizar “a consolidação orçamental é sempre “em detrimento” — céus! — da recuperação da economia, mas talvez estes dois exemplos de pura irrealidade bastem para mostrar como uma breve época de Syriza afogaria expeditamente todas as certezas ouvidas em Portugal nos últimos três anos e, de caminho, claro está, a própria Grécia.

Um caso a seguir, sem sombra de duvida, dados os extraordinários personagens que defendem a sua agonia.

6 – Boas Festas!