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10 de junho

Por que razão a esquerda tem medo dos “padeiros de Portalegre”? /premium

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2.869

A narrativa anti-JMT reflete bem a arrogância social, cultural, política e ideológica da esquerda bem pensante. Qualquer ideia diferente da sua é "populista", "anti-democrática" e "fascizante".

1. Como seria de esperar, a esquerda bem pensante assustou-se com o discurso de João Miguel Tavares (JMT) no 10 de junho. Já não tinham gostado da sua nomeação herege — um jornalista de Portalegre para falar nas cerimónias que decorrem em Portalegre, realmente, não lembra ao diabo, só ao Marcelo. Mas o que a esquerda não lhe perdoa mesmo é ter proferido um discurso que foi elogiado de forma generalizada — da esquerda à direita, do norte a sul, dos portugueses residentes aos emigrantes — por quem ouviu de boa fé. Essa aceitação geral do discurso de JMT é o que dói mais a quem pensa que tais elogios só devem (só podem!) estar destinados precisamente a essa mesma esquerda que se julga dona e senhora da democracia.

Os radicais da ala esquerda do PS, por exemplo, não perderam tempo e logo inventaram a tese do “discurso salazarento”. Porfírio Silva, o secretário nacional do PS que gosta de fazer de ideólogo daqueles radicais, foi rápido a lançar o mantra nas redes sociais de que o discurso de JMT, ao fazer um resumo óbvio da insatisfação dos cidadãos com os seus representantes políticos, fazia-lhe lembrar “muito o salazarento partido dos que não gostavam de partidos, como o próprio ditador [António Oliveira Salazar] dizia.” Pior: JMT esqueceu-se do que “os políticos da democracia fizeram pelo país”.

Não é de espantar que estes disparates fossem replicados por outras espécies de bloquistas travestidos de socialistas que gozam da proteção especial de António Costa. (Aliás, basta ouvir Francisco Louçã para perceber que a cola que une os radicais da ala esquerda do PS ao BE é cada vez mais sólida e robusta — pouco os distingue hoje em dia.)

Vamos esquecer a tremenda desonestidade intelectual de Porfírio Silva ao criticar JMT por não ter elogiado os progressos que a democracia trouxe a Portugal quando essa é precisamente a essência do discurso do autor — que recorre à sua história pessoal para ilustrar tudo o que o regime democrático fez por ele e por muitos como ele (como eu). E vamos esquecer porque essa desonestidade intelectual é a marca de água dos verdadeiros radicais.

Concentremo-nos no essencial. A acreditar na tese de Porfírio Silva, a crise da democracia representativa que se verifica um pouco por todo o mundo ocidental, com taxas de abstenção elevadíssimas (veja-se o novo recorde em Portugal nas europeias de maio) e um gap cada vez maior entre representantes e representados, nada tem a ver com a classe política. Tal como o facto de Portugal praticamente viver em estagnação económica desde 2000, com taxas de crescimento baixas e um fosso cada vez maior entre o poder de compra nacional e a média da União Europeia, também não é da responsabilidade de quem nos governou deste então.

Já sabemos que os socialistas gostam de culpar terceiros pelos seus próprios erros, mas convém Porfírio Silva não exagerar, sob pena de incorrer num outro mantra, esse sim verdadeiramente salazarista: se a responsabilidade não é dos representantes, a culpa é toda da populaça que não está preparada para a democracia.

2. A minha reação favorita, contudo, foi a da jornalista/escritora Inês Pedrosa — uma distinta representante da esquerda caviar que comenta (?) no canal público temas políticos no programa “O Último Apaga a Luz” (RTP). Começando por criticar o “tom fascizante” de JMT (por pedir à classe política um desígnio nacional para o país), Pedrosa acrescentou outras considerações que merecem ser reproduzidas ipsis verbis:

  • “(…) Aquele discurso deve ser feito por quem está habituado a pensar sobre o país (…) É ofender o país todo, chamar alguém que não é adequado, cuja função não é aquela [pensar sobre o país]. (…)”
  • “Ele não é um escritor… Ele próprio [JMT] se assumiu, e bem, que foi chamado por ser um homem comum”.
  • “Essa ideia de se chamar um homem comum, então que chamassem o melhor padeiro de Portalegre (…) Isto é populista e anti-democrático.”

Toda esta narrativa de Inês Pedrosa, complementar à de Porfírio Silva, reflete bem a arrogância social, cultural, política e ideológica da esquerda bem pensante — que já tinha descrito aqui. Encarcerados nos seus castelos do mundo cultural lisboeta, adulando o PS para que o Ministério da Cultura continue a pingar os sempre necessários subsídios e para que a comunicação social pública (RTP e RDP) lhes preste atenção, estes intelectuais só admitem que um dos seus possa ser presidente da comissão de festas do 10 de Junho. Qualquer outra ideia é “populista”, “anti-democrática” e “fascizante”.

Os caros leitores lembram-se de ter visto na RTP os cidadãos anónimos que estavam a ouvir os discursos das cerimónias do 10 de junho? Para gente como a jornalista/escritora Inês Pedrosa, o lugar do “homem comum”, vulgo “padeiro de Portalegre”, é ali, de pé, a levar com o sol. É ali, junto dos seus conterrâneos, que JMT devia estar.

Porque esse é o lugar do homem comum: na plateia, a ouvir os pensadores que “pensam continuamente o país” — e não a falar.

Inês Pedrosa reflete bem a hipocrisia da esquerda bem pensante. Dizem que lutam por uma sociedade mais justa — mas defendem as desigualdades. Dizem que querem que o Estado promova a igualdade de oportunidades — mas o que querem é defender castas e ‘tratar da vidinha’ junto do Estado. E dizem-se republicanos apologistas da social-democracia nórdica — mas mais parecem uma pseudo-elite decadente de uma qualquer monarquia decrépita à espera de ser derrubada.

Na prática, a esquerda bem pensante despreza a base da pirâmide — que é, ironia das ironias, a base de toda a sua narrativa.

3. O que realmente enfureceu o PS e esta esquerda bem pensante foi o discurso sobre o elevador social — e a necessidade de voltar a existir igualdade de oportunidades como existiu durante os anos 80 e 90.

É um facto que a democracia e a entrada na CEE – Comunidade Económica Europeia (duas questões inseparáveis uma da outra) contribuíram para um dos maiores períodos de progresso económico e social do país. Mas também não é menos certo afirmar que estamos estagnados economicamente desde 2001. Ou seja, a taxa de crescimento médio anual entre 2001 e 2018 foi de apenas cerca de 0,5%.

Um resultado miserável a que se junta um acentuar da perda do nosso poder de compra face à média da União Europeia (UE) (76,6% contra 84% que atingimos em 1999), uma dívida pública que continua muito elevada (cerca de 121% do PIB) e uma carga fiscal que aumentou para 35,4% do PIB em 2018. Já o desemprego jovem (menos de 25 anos) atingiu qualquer coisa como os 20% do total dos desempregados em 2018.

É impossível que o elevador social de um país com estes dados sócio-económico funcione adequadamente — e muito menos que o progresso social e económico seja comparável com os períodos da entrada para a CEE, com a adesão ao Mercado Único ou até mesmo com a entrada no Euro.

Infelizmente para Porfírio Silva e Inês Pedrosa, só há uma forma de o elevador social voltar a funcionar: através de um projeto global de reformas profundas da economia nacional para permita o progresso económico e social do país.

Já quanto às cerimónias do 10 de junho de próximo ano, o melhor é mesmo fazer como o Estado Novo fazia: as cerimónias não devem (não podem!) sair de Lisboa para que o presidente da comissão de festas seja sempre bem ‘apessoado’ e que, pelo menos, saiba citar os clássicos gregos na ponta da língua e debitar o seu amor pela filosofia de Rousseau e pelo génio literário de Proust e Baudelaire. Só assim a ordem natural das coisas fica assegurada.

Corrigido valor da taxa de desemprego jovem às 17h01m

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