Rui Ramos Seguir Colunista do Observador Porque é que só Cavaco Silva e Evans-Pritchard estão preocupados? A expectativa é que depois das eleições toda a gente se modere e se entenda. Por isso, ninguém parece preocupado, a não ser o Presidente da República. 21 Mai 2015, 07:37 220 Um dia antes de o Estado português colocar dívida a taxas negativas, o célebre comentador de economia do Daily Telegraph, Ambrose Evans-Pritchard, reparou no que diz o PS – o PS que pretende acabar com a austeridade, como pretendia o Syriza, o PS que promete reverter a privatização da TAP, como o Syriza prometia reverter a privatização do porto do Pireu, ou o PS que garante a reposição das 35 horas na função pública, como o Syriza garantia a readmissão de funcionários. Evans-Pritchard ficou sem dúvidas: no caso de uma vitória socialista em Portugal, a Europa terá uma nova Grécia à beira da saída do Euro. E isto era antes do programa revelado ontem, com os seus aumentos de despesa e diminuições de receita. O que Evans-Pritchard não sabe, porém, é que ninguém em Portugal liga demasiado a estas coisas. Porque por cá, o cinismo político manda-nos, não ouvir o que é dito, mas considerar quem o diz: e no caso do PS, tudo se reduz a António Costa. Ora, Costa é visto, por consenso nacional, como um “político”, no sentido de alguém de quem se espera que faça e diga tudo e o seu contrário para conquistar e manter o poder. Sim, talvez se tenha permitido umas syrizices no tempo em que o Syriza era moda. Mas depois foi buscar Mário Centeno, um anti-Varoufakis, ao Banco de Portugal. É o que basta para toda a gente por cá descontar os receios de Evans-Pritchard.O caso é que a oligarquia político-mediática resolveu admitir que o PS e a coligação têm o direito de dizer o que for preciso para se distinguirem entre si e ganharem as eleições. Os mais sábios lamentam ver os partidos a fazer promessas ou a pedir maiorias absolutas em vez de esclarecerem a sua disponibilidade para compromissos — mas interpretam uma coisa e outra como legítimas malandrices de recreio eleitoral. A expectativa é que depois das eleições toda a gente se modere e se entenda. Por isso, ninguém parece preocupado, a não ser o Presidente da República, além de Evans-Pritchard.Tem o Presidente motivo para estar inquieto? O nosso sistema eleitoral, ao contrário do inglês, não faz maiorias absolutas a partir de um terço dos votos. E na falta de uma maioria absoluta, que razões há para esperar estabilidade governativa? Imaginemos que a coligação ganha, mas sem maioria absoluta. Irá o PS proporcionar-lhe os votos que lhe faltarem? São legítimas as dúvidas. O PS só faz acordos quando estes representam a aceitação pelos outros partidos de uma posição secundária, como aconteceu em 1978 com o CDS ou em 1983 com o PSD. Imaginemos, em alternativa, que o PS ganha, também sem maioria absoluta. Ninguém espera nada do PCP ou do BE. Mas toda a gente espera tudo do PSD ou do CDS. Será assim tão fácil a um líder do PSD ou do CDS obrigar o partido a sujeitar-se ao PS? Em 1978, o acordo não durou, e entre 1983 e 1985, quando ainda não havia os agravos mútuos de agora, a coligação já foi muito difícil, e acabou mal. No seu artigo, Evans-Pritchard enumerou com gosto as dificuldades do país mais endividado, mais envelhecido, e menos qualificado da Europa ocidental. A economia portuguesa foi a que menos cresceu na Europa do século XXI, mesmo antes da crise de 2008, quando tudo crescia. É verdade: o cumprimento oficial do programa de ajustamento e depois a enorme quantidade de dinheiro barato posto a circular pelo BCE ajudaram os compradores de dívida a esquecer esses pormenores. Mas quanto tempo durará a bonança? Uma campanha eleitoral demasiado ligeira ou uma situação governativa frágil podem subitamente multiplicar a incerteza e as dúvidas, mesmo sem variações do contexto internacional. Daí, a preferência do Presidente por “um governo com apoio maioritário na Assembleia da República”. Mas quase toda a gente resolveu interpretar esse cuidado como uma simples exorbitância de poder em fim de mandato.O regime não está incomodado. Já ninguém lê os relatórios do FMI. Por enquanto, há dinheiro barato. E para o futuro, os sábios esperam que as perspectivas difíceis descritas por Evans-Pritchard, só por si, imponham responsabilidade e disciplina aos partidos do chamado “arco da governação”. No fundo, confia-se no fantasma da troika, isto é, na pressão externa sobre uma pequena economia aberta. A oligarquia não imagina outra base de governo em Portugal. A questão é esta: para aquilo que é preciso fazer, bastarão o medo e o cinismo? Não serão precisos também alguma visão, alguma esperança?