Há países onde o jornalismo vive sob permanente ameaça. Em Portugal vive em estupidez periódica. Entre activismo e busca da verdade, há exemplos para todos os gostos. Há os bons jornalistas, os jornalistas-activistas, geralmente maus, e depois há todo um espírito de porteira que tem o seu encanto. A porteira editorial, enquanto estilo, é uma daquelas coisas que enche páginas, faz manchetes e morre sem vendas. O actual presidente da República especializou-se no ramo de actividade, fechou a porta – se é que fechou – e deixou uma escola. O surpreendente é que ela dure.
Numa destas manhãs iluminadas, o Expresso deu ao país a honra de uma primeira página a um prato de sopa, arroz de peixe, um cheesecake e bicas. Não foi um offshore controlado por um primo de um membro do Governo, não foi uma viagem paga a um deputado. Foram cenouras trituradas e umas gambas congeladas, sob a aparência de um golpe de Estado. Tratado como uma conspiração de gente a soldo de algum Senhor de Todo o Mal, houve um jantar elevado a conspiração de um bando de gente que pensa e se atreve a fazê-lo, numas eleições presidenciais, fora do radar politicamente aceitável da porteira.
A notícia é, de resto, semi-telepática. Não totalmente apurada, não totalmente confirmada, integralmente sugerida, assustadoramente soprada como quem denuncia e revela. A imprensa, outrora guardiã do contraditório e da informação, tornou-se, em certos casos, uma secção de “sociedade” sem glamour, onde se vigia quem janta com quem, quem sorri a quem e quem foi visto a três cadeiras de distância de alguém ideologicamente contaminado. É a lógica do “ele esteve lá”, “ela mandou mensagem”, “eles falaram ao telefone”. A isto chamava-se “alcoviteiras”. Agora chama-se “redacção”.
A mesma imprensa que se proclama guardiã da democracia trata um jantar como se deglutir despertasse algum interesse a algum português para além dos que jantaram. Não desperta – deixo aqui esta notícia, que sempre parece maior segredo. Um gesto de simpatia política não é um crime ideológico – outra novidade. E o simples facto de alguém não pedir licença para pensar – ou mesmo para apoiar outrem – não é matéria jornalística. Muito menos de primeira página. Ou de escândalo.
O que é extraordinário — e ao mesmo tempo, absolutamente português — é que este tipo de “notícia” tenha pretensões de seriedade. Que alguém tenha acordado e pensado: “Temos. Um. Jantar. É a manchete.” E que ninguém tenha rido. Ninguém tenha dito: “Isto é ridículo.” Não. Houve quem batesse no teclado com o orgulho de quem denuncia Watergate, mas com o conteúdo de quem apanha a vizinha a beber café com o cunhado do ex-marido da prima do homem do primeiro andar. Mesmo que o homem do primeiro andar seja Pedro Passos Coelho – o verdadeiro objecto da notícia, o que não torna a coisa mais digna. Daqui a cinquenta anos, algum curioso pode ter interesse em saber o que se passava neste país em 2025 e pode dar de caras com arroz de peixe. Eu sou apreciador, se o peixe for fresco; mas como legado jornalístico não é grande coisa.