Era uma vez um país a empobrecer. Não a empobrecer por causa da pandemia, que apenas agravou e tornou indisfarçável esse empobrecimento, mas de antes, de mais de duas décadas sem rumo. Sem reformas. Não “um país” como construção abstrata, estatística, apenas captada nos números do PIB per capita cada vez mais distante da média europeia; nos números crescentes da dívida pública. Não. Um país de pessoas a empobrecer. Da angústia nunca mais debelada dos dias 20 a 30 de cada mês, em que se come menos e protela mais. Mês após mês. Ano após ano. Das famílias com passes sociais mais baratos, mas com pior serviço de transportes, cada vez menos frequente, cada vez mais cheio, cada vez menos pontual. De um país a morrer de envelhecimento, a debater-se com o encerramento das urgências pediátricas e obstétricas nos hospitais públicos mais próximos de casa, onde continuar a ter filhos é um misto de loucura e coragem. De um país com a maior carga de impostos da história, proclamações entusiasmadas de defesa do Serviço Nacional de Saúde, mas as primeiras consultas de especialidade e as cirurgias que não acontecem, penalizando cada vez mais os mais vulneráveis; que são também cada vez mais.

Era uma vez um país a perder liberdade. Não a perder liberdade em termos formais, que este país, em matéria de liberdade, sempre proclamou muito mais do que aquilo que concretizou. Mas a perder liberdade de facto. Famílias com menos oportunidade de escolha na educação a dar aos seus filhos. Casais com menos rendimento e maiores encargos, com menos infraestruturas públicas que impostos, sem horários nem apoios, impossibilitados de terem filhos. Trabalhadores sem expectativas de promoção. Empresários sem incentivo para promoverem. Jovens qualificados, hoje, sem expectativa de ganhar mais que mil euros, tal qual os seus antecessores nessa demanda há, pelo menos, 15 anos.

Era uma vez um país sem esperança que desistiu de si e do futuro. Não um país agarrado às grandiloquências do passado, das descobertas e dos “novos mundos ao mundo”. Mas um país sem qualquer visão de futuro. Nem tanto, apesar de também, um país demasiadamente ocupado em gastar no dia-a-dia o dinheiro que a União Europeia lhe envia há 35 anos, sem querer investir solidamente num futuro sustentável, sem qualquer aposta na sua emancipação. Mas um país em que os jovens qualificados só “lá fora” adivinham riqueza e mobilidade social. Um país cozinhado nos partidos políticos, com avenças e lugarzinhos para distribuir pelos leais, sem que a competência seja, vagamente sequer, critério. Um país de velhos abandonados pelos seus e pelo Estado no presente, agarrados a idealizações passadas mais felizes. Jovens sem expectativa de futuro, presos ao presente em casa dos pais de onde saem cada vez mais tarde. Um país tão desesperançado em si, que até o Primeiro-ministro, de um partido para quem a dívida pública nunca foi um problema, derrogou, não inocentemente, a possibilidade de recurso a empréstimos da União Europeia com condições muito favoráveis, simplesmente porque não acredita na possibilidade de retorno positivo económico do investimento que pudesse ocorrer com esses mesmos empréstimos.

Neste país manda o Governo mais incompetente de que há memória, pelo menos, desde o PREC. Suportado na maioria parlamentar negativa de partidos de extrema-esquerda mais acéfala que a imaginação mais fértil concebe. Ajudado por uma oposição impreparada, conivente e/ou folclórica. Neste país, a máquina do Estado – alfa e ómega do próprio país – está cada vez mais nas mãos de cada vez menos. Esses menos que fazem fila no Largo do Rato; por contraste com os muito mais que fazem fila noutro(s) eixo(s) da cidade, na(s) sopa(s) do Sidónio.

Neste país o principal partido da oposição comporta-se como uma espécie de Dupont do Dupont que está no Governo. Ávido de umas migalhas que lhe caiam da mesa. O resto da oposição, essa, dependendo dos actores e dos partidos, anda perdida entre fanfarronadas, trivialidades, fantasmagorias e infantilidades do tipo “a culpa é dos outros meninos que cá estiveram antes de nós”; versão Calimero, à direita, do “a culpa é do Passos”.

«No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.». Eis a profética frase de abertura da Crónica de uma morte anunciada de Gabriel García Márquez. Depois disso, um número sem conta de pessoas viu sinais inexoráveis que alertavam para a morte de Santiago. Portugal também amanheceu cedo, lá pelo século XII, e recentemente outra vez, no 25 de Novembro de 1975. Mas nos últimos 25 anos tem ignorado todos os sinais da sua morte anunciada. E, tal como com Santiago, também ninguém pareceu querer saber. Santiago morreu. Portugal ainda não; mas, por este caminho, já não falta muito.

Post scriptum: Diz-me a experiência que as coisas mais importantes se dizem em post scriptum.

Post post scriptum: Paulo Portas deu na semana passada, ao Público, uma rara entrevista sobre política. Ler Portas, mesmo quando não se gosta ou não se concorda com ele, é essencial para perceber o panorama político português. É assim, pelo menos, há quase 30 anos. Da entrevista vi muitas reacções à sua opinião longa e reflectida sobre Marcelo Rebelo de Sousa, às suas presumidas ambições presidenciais e até as suas poucas e tão esclarecedoras palavras sobre o CDS. Mas eu salientaria estas: “A construção da ‘geringonça’ visou — além do mais — inviabilizar um cenário alarmante para a esquerda não reformista: PSD e CDS poderiam finalmente governar para maximizar o crescimento, a inovação e a mobilidade social. Esta lenda que o PS serve para gastar, distribuir e proclamar a solidariedade, e o PSD e o CDS servem para pôr as contas em ordem é uma armadilha. Convém judiciosamente não a deixar repetir, senão Portugal nunca mais alcança a maturidade na alternância.” É caso para perguntar: onde é que está hoje, na sociedade portuguesa e na política portuguesa essa vontade e capacidade de fazer reformas?

Post post post scriptum: Alguns dos problemas elencados neste artigo foram apresentados e discutidos num muito interessante painel (Portugal: The Challenges Ahead) do excelentíssimo e sempre muito refrescante Estoril Political Forum – filho muito adulto de João Carlos Espada, esq. – por Eduardo Marçal Grilo, Sónia Ribeiro, António Costa Pinto, Carlos Gaspar, José Manuel Fernandes e Miguel Morgado. O Estoril Political Forum é a prova de que, em matéria de reflexão política, a indigência nacional não tem de ser inexorável.