Felicidade

Portugal

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Acaso Fátima, o Benfica e o “Amar pelos dois” nos vão mudar, para melhor ou para pior, colectivamente, a vida? É claro que não. E pretender o contrário é pura e simplesmente falso.

Há, graças a Deus, muitas coisas relativamente às quais nada nos obriga a tomar partido. Por acaso, são quase todas. A única atitude sensata nestes casos parece ser a de pensar: deixa-as existir. Não é que geralmente não tenhamos uma inclinação de qualquer tipo, pró ou contra, em relação a elas. Temos sempre: a natureza humana inclina por definição, não há nunca completa e perfeita indiferença em relação a nada. Acontece, no entanto, que a inclinação pode ser ténue, quase imperceptível, ou então, além de vaga, oscilante. Quer dizer: não inclina nunca com força suficiente para necessitar opinião reflectida e expressão dela. A sabedoria tradicional diz que isto se acentua com a idade. No meu caso, pelo menos, a sabedoria tradicional tem carradas de razão.

Esta verdade básica sofreu uma exemplificação gloriosa por estes dias com a série da canonização dos pastorinhos em Fátima pelo Papa, a vitória do Benfica no campeonato e o primeiro lugar de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão. Percebo perfeitamente a alegria dos católicos, o êxtase dos benfiquistas e o arrebatamento dos adeptos do talento de Salvador Sobral. Percebo-o até o suficiente para experimentar uma espécie de satisfação vicária por cada um dos grupos em questão. Mas não passa disso. Em contrapartida, fico genuinamente surpreendido com os entusiasmos, positivos e negativos, que a celebração dos eventos gerou em opinadores de toda a pinta. Para uns, a coisa, na sua totalidade, manifestaria a grandeza pátria finalmente manifesta, vingando-se de um longo e penoso, além de injusto, recalcamento. Para outros, pelo contrário, o terrível sintoma de uma perene alienação que nos perseguiria. Num caso como noutro, o que mais faltou foi moderação e até, se me é permitido, banal bom-senso. A haver algo de preocupante nisto tudo, algo que inclina efectivamente a ter opinião, é a muito óbvia facilidade destes entusiasmos.

Longe de mim querer questionar a sua sinceridade. Mas a sinceridade não acrescenta forçosamente interesse aos pensamentos e é duvidoso que possua em si um valor civilizacional excessivo. Para mais quando se trata de uma sinceridade excitada que visa, em primeiro lugar, permitir o cultivo de opiniões gerais. Ora, há matérias em que as opiniões gerais tendem declaradamente para o espúrio. Nada há de substantivo nelas que nos permita orientarmo-nos melhor na realidade. Acaso Fátima, o Benfica e o “Amar pelos dois” nos vão mudar, para melhor ou para pior, colectivamente, a vida? É claro que não. Dizer isto não é apoucar a satisfação inteiramente legítima que grupos de indivíduos possam ter em relação a qualquer um dos acontecimentos. Mas Portugal não muda nada com isso: nem para melhor, nem para pior. E pretender o contrário, como pretendem os entusiastas de ambos os lados, é pura e simplesmente falso.

O que sugere imediatamente duas reflexões. Primeiro, não se ganha nada em supor que o eclodir de felicidades sortidas possui um efeito mágico, positivo ou negativo, sobre a nossa situação colectiva. Pior: essa espécie de idealismo cega-nos para o verdadeiramente importante no que toca às condições do nosso modo de viver. Tomar partido à força é voar para longe da possibilidade da imparcialidade que é a primeira condição da objectividade. Depois, e é mais importante, há nesta facilidade em generalizar especulativamente uma indisfarçável sugestão de menosprezo pelo que cada um de nós pode fazer por si mesmo para realizar o melhor possível a sua vida a partir dos seus próprios critérios de satisfação pessoal.

E isso é que interessa verdadeiramente. Banalmente, como dizia um autor célebre: aprender a amar melhor, a trabalhar melhor e a conviver melhor com os episódios de tristeza que fazem parte da nossa existência. Para isso ser possível é necessário recusar prudentemente opiniões entusiastas face a tudo (e o tudo é muito) o que não nos obriga a tomar partido. Nomeadamente, recusar esta mania que tudo se encontra investido de um significado colectivo, maléfico ou venturoso. Há indiferenças injustificáveis, mas há-as também muito apreciáveis. Convém cultivar estas últimas. Portugal, se calhar, agradecia.

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