Uma das bombas que caíram na Europa na última semana não foi na Ucrânia, mas em Madrid e Berlim. Segundo o Tribunal de Contas espanhol, o governo de Pedro Sánchez autorizou que cerca de 10 mil milhões de euros do Mecanismo de Recuperação e Resiliência da União Europeia fossem usados para o pagamento de pensões. O chefe de governo espanhol pode alegar inúmeras razões para o ter feito, mas é preciso salientar que o que Sánchez fez, mesmo que possa não ser ilegal, levanta preocupações e tem consequências.

As preocupações prendem-se com o verdadeiro estado do défice da Segurança Social espanhola que pode ser muito maior que o esperado e decorrer do facto de a Espanha não ter orçamento aprovado desde 2023. As consequências (além das legais) são, como Wolfgang Munchau alertou logo que a notícia veio a público, mais um golpe na confiança entre os povos europeus. O dito Mecanismo de Recuperação e Resiliência foi criado para se fazerem investimentos públicos, não para tapar buracos derivados de más políticas públicas. No caso da Espanha, da teimosia de um primeiro-ministro se manter no poder sem condições para o exercer. Há anos que a Espanha se tornou ingovernável e não nos pode surpreender se os povos mais ricos não queiram continuar a abrir os cordões à bolsa. Até porque se a Espanha não quer, os estados mais ricos da União têm importantes investimentos onde precisam de utilizar esse dinheiro.

A decisão de Pedro Sánchez gastar em despesa corrente fundos europeus destinados a investimentos de longo prazo, mostram-nos ainda que a reinvenção da Europa de que tanto ouvimos falar não pode ser meramente tecnológica nem energética. Deve ser política. Exige discussão política. Reivindica políticos. Políticos que falem de escolhas políticas, de custos políticos, de ganhos políticos. De políticos que deixem as questões técnicas (a digitalização, os ganhos de produção, os termos que devem reger a energia verde) para os técnicos. Cada vez mais precisamos de políticos que falem para as pessoas sobre os riscos que corremos e sobre as medidas que temos de adoptar. Sobre os custos e os sacrifícios que essas medidas implicam na medida em que pressupõem escolhas, logo implicam preferir fazer algo em detrimento de alguma coisa. Munchau fala de união política porque sem esta é difícil que haja união financeira, orçamental, fiscal e sem estas a moeda única fica coxa. A Europa perde valor e competitividade. Mas tudo isso pede que os europeus escolham: queremos uma soberania europeia? Queremos as consequências dessa soberania nas nossas soberanias nacionais? Queremos os resultados positivos e aceitamos os negativos que uma soberania europeia pressupõe? Como é que a democracia funciona sem ter por base o estado nação, sem ter por base uma língua maioritária e uma cultura comum? Há quem encontre na União Europeia raízes que vêm do Sacro Império Romano-Germânico, por via da dietas imperiais e da forma como o imperador era escolhido pelos princípes à semelhança da presidente da Comissão que o é pelos chefes de estado e de governo europeus. Mas a UE e o Império são realidades diversas e, mais do que isso, as necessidades actuais são muito diferentes pelo que aprofundar uma integração europeia sem acautelar a existência de uma verdadeira democracia pluralista e representativa pode ser perigoso. Além de ir contra tudo o que defendemos e pelo qual lutamos desde há mais de 200 anos.

São questões como estas que os políticos têm de endereçar. E depois escolher. E de seguida propor. E mais tarde convencer o eleitorado a acompanhar as suas escolhas. Políticos com capacidade de transigir de modo a que se aceda ao essencial. Políticos aptos a compreender diferentes pontos de vista e de agir em conformidade com esse conhecimento. Políticos que depreendam, por exemplo, as razões de desconfiança dos alemães e dos povos nórdicos relativamente aos povos do sul. Perceber que essa desconfiança não surgiu por acaso nem sequer é fruto da crise das dívidas soberanas em 2010. É algo que tem raízes históricas profundas, mas que podem ser mitigadas se lidadas da forma correcta. Políticos que não olhem para os países do sul como um conjunto de incompetentes e chicos espertos que aguardam por uma oportunidade para darem o golpe e ganharem eleições com o dinheiros dos outros. Por muito que alguns o desejem, a verdade é que não somos todos Pedro Sánchez. Tanto em Espanha, como em Portugal, na Itália e na Grécia há muito melhor que isso e é possível construir uma Europa confiável se existir, não só boa-vontade, mas sinceridade, franqueza, isenção e verdadeira capacidade de negociação.

É esta incapacidade de fazermos política que está a permitir que pessoas como Sánchez, Ventura, Marine Le Pen, Bardella e Farage ocupem sozinhos o espaço político. A bem ou a mal eles fazem política, falam de política e há muita gente que fica deslumbrada com eles porque não há ninguém que os confronte com o mesmo tipo de lógica, que os enfrente no mesmo campo da batalha política.

A vida relativamente fácil que os ocidentais usufruem desde 1989 esvaziou a política de sentido e desprestigiou-a. A maioria dos políticos tornaram-se técnicos e burocratas com ligações a negócios. Desde que a Europa despertou para a realidade de um mundo que vive regras diferentes das de um paraíso kantiano que discutimos a necessidade de reduzir a burocracia, abrir o mercado interno, investir em defesa, pensar o futuro do estado social, apostar nas novas tecnologias, uma série infindável de desafios que temos pela frente. Tudo isso é certo. No entanto, se achamos que conseguimos adaptar a Europa aos desafios internacionais e às alterações do nosso modo de vida apenas por via de escolhas técnicas e sem fazermos política o resultado vai ser um rotundo fracasso.

P.S.: Além de boas relações com a potência atlântica, um dos objectivos da nossa política externa é autonomia relativamente a Espanha. As declarações de Marco Rubio sobre Portugal deviam deixar-nos descansados e não provocar tanta celeuma. Apesar de tudo o que tem acontecido pelo mundo fora nos últimos anos, por cá ainda vivemos noutro tempo.