1. Um pequeníssimo grupo de pessoas decidiu esperar pelo Presidente da República à porta de um edifício público ostentando tambores, buzinas e faixas com as subtis palavras “Vergonha”, “Roubo” e “Vigarice”. Vendo o Chefe de Estado (reparem: o Chefe de Estado), aproximaram-se e um deles gritou, a dois centímetros do presidencial nariz: “Já chega! Já chega! Eu quero o que é meu!”.

Perante isto, Marcelo Rebelo de Sousa teve a típica reação de quem passa as madrugadas acordado a fazer cálculos para a sua recandidatura. Não querendo desagradar a uma mosca (menos ainda a eleitores com as cordas vocais no volume máximo), no dia seguinte o Presidente da República dirigiu-se aos autores do protesto (que lhe fizeram nova espera) e, com o estilo descontraído que distingue um verdadeiro estadista, convidou-os para “conversarem um pouco” no Palácio de Belém e assegurou: “Então vão ligar-lhes para combinar um dia que vos dê jeito para irem”.

Há aqui várias perplexidades, mas, tendo em conta a necessidade de exercer alguma caridade cristã, vamos concentrar-nos apenas numa: afinal, o que sabe o Presidente da República sobre o que se passa no país? O Presidente da República só percebeu agora que há um grupo de pessoas a que se convencionou chamar “lesados do BES”? O Presidente da República só percebeu agora quais são os motivos de queixa do grupo de pessoas a que se convencionou chamar “lesados do BES”? O Presidente da República só percebeu agora que o grupo de pessoas a que se convencionou chamar “lesados do BES” estava a tentar conseguir uma reunião no Palácio de Belém?

Seguramente, o nosso sobredotado Presidente já tinha percebido tudo isso há muito tempo. Então, se é assim, o que mudou? Foram os tambores, as buzinas e os berros? Se sim, ficamos esclarecidos: quem se sentir igualmente injustiçado pelo governo, pela banca ou pelo universo deve fazer uma espera ao Presidente da República e berrar-lhe ao ouvido com as televisões por perto. Pelos vistos, resulta.

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