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Querem acabar com a geringonça?

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A “direita” de que se fala é uma invenção da “esquerda” que nos governa. Precisam que haja “direita” para poderem justificar a heteróclita coligação que ganhou a designação de geringonça.

Estando afastado, cada vez mais longe da política que envolve partidos, não posso deixar de refletir, enquanto cidadão e eleitor, numa potencial evolução do quadro partidário e das possíveis opções que se poderão vir a oferecer aos eleitores. Eu diria que há clarificações absolutamente imperiosas que terão de ocorrer com a maior brevidade. Tenho como certo que qualquer mudança que se venha a operar em Portugal, em termos de forças políticas, terá consequências que talvez não se mostrem tão irrelevantes como alguns vaticinam, em especial se os dois maiores partidos que se opõem à maioria de esquerda não souberem concertar ideias, unir esforços e apresentarem-se como alternativa clara e entendível pelo eleitorado.

Para já, não sei o que é ser de direita em Portugal. Quem não for comunista ou socialista – coisa que também carece de definição – tem de ser da direita? É de direita quem aceitar o papel do setor privado e social no sistema de saúde? O cidadão da direita é o que compra seguros privados para complementar a reforma? Só a direita defende o serviço militar obrigatório? Ser de direita é desejar julgamentos rápidos e condenações proporcionais ao crime? É de direita não concordar com um cúmulo jurídico máximo de 25 anos? Será exclusivo da direita querer controlar a imigração e a soberania das fronteiras? É só a direita que não quer importar terroristas? Não há direita europeísta e a favor do Euro? Aceitar que possa haver ensino em instituições que não sejam do Estado configura um amante da direita? Só a direita aceita a meritocracia? Defende a propriedade privada e a iniciativa individual? As pessoas de direita não pedem empréstimos para comprar carro e casa? É só o da direita que quer justiça fiscal e a equidade perante a lei? Ser religioso é próprio da direita? Gostar da ordem pública e condenar a falta de ética é apanágio exclusivo do direitista? É preciso ser de direita para querer trabalhar mais e até mais tarde ao longo da vida? Apreciar alguma gravitas no exercício de cargos institucionais é exclusivo das direitas? O “direitolas” não pode ter cão, gato ou passarinhos? Tem de usar gravata? Não usa camisa de flanela aos quadrados? A direita quer proibir que se fale de jeans e, tal como os espanhóis têm “vaqueros”, vai exigir que as calças de ganga se designem por “calças à cobói”?

Sejamos claros. Não há direita com expressão política em Portugal. Dizer-se nacionalista e rapar o cabelo não é personificar a direita. Direita com eliminação de serviços públicos, escalões regressivos no IRS, verdadeiro protecionismo económico e exacerbação securitária não tem quem a represente em Portugal.

A “direita” de que se fala é uma invenção da “esquerda” que nos governa. Precisam que haja “direita” para poderem justificar a heteróclita coligação que ganhou a designação de geringonça. Quem mais precisa de que haja “direita”, tal como a esquerda gosta que ela seja vista no imaginário dos portugueses, são os partidos que, sem ideias novas e esvaziados da aparente superioridade moral que nunca tiveram, já submetidos às regras do inexorável capitalismo que também lhes paga, constroem a sua mensagem em torno de um “papão” que justifica o lema; não és por nós, és da direita.

Conheço pessoas que se afirmam de esquerda e usam gravata, são xenófobos e têm posses muito significativas. Há comunistas que enriquecem com florescentes atividades privadas. Sair do Euro e abandonar a UE não são ideias estranhas à extrema-esquerda e sobre serviço militar e pena de morte há de tudo em todos os regimes. A direita também usa jeans, mete umas ganzas, veste flanela e, espantem-se os marxistas, gosta de sexo, que é muito mais divertido do que “fazer género”. Há direitistas que mais não são do que pessoas que apenas querem poder viver com o que é seu e sem o receio de que o Estado lhes leve o que trabalharam uma vida para conseguir. É completamente falso imaginar que os funcionários públicos serão todos apoiantes da solução governativa atual ou que não haja empresários a quem o status quo convenha. Em todos os quadrantes, sejam medidos como forem – por costumes, visão económica ou poder de compra –, há gente real que tem preocupações reais e a quem é preciso garantir o direito à saúde, apoio na incapacidade, pensão na velhice, segurança, justiça e educação. Há portugueses de todos os tipos e feitios e é importante que não se marimbem todos para as eleições.

Como votam estas pessoas, as da maioria sem partido? Em que compromisso se vão encaixar? Votam no mal menor? Depositam o voto naqueles com quem têm maior número de concordâncias e nenhuma discordância de fundo? Traçam a cruz no quadrado onde sempre o fizeram? Preferem a maioria do PS, mesmo já sabendo que António Costa não precisa de vencer para se coligar com quem lhe der jeito? Que PS julgam que é o de António Costa? Vão confiar nos comunistas do BE? Os conservadores não preferirão o PCP? Querem a mesma “geringonça”? Ainda podem ser convencidos de que é possível repetir uma maioria sem PS? Acham que um bloco central poderá ser a solução?

Quanto à última possibilidade, parece-me que não. Um acordo entre o PSD e o PS, idealmente com a participação do CDS – uma coligação central sem CDS seria o afundamento do PSD e a sua progressiva digestão pelo PS – é um cenário difícil de conceber em presença do Dr. António Costa e do seu pragmatismo que consiste em não olhar a meios para a manutenção do seu poder pessoal. O nosso primeiro-ministro configura o político inteligente, roçando o chico esperto, que todos gabam por aquilo que tem de pior; a indefinição de compromissos, a ausência de ideologia definível, a falsa bonomia, o gosto pela encenação, a facilidade com que deforma a realidade, a dualidade entre o que diz defender e o que faz, a retórica tonitruante com que anuncia êxitos que não teve, a imagem exterior que não coincide com o que quer aparentar em Portugal. Provavelmente será uma excelente pessoa, se é que a “pessoa” e o “político” podem ser coisas totalmente diferentes. Eu acho que não, apesar de aceitar que a imagem pública é muitas vezes diferente da privada. Mas a minha antipatia pela política do Dr. António Costa não me retira admiração pelo PS que soube defender a democracia, implementou o SNS que ainda temos e que tem militantes ilustres no seu seio, alguns dos quais foram meus mentores no pensamento sobre saúde pública. Mas esse PS já não existe. Acabou com o Eng. Sócrates, por mais que o queiram apagar da história dos socialistas portugueses, e dissolveu-se na coligação que o Dr. António Costa inventou para se salvar. O PS ainda não percebeu que até poderá voltar a ganhar eleições, mas já não é o mesmo. O PS é o que tiver de ser para que António Costa continue PM.

De igual forma, fazendo parte de uma geração que não pode esquecer os saneamentos políticos, as perseguições e a tentativa de subversão da República, que PCP e outra-extrema esquerda protagonizaram nos tempos imediatamente após o 25 de abril de 1974, desconfio sempre das intenções a longo prazo de associações políticas cuja inspiração é a União Soviética de Lenin e Stalin, só para mencionar os piores, a Albânia de Enver Hoxha, o Cambodja de Pol Pot ou a Coreia da família Kim. Claro está que as ideias de fundo, que certa esquerda coloca ao nível de religião, não deveriam impedir que se conversasse sobre aquilo em que se pudesse estar de acordo, mas isso será sempre difícil para lá da esfera dos que acreditam seriamente na democracia parlamentar. Logo, já o escrevi muitas vezes, nesta fase da vida política em Portugal, o importante seria ter uma coligação pré-eleitoral de PSD e CDS para retomar a senda vitoriosa de 2011 e 2015. Se lhes tivermos de juntar mais alguma aliança, pois seja. Não há Pedro Passos Coelho nem Paulo Portas, mas há de haver pessoas que se possam entender, direções lúcidas que vejam para lá da dimensão da sombra que projetam no caminho. Divaguei, não foi? Desculpem, entusiasmei-me.

Há um pouco de tudo na literatura sobre escolhas e sobre as justificações que sabemos construir a posteriori para as escolhas que fizemos. Ao longo de muitas dezenas de anos tem havido investigação sobre as razões que levam uma pessoa a escolher B em vez de A. No campo das opções de voto tem havido muito debate sobre se a racionalidade ultrapassa a emoção. Acredito, como muito autores, que os valores afetivos se sobrepõem aos motivos que determinariam um voto lógico. Mesmo para pessoas cultas, com maior educação escolar ou mais informadas, o peso da simpatia pelo candidato é insubstituível. Nem a apreciação ética dos candidatos acaba por ter a relevância que se esperaria para a maioria dos eleitores. Os nossos votantes tendem a esquecer e a perdoar. Não são as propostas de ação, enquanto ideias grandiloquentes, que determinam o sentido do voto. E há sempre os indefetíveis, os verdadeiros militantes, que seguem o grupo e já nem se lembram da ideologia que os deveria ter juntado. Em boa verdade, a política de hoje já quase nada tem das grandes ideias da primeira metade do século XX.

Chegados aos programas eleitorais constata-se que com grande frequência as propostas são densas, demasiadas e ininteligíveis, repetitivas, usando chavões que são o habitual do “politiquês” correto. Ou, em alternativa, escrevem-se com a superficialidade do bacalhau a pataco. Reconheço que a medida certa é difícil de encontrar. A apresentação pela rama é muito mais apelativa do que o esforço de tentar perceber a profundidade dos problemas. Os eleitores, de um modo geral, contentam-se com o que já têm e desconfiam da mudança ou nem sequer acreditam que possa haver mudança. As pessoas, na maioria das vezes, avaliam o curto prazo e não conseguem projetar consequências tardias. É interessante verificar que passamos os dias a antecipar o que a nós nos parece dizer imediatamente respeito, mas somos avessos a antecipações sobre a sociedade e o mundo.

Dito isto, falar de direita, liberais, democratas com ou sem social, mais ou menos cristãos, torna-se difícil de perceber para a grande maioria das pessoas. Os portugueses precisam de pessoas em quem possam confiar – o que é difícil de encontrar num contexto em que os políticos nos desiludem todos os dias – com ideias claras, simples de entender, com conteúdos e calendários para a sua aplicação. Os rótulos, não estando ligados a uma marca que seja distintiva, não nos dizem nada. Um novo partido, se alguém anda a pensar fazer um, só terá hipóteses se for possível identificar um líder, em vez de um dirigente, e uma ideia para Portugal, em vez de um slogan. Os que já existem, em especial aqueles que têm a obrigação de substituir a coligação social-comunista – lá caí eu na rotulagem que nada diz sobre a praxis concreta –, têm de se apressar a forjar uma alternativa que se escore numa solução duradoira e não apenas nos clichés contra a esquerda. A geringonça já cá está, o importante é saber o que é preciso fazer para nos livrarmos dela. Uma coisa é certa. O primeiro objetivo deve ser derrotar, novamente, o Dr. António Costa e o PS que ele forjou para si.

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