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Qualidade de Vida

Sabe qual é o contrário de absentismo?

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O problema do presentismo é que a iniciativa e a capacidade de pensar fora da caixa não nascem da quantidade de horas no trabalho, mas da qualidade do nosso empenho e identificação com esse trabalho.

Presentismo. Eis o conceito que se aplica cada vez mais nas empresas e organizações cujos chefes e gestores adoram e promovem especialmente os funcionários que passam demasiadas horas no trabalho. De tal maneira os veneram que chegam a dar-lhes prémios que vão de bónus expressivos a promoções impressivas, muitas vezes sem cuidarem de saber se esse mesmo presentismo equivale a mais eficácia, melhores resultados e a um verdadeiro valor acrescentado na organização.

Duvido muito do pressuposto de que quanto mais horas passamos no trabalho, mais rendemos e mais lucros geramos. Não estou nada certa de que assim seja. Muito pelo contrário, penso até que muitos renderiam muito mais se lhes fosse imposta uma hora de saída. Conheço pessoas que trabalham em organizações com imperativos éticos e laborais desta natureza, aliás. Empresas que aplicam a política das luzes apagadas, em que é expressamente proibido marcar reuniões depois das 17h e em que os computadores a partir de uma certa hora disparam uma mensagem tipo ‘go home, go home!’ que fica a flashar como um alarme. Curiosamente todas estas pessoas e todas estas empresas de que falo geram lucros elevados e estão muito bem cotadas no mercado.

Em tempos de crise e num país em que a cultura dominante ainda é esta de confundir quantidade com qualidade, muitas pessoas e muitas organizações levam o presentismo às últimas consequências. Até à depressão e burnout, quero dizer. Ressalvo desde já as profissões que exigem este presentismo (que as há, pois não se trata de poder escolher estar ou não estar presente durante longas horas, nem sequer o presentismo tem a ver com a personalidade do chefe) e estou a pensar especialmente nos profissionais de saúde e em todos os cuidadores, a quem é exigido e de quem é esperada esta longa permanência em posto. Não sei se algum dia os profissionais de saúde poderão beneficiar de outros horários e esquemas de trabalho, mas sei que dou por mim perante situações reais a pensar que não sei quem estará mais frágil. Por vezes parece-me estar a ver doentes a cuidarem de doentes. Basta passarmos umas horas num corredor de urgências de um hospital público, em especial durante a noite ou a altas horas da madrugada, em turnos de fim de Banco, para percebermos o desgaste em que estão muitos profissionais de saúde. Mas fecho já esta espécie de parêntesis que abri para ressalvar estas e outras profissões cujas boas práticas realmente exigem a presença física no local de trabalho.

Escrevo porque quero falar das outras profissões que não precisam deste sobreinvestimento de horas, mas também escrevo porque há demasiados gestores e empregadores que ainda não perceberam que aquilo que se convencionou chamar presentismo (os ismos são tramados e permitem muitos excessos) se traduz quase sempre por fraca produtividade, baixa criatividade, algumas vezes por agressividade outras por passividade, mas também por uma desmotivação crescente, bem como pela possibilidade de somatizar sintomas e desenvolver doenças e diversos tipos de mal-estar que interferem com os resultados. E retiram eficácia.

Em 2010 a Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, fez um estudo muito interessante para ajudar os gestores de topo a perceberem quais os verdadeiros custos associados ao absentismo e ao presentismo. Curiosamente os gastos exorbitantes com a saúde dos funcionários decorrem do presentismo e não do absentismo. 61% dos gastos são por excesso de horas no posto de trabalho, contra apenas 10% de custos com faltas e baixas médicas. Olhando apenas para estes dois indicadores e lendo as conclusões dos relatórios destes investigadores, realizamos que o presentismo pode sair muito caro às empresas.

Nem tudo se explica pela crise, pois há muita gente que acredita profundamente que passar muitas horas no trabalho dá estatuto. Alguns têm realmente o poder de mandar em pessoas e chegam a impor regras absurdas aos subordinados como, por exemplo, só poderem sair do trabalho depois de eles próprios terem ido embora. Parece ridículo, mas é verdade: há gestores que cultivam de tal maneira o ego e a atitude de controlo que criaram a regra de só se poder largar a empresa 5’ depois de o chefe ter saído. Parece uma anedota.

Muita desta gente que impõe este regime aos outros não tem vida própria e não está minimamente interessada na conciliação familiar ou no equilíbrio pessoal. São conceitos que desconhecem, tal é a abstracção ou a adição ao trabalho. Verdadeiros viciados, impõem o presentismo e premeiam-no (insisto em esclarecer que estou a falar dos que exageram e nada ganham com isso, pois sei muito bem que há organizações, fábricas, empresas e realidades que exigem uma longa presença no posto de trabalho), mas podiam perfeitamente não o fazer. São quase sempre control freaks, que nunca delegam, raramente confiam e exercem uma liderança ou uma influência muito controladora. O vício do trabalho faz com que sejam também viciados em esquemas igualmente controladores, bem como em smartphones, computadores, tablets e afins. Ou seja, passam o dia e a noite ligados, esperando que todos os outros sejam como eles!

O problema do presentismo é que a iniciativa, a criatividade e a capacidade de pensar fora da caixa não nascem nem dependem da quantidade de horas que passamos no trabalho, mas sim da qualidade do nosso envolvimento, empenho e identificação com esse mesmo trabalho. Sabemos, inclusivamente, que há quem tenha as melhores ideias no duche, ou a meio da noite, entre sonos e sonhos, mas também há quem precise de se distanciar, de quebrar a rotina para conseguir refrescar as ideias e renovar o empenho. Se assim é, como medir e premiar estas horas de criatividade? E que sentido faz continuar a exigir uma presença excessiva e porventura esgotante? Claro que num mundo perfeito todos teríamos tempo e espaço para as pausas e os tempos de maior criatividade, eu sei. Já ouço as vozes críticas a gritarem-me aos ouvidos essa banalidade, mas embora não haja mundos perfeitos nem organizações ideais, existe muita margem de manobra. E muita possibilidade de correcção e melhoria quanto a métodos de trabalho.

Trabalhei há muitos anos, longos anos numa estação de televisão, e já na altura via aquilo que ainda hoje acontece em empresas onde se premeia a quantidade de horas de trabalho, em detrimento da qualidade. Em vez de as pessoas serem dispensadas depois de cumprirem bem todas as suas tarefas (e por vezes isso até acontece depois das horas a que é suposto sair, mas também pode acontecer antes do horário de saída), eram obrigadas a permanecer no local de trabalho e, por isso, havia esquemas que chegavam a ser cómicos. Lembro-me bem de uns blazers que um ou outro deixavam pousados nas costas das cadeiras quando se iam embora, para darem a ilusão de que continuavam por ali. E lembro-me de um jornalista muito divertido, que trabalhava mesmo ao meu lado, atender sucessivas chamadas para alguém que não estava (mas deixara o casaco) dizer também repetidas vezes, com um certo cerimonial:

  • – (essa pessoa) não está, mas está aqui o seu casaco, se for alguma coisa que ele possa resolver…

Nós ríamos da piada repetida sempre com esse ar de cerimónia, mas na realidade o esquema resultava para esses, na altura. Aparentemente continua a resultar, pois os estudos também provam isso mesmo, que as pessoas encontram todo o tipo de expedientes para parecerem que estão presentes, sem estarem. E se assim é e se a prova científica é que o presentismo não resulta, então vale a pena pôr esta questão em perspectiva. Até porque nesses mesmos estudos também podemos ler que nos países anglo saxónicos ficar até muito tarde nas empresas é sinal de incompetência. De ineficácia, má organização e péssima gestão do tempo. Na Austrália, por exemplo, a cultura dominante no universo empresarial estimula a saída dos funcionários por volta das 17:30. E os resultados estão à vista nos indicadores económicos daquele país. Aparentemente os gestores australianos sabem que uma coisa é o que cada trabalhador é capaz de fazer, outra é aquilo que é obrigado a fazer. Entre uma e outra vai um abismo de distância que pode precipitar no esgotamento e depressão todos os que são obrigados a trabalhar para além dos seus limites.

Sem querer desmoralizar os que vivem nesta situação (conheço-a bem, acreditem) os problemas de saúde e os tais gastos exorbitantes referidos nos estudos da Universidade Católica de Lovaina têm precisamente a ver com burnout e estados depressivos, neuroses, pouca capacidade de concentração, dores de costas, problemas de visão, má circulação, eczemas e uma panóplia de doenças psicosomáticas mais ou menos incapacitantes. Posta assim a questão do presentismo (dos excessos desnecessários, insisto mais uma vez!) as recomendações dos estudiosos de Lovaina apontam para gestores mais flexíveis, capazes de darem o exemplo e de reconhecerem que ninguém é eficaz se for obrigado a trabalhar 12 ou 14h por dia. Parece óbvio, mas há sempre quem tenha dificuldade em lidar com evidências, sobretudo quando gerem pessoas mas só pensam em números.

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