A determinação do Governo que impede ao Povo de Deus, pelo menos por mais um mês, que se junte finalmente para celebrar a Santa Missa, é inaceitável, não deixando de revelar o menosprezo votado a todos os crentes.

Do ponto de vista jurídico, tal medida é inconstitucional e manifestamente ilegal, porque tomada sem fundamento na Constituição ou mesmo uma lei de valor reforçado que a sustente e permita, pois veda a livre expressão da sua Fé a todos e cada um.

Numa perspectiva mais alargada, é mesmo anticonstitucional, porque derruba um dos pilares da nossa sociedade e da nossa civilização, mau grado se entenda o Estado como laico e se pretenda existir separação entre o poder temporal e o poder espiritual. Ao contrário das lendas negras que se contam, uma leitura simples da História dos últimos 2000 anos bem revela como a Igreja sempre combateu pela sua independência face aos muitos cesaropapistas que desde o princípio A cercam.

Mais grave ainda: esta medida é absolutamente ilegítima, porque penetra em terreno que lhe está e sempre esteve vedado, terra em que não lhe pertence entrar, espaço que existe antes do próprio Estado: a alma de cada homem.

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Por isso esta directiva do Governo é iníqua, e a uma lei iníqua não se deve obediência, devendo um Governo que a aprova ser rapidamente destronado, condenado à proscrição da história, relegado para as suas páginas mais negras e para os fundos recantos das más memórias.

Dir-se-á que não é esse o objectivo, e que estas acusações são injustas, porque a única preocupação tem sido a de preservar a saúde e a vida dos Portugueses. Sucede que, não só as ridículas excepções que mesmo no estado de emergência foram admitidas, como esse sentimento altruístico do Governo não convence a quem acompanha o avançar progressivo das suas políticas nos diversos domínios. Aponte-se apenas como, nestas medidas extraordinárias que nos últimos tempos foram criadas, o Estado se exime de qualquer responsabilidade pelos danos que possa vir a causar no desempenho das suas funções – quando o regime geral o prevê -, se determinam unilateralmente alterações com enorme impacto para os particulares nos contratos celebrados pelo Estado Português – o que mostra como o Estado não é de confiar -, ou se tem percebido em relevantes membros do Governo a tentação indisfarçada de se aproveitar este tempo para nacionalizar empresas e bens privados.

A política governamental tem uma agenda muito precisa, com anseios totalitários, em tudo se assemelhando a tantas outras que vão grassando por essa Europa fora, bastando olhar para o país nosso vizinho para bem se compreender o que aqui também se pretende vir a implementar. Claro, bem ao jeito português, com menos reboliço, pausadamente e de forma aparentemente mais moderada, sem dar tanto nas vistas. Mas o que é facto é que, à semelhança de Espanha, o Governo e os seus apoiantes no Parlamento formam uma verdadeira Frente Popular, cujos resultados estão bem à vista na história terrível do século passado.

Não se pede ao Estado que seja confessional, mas um Governo que, em Portugal, mostra não ter mínima noção do que significa a proibição da Santa Missa com assistência de fiéis revela bem o fosso profundamente cavado entre os actuais responsáveis políticos – onde está também o Senhor Presidente da República — e os Portugueses.

É que, para nós, Católicos, seria mais fácil o mundo sobreviver sem o sol, que sem a Santa Missa, como dizia o Padre Pio. A Santa Missa é para nós vital, essencial, sanguínea. Porque é ali que está o nosso Deus, é ali que sempre aparece Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em tempos de outro Costa – e muitos antes e depois houve, aqui e por essa Europa fora, que o tentaram também –, uma forte reacção católica impediu a invasão desses piratas do espírito. Contudo, a inoculação não foi forte o suficiente, a epidemia das ideologias ateias foi alastrando, subversiva e traiçoeira, muito virulenta ainda que aparentemente assintomática.

Ora, esta pandemia da Covid-19 assolou a Europa quando o seu sistema imunitário espiritual está o mais baixo possível, estando esta época já por muitos especialistas certeiramente diagnosticada como sofrendo de uma confrangedora ausência de espírito crítico, padecendo de torpor grave causado por uma ilusória economia em crescimento, sem elites e dirigentes em qualquer campo da sociedade com carisma, vontade e coragem de afrontar a ingerência daqueles, porventura mais astutos e ao abrigo de desculpas filantrópicas, que vão aproveitando para espalhar os seus vírus ideológicos.

Tendo obedecido ordeiramente às estritas recomendações de confinamento, a estupefacção foi geral quando se percebe que o que é e foi permitido a uns, não é permitido aos crentes.

Ora, tal restrição afecta os Católicos com muita gravidade, dado que temos no centro das nossas vidas a Santa Missa, onde Deus se faz presente, real e verdadeiramente, no Sacrifício do Altar, onde nos aparece em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, e que podemos receber pelo dom da Comunhão Sacramental.

Ora, no calendário determinado pelo Governo, e ainda sujeito a directivas mais detalhadas – será que poderemos vir a comungar? –, o Governo relegou para o último lugar a possibilidade de se poder louvar a Deus em comunidade. Algo que para nós é insubstituível e para que não há alternativa. Mesmo com a Comunhão Espiritual – e tanto pode ser obtido por este meio, é verdade –, nada há que se compare à Comunhão Sacramental.

Não se recusa que se neguem estas verdades e realidades, e estamos bem cientes que para muitos a ida à Missa é um puro disparate. Mas que um Governo as relegue para último lugar, e nos impeça de ir à Missa é que nunca!

Menos ainda quando a partir de agora se vai já permitindo a abertura do comércio local, estética e livrarias, restaurantes e pastelarias, edifícios públicos e conservatórias, galerias de arte e stands de automóveis, museus e monumentos…

Ficamos a perceber, pelo calendário de desconfinamento determinado pelo Governo, que as celebrações litúrgicas comunitárias estão ao mesmo nível de partidas de futebol, cinemas ou outros espetáculos, o que é bem sintomático do sentir governativo.

Ora, a Santa Missa não é mera actividade de recreio, não é simples entretenimento para alguns ou ópio do povo para outros, e portanto dispensável, adiável, substituível por outras distrações que entretanto se vão permitindo.

E pasma-se perante o facto de tais medidas administrativas serem decretadas com o respaldo do Senhor Presidente da República, distinto constitucionalista e conhecido por se professar católico

Revelam tais medidas a filosofia antropológica de quem nos governa, se filosofia se pode chamar a quem não se conhece por ter, ou sequer se esforçar ter, um pensamento preocupado com a verdade. Para o Governo as necessidades do espírito não contam, antes devem ceder perante as necessidades do corpo, tendo estas absoluta prioridade.

A crise que se vive ofereceu, sem dúvida, uma óptima justificação para, com laivos de legalidade e de acordo com a lógica meramente utilitarista dos nossos governantes, se proibir o que há séculos estas mentes, que se autointitulam de iluminadas, gostariam de ter extirpado da nossa civilização: a liturgia católica. Esquecem que foi precisamente por amor à Santa Missa que nasceram as maiores obras de pintura e escultura, os mas belos monumentos, os mais requintados trabalhos de ourivesaria, as mais celestiais composições de música, sendo o verdadeiro motor e mote das mais pronfundas obras da escrita, da poesia à filosofia, da literatura à teologia.

Assim se posterga para humilíssimo lugar aquele que é, digam o que disserem, o verdadeiro coração da nossa civilização, e com ele a sobrevivência da Igreja e dos seus fiéis, o que fatalmente abrirá de forma franca o caminho para um admirável mundo novo que de novo e admirável nada tem, como a História nos mostra.

Alertava Santa Teresa d’Ávila há séculos e urge lembrá-lo: “Sem a Santa Missa, o que seria nós? Todos na terra pereceríamos já que somente isso pode deter o braço de Deus. Sem ela, certamente que a Igreja não duraria e o mundo estaria perdido sem remédio.”

Daí que tenham plena justificação os apelos feitos a um sobressalto católico face a estas normas emanadas do Conselho de Ministros, que bem revelam as suas intenções, por alguns já antes percebidas, e que agora se revelam bem patentes, lamentando-se que a nenhum partido político se ouviu qualquer protesto sobre estes graves atropelos à ordem instituída.

Tudo isto tem crescido por força de uma ideia profundamente errada, incompleta e deturpada do que cada um de nós é, negando o Governo em muitas das suas medidas – que não apenas estas -, que há no homem uma unidade vital entre a sua alma, o seu espírito e o seu corpo.

Não nos convencem as suas boas intenções, pois há muito nos é negado o acesso livre a uma educação zelosa, verdadeiramente informada, instrutiva, formativa e cuidada, cuja única finalidade é uma só: a abolição do espírito crítico e do senso comum.

A experiência que tenho – minha e dos meus filhos — do ensino público que aos menos abonados é imposto é a de que, se não tivermos milagrosas  e persistentes capacidades autodidácticas; heróicos Pais com tempo, paciência e forte espírito de sacrifício para instruir e corrigir; uma boa biblioteca à mão; e muita outra gente à volta e de várias gerações que nos mostre donde vimos, o que somos e para onde vamos, estamos destinados a cair numa letargia endémica, que nos vai corroendo a alma, o espírito e o coração. Numa acédia que nos tolhe até os movimentos, nos embota o gosto, nos tira a alegria de viver, porque não encontramos qualquer sentido para o nosso existir.

Os nossos anos são contados de férias de Verão em férias de Verão, nos nossos meses só conta o dia em que recebemos o ordenado, as semanas são passadas com o pé no acelerador e à maior velocidade para que o fim-de-semana chegue depressa, os nossos dias são uma vertigem que muitos só à força de ansiolíticos aguentam.

Essa pandemia do espírito é fundamental para que este Governo, os que o antecederam e os que irão suceder, de cor mais ou menos rubra, poderem ir implementando as suas políticas ideológicas e desnaturadas.

Temos vindo a ser formados, ou formatados, de há umas gerações para cá através duma educação fraca e sentimental, sem qualquer exigência, que não desperta a curiosidade e muito menos a imaginação, muito pouco rigorosa e absolutamente tendenciosa. Vivemos com o medo do amanhã, sem qualquer esperança no futuro. Saltamos narcotizados de crise em crise, desesperados pelas contas por pagar e pelos impostos e regras que os fariseus que nos governam nos impõem a todo o instante.

Não somos livres, essa é a triste verdade. Amarraram-nos, para que, chegados dias como este, muitos se não apercebam da intrínseca maldade das medidas governamentais que nos proíbem, pelo menos por mais um mês, de irmos à Santa Missa.

Daqui a uns tempos – e isso já vai acontecendo –, entram-nos porta adentro, ordenando-nos o que vestir, o que jantar, quantos filhos ter e como os educar. Tudo sempre com justificações benévolas.

É, pois, necessário, um sobressalto Católico. Diria mais: é necessário um sobressalto de todos. Esta crise que nos mudará a forma de viver, e as medidas que o Governo determinou devem pôr-nos de sobreaviso.

Não se admitirá, nem hoje nem nunca, que um Governo determine a nossa maneira de falar; o que ou como pensar; no que acreditar; como viver; como e quando rezar.

venho duma família muito numerosa, e lá em casa também já somos muitos. Habituámo-nos a viver com pouco, a sofrer muitas dificuldades, a defender-nos uns aos outros, a dar vida uns pelos outros. E assim muitos outros há.

Somos livres, verdadeiramente livres, e é na Missa que encontramos Aquele que nos abriu um horizonte infinito e eterno, que nenhuma força pode vencer.

O caminho que o Governo está a empreender, a coberto de uma suposta legitimidade eleitoral, irá destruir o nosso País, à semelhança da desunião que grassa em toda a Europa, porque, iludidos como os de Babel, se esqueceram de que, sem Deus, nenhuma sociedade humana sobrevive por muito tempo.

Ao contrário do que nos é mandado ensinar e do que as instituições europeias negam, foi o Cristianismo que fundou a nossa civilização, foi a Palavra de Jesus Cristo, o Seu Corpo e o Seu Sangue entregues na Cruz e por nós comungados, que insuflaram a alma da Europa, permitindo que, no princípio da nossa era, se encontrassem e irmanassem providencialmente as tradições de Roma, Atenas e Jerusalém. A negação dessas raízes matou o projecto europeu e está a secar cada um dos seus países membros, reduzindo a Europa a uma vergonhosa insignificância no panorama mundial. E não é por motivos financeiros ou económicos, mas porque a sua alma, o seu espírito e o seu coração estão mortos.

Deus existe, quer o seu Governo queira, quer não. E tudo devemos fazer para que não nos seja negado o mais básico e fundamental direito de, pelo menos, assistir à Santa Missa uma vez por semana e de comungar.

A aceitação destas regras por parte da Conferência Episcopal Portuguesa não implica que a grave inconstitucionalidade destas regras se deva ter por sanada, da mesma forma que a escravidão nunca seria lícita ou aceitável pela mera conformação de quem fosse submetido a tal horror.

Sabemos bem que é necessário ter cuidados, os mesmos que se pede a quem usa transportes públicos, vai ao cabeleireiro ou entra numa livraria. Os mesmos que tivemos nas várias idas ao supermercado nas últimas semanas. Não podemos é permitir que nos proíbam de receber O que nos dá verdadeira vida.

Aos nossos bons Pastores, neste Domingo que é o seu, e a todos os fiéis Católicos, animo e encorajo, relembrando as palavras de São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, Patrono dos nossos Párocos:

“Se soubéssemos o valor do Santo Sacrifício da Missa, quantos esforços faríamos para a ela assistir”.

Católico