Entre 25 abril 1974 e 25 novembro 1975 militares do MFA conspiraram, tendo produzido uma série de textos onde deixaram transparecer, em diferentes níveis, o seu fervor revolucionário. Lendo estes guiões que traçavam o caminho que o país devia seguir – à margem de qualquer debate entre representantes democraticamente eleitos pelos cidadãos –, sente-se a sua crença na ideia de que a transição para o socialismo iria resolver todos os males ancestrais de Portugal.

Acontece que, superadas as tentativas de eternizar a forte tutela militar sobre o sistema político de Vasco Gonçalves e as tentativas de manter uma versão mais suave de Melo Antunes, em negociatas à porta fechada com representantes partidários, com o II Pacto o MFA conseguiu mesmo aquilo que queria para o país: lá está no preâmbulo da nossa Lei Fundamental a “transição para o socialismo,” e a partir do momento em que os partidos – que os militares deixaram que sobrevivessem – assinaram o I Pacto em 11 abril 1975, escassos dias antes da primeira consulta ao eleitorado, nunca mais algum partido do nosso sistema pôs em causa o Estado social em Portugal.

Entre 28 setembro 1974 e 11 março 1975 todos os partidos que se apresentavam como abertamente antimarxistas – e eram seis: PNP, PL, MFP/PP, MAP, MPP, e PDC –, foram banidos, com as suas sedes pilhadas por multidões exaltadas. Nunca se provou – com exceção do MAP de Kaúlza de Arriaga, e mesmo este movimento preparava-se apenas para resistir a uma agressão comunista durante a planeada manifestação de 28 setembro, impondo então o estado de sítio –, que o PL ou o PNP, para não falar do MFP/PP, do PDC e do MPP estivessem a preparar qualquer golpe, tendo sido essas apenas justificações espúrias para o seu fecho, dadas pelo então primeiro-ministro provisório Vasco Gonçalves, aconselhado por Álvaro Cunhal.

Entretanto, passaram 45 anos. Desde 2000 o país está estagnado. À falta de crescimento – não obstante a entrada de verbas anuais da UE equivalentes em média a 2% do PIB –, aliou-se, a partir dos governos de José Sócrates, uma dívida asfixiante. A sustentabilidade e o bom desempenho da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde em Portugal, nos seus atuais moldes, não são dados adquiridos.

Contudo, o terreno não está de todo aberto a sugestões para repensar o rumo que temos vindo a seguir quanto ao nosso Estado social, e às cargas tributárias irracionais a ele associadas, que, dificultando tremendamente a criação de riqueza, são o principal motivo para a sangria de muitos dos nossos quadros qualificados para o estrangeiro. 45 anos depois do 25 de abril a extrema-esquerda continua a policiar o pensamento político na comunicação social, arreigando-se da responsabilidade de decidir que ideias são aceitáveis e quais não. Veja-se a expressão utilizada por Daniel Oliveira referindo-se ao Programa do Chega!: “faz as posições do mais tresloucado militante da IL parecerem socialistas”. São opinion-makers como Daniel Oliveira que decidem onde está o centro no nosso debate político – mais à esquerda, que é onde lhes convém.

Outra prova de que o debate político em Portugal, desde a implantação da III República em 25 abril 1976, está limitado às ideias da esquerda, nunca podendo sair da social-democracia socialista, é que essa mesma extrema-esquerda, que desde 2015 suporta o Governo, continua a reciclar as mesmas prescrições – amplo pacote de expropriações de empresas no caso do BE e ocupações de terras privadas pelo PCP – que outrora redundaram na primeira de três crises económicas apenas resolvidas com intervenções externas.

Ora, a democracia não é de esquerda nem de direita: é de todos. Dado o patente fracasso, sobretudo desde 2000, do modelo que o país vem seguindo, não estará na hora de pôr em causa certos lugares-comuns dados por adquiridos?