No passado fim de semana, Macron falou com Trump e pediu-lhe que não retirasse as tropas da Síria. Recuemos a 2002 e a 2003. Na altura, outro Presidente francês, Jacques Chirac, liderava uma coligação que se opunha à intervenção dos Estados Unidos no Iraque. Como alguns sempre desconfiaram, para a Europa, só há uma coisa pior do que o intervencionismo americano: o isolacionismo dos Estados Unidos.

A verdade é cruel: sem os Estados Unidos, a Europa não serve para muito no Médio Oriente ou no Golfo. Ainda há quem fale, de novo (e sem ter aprendido nada com o que se passou nos últimos 30 anos), na “hora da Europa”. Foi o que alguns europeus disseram em 1992, a propósito da Bósnia. Sabemos muito bem como os europeus protegeram os bósnios e os kosovars. E agora, Macron acaba de vetar o início de negociações para a adesão da Albânia e da Macedónia à União Europeia, contra a vontade de todas as outras capitais europeias. Eis, a hora da Europa.

Claro que Chirac não era um homem de esquerda, mas também sabemos que quase toda a esquerda europeia, seguramente a portuguesa, a espanhola, a francesa, a alemã e até em grande medida a britânica, esteve ao lado de Chirac na oposição ao intervencionismo norte americano. Muitos ainda se recordam das manifestações, marchas, cartas e baixos assinados dos dirigentes do PS, do Bloco e do PCP contra a intervenção americana no Iraque. Foi uma espécie de geringonça anti-americana.

Finalmente, a esquerda tem o que sempre quis: um Presidente americano que recusa intervenções militares no Médio Oriente, mesmo quando há populações civis vítimas do uso da força por parte de ditadores, como na Síria, ou compromissos com aliados, como no caso dos Curdos. Enquanto Trump estiver na Casa Branca, não veremos as esquerdas a marcharem nas ruas das cidades europeias contra as guerras americanas. Entretanto, os ditadores da região matam milhares de populações indefesas, e acabam com as minorias Cristãs no Médio Oriente. Veremos se alguma sobreviverá quando finalmente chegar a hora da Europa.

A outra grande causa das esquerdas radicais nas últimas décadas foi o ataque à globalização e ao comércio livre (aqui devemos excluir o PS e outros partidos sociais democratas europeus). Lembram-se das ‘cimeiras anti-globalização’ organizadas por Lula em Porto Alegre, onde as grandes figuras das esquerdas radicais europeias gostavam de ir? As esquerdas radicais nunca esconderam a defesa do protecionismo e do nacionalismo económico contra a globalização americana, à qual que chamam o “consenso de Washington”. Ora, hoje na Casa Branca, há uma pessoa que pensa como as esquerdas radicais contra a globalização e a favor do protecionismo.

As esquerdas dizem-nos que não gostam do nacionalismo e do racismo de Trump, e acredito que seja verdade no caso das esquerdas moderadas. Mas as esquerdas radicais, quando lhes convém também sabem ser racistas, como mostra o modo como partido trabalhista de Corbyn trata os judeus. Mas há uma questão que verdadeiramente faz as esquerdas radicais odiarem Trump e outros líderes populistas. Trump, Farage, Le Pen e Salvini acabaram com o monopólio que as esquerdas Marxistas tinham nas classes operárias. É esse o drama das esquerdas com o populismo nacionalista.

Sanders faz discursos nas universidades, mas Trump vai às fábricas e é aplaudido pelos operários. Corbyn enche salas de Londres com intelectuais. Mas Farage conquista votos nas pequenas cidades industriais do norte de Inglaterra. O mesmo se passa nas pequenas cidades industrias em França com Le Pen. E em Itália com Salvini. O Chega crescerá a sério em Portugal quando os seus dirigentes começarem a conquistar os votos dos operários portugueses, abandonados, tal como muitos outros na Europa e nos Estados Unidos, pelas esquerdas Marxistas.

Na Europa e nos Estados Unidos, as esquerdas radicais aburguesaram-se e deixaram de saber falar para as classes operárias. Simultaneamente, muitos desses operários, órfãos do socialismo, abraçaram o nacionalismo, o protecionismo e, em muitos casos, o racismo.  Passaram a votar nos partidos populistas. É esta a triste verdade e a triste realidade.

Quase tudo me irrita em Trump. A sua ordinarice, a sua absoluta falta de escrúpulos, os seus instintos de ditador e de tirano, a sua falta de cultura política, o seu desprezo pelos aliados europeus. Na verdade, tudo nele representa o que abomino na política. Mas o que me custa ainda mais, é ver um Presidente aplicar a agenda das esquerdas radicais, passando como um “político de direita”. Não me importo que a direita pague um preço politico por aplicar políticas de direita. Mas pagar uma factura, e será alta, por executar políticas de esquerda é insuportável. Enquanto o partido Republicano não tiver a coragem de afastar Trump, está a atraiçoar toda a direita ocidental. E a permitir que, em seu nome, um oportunista sem escrúpulos faça o que a esquerda radical sempre quis.