A poucos dias de tentar, uma vez mais, contratualizar a rendição da Ucrânia e a partilha desta com Putin, Trump anuncia com a sua vaidade habitual o que diz ser a “paz” entre a Arménia e o Azerbaijão. Os mapas ajudam-nos a compreender de que paz se trata.
O primeiro mostra-nos a Arménia histórica, que na sua maior extensão chegou a cobrir território que ligava o Mediterrâneo ao Mar Cáspio. Mapas como este, mesmo os que se referem a épocas muito mais recentes, dão razão aos arménios quando estes dizem que o Azerbaijão (uma identidade nacional que surgiu apenas no final do século XIX) não existe, tratando-se, na verdade, das províncias orientais da Arménia, agora sob ocupação de populações islamizadas.
O segundo mostra-nos as repúblicas da Transcaucásia (Geórgia, Arménia e Azerbaijão) já como países independentes, em 1994, após o desmembramento da União Soviética. Temos a amarelo o território oficial da Arménia, a castanho o do Nagorno-Karabakh, e a laranja o dos territórios anexos que estabelecem continuidade territorial entre o que seria um enclave e o resto da Arménia.
Acontece que o Nagorno-Karabakh não é um território qualquer. Estava nas mãos dos arménios desde o século XV e assim permaneceu mesmo quando a Arménia se viu integrada na Pérsia, em reconhecimento pelo papel dos Meliks (príncipes) arménios na defesa contra o avanço dos Otomanos vindos do Ocidente. Existe aqui um paralelo flagrante com o Kosovo, um território sérvio na linha da frente contra o avanço dos mesmos Otomanos. Num e noutro caso – Kosovo e Nagorno-Karabakh – trata-se de territórios que cada uma destas nacionalidades considera seu berço, e onde se situam, logicamente, muitos dos seus monumentos e santuários mais reverenciados e mais relevantes para a respectiva identidade nacional.
Durante 30 anos a Arménia travou sucessivas guerras com o Azerbaijão, que procurava conquistar-lhe o Nagorno-Karaback. Foi resistindo, com apoio dos russos que, entre duas ex-repúblicas, apoiavam aquela que era cristã e rodeada por populações islâmicas hostis, de origem turca. Até que – abandonada pelos russos que se encontravam, eles próprios, em sérias dificuldades na sequência do seu ataque à Ucrânia – cedeu, no final de 2023, perante um ataque relâmpago do seu vizinho, com uma população três vezes e meia maior do que a sua. Seguiu-se o êxodo de 150.000 arménios que habitavam o enclave e a perda de referências históricas insubstituíveis. Não muito longe do Nagorno-Karabakh situa-se, por exemplo, o templo de Garni, a construção greco-romana mais a oriente. As cruzes gravadas em mosteiros como os de Geghard ou de Noravank, assim como nas próprias montanhas em seu redor, são as últimas que vemos antes de entrar na Ásia profunda. Tal é a brutalidade da perda sofrida pelos arménios.
E neste ponto intervém Trump, que apresenta esta paz como um grande triunfo diplomático. Vejamos em que consistiu o acordo e quais as vantagens para cada uma das partes. Comecemos pelos ganhos do Azerbaijão:
1. Obtém o que pretende, território considerado sagrado pela Arménia.
2. Obtém um corredor sobre território arménio (chamado Corredor Trump) que liga o Azerbaijão ao seu enclave Nakhichevan.
3. Graças a esse corredor passa a ligar-se directamente ao seu enclave e ao território do seu maior aliado – Turquia – passando a aceder por terra aos mercados europeus.
E passemos aos “ganhos” da Arménia:
1. Vê consagrada a perda de território que considerava sagrado.
2. Sofre uma limpeza étnica de 150.000 pessoas que tem de absorver numa sociedade e numa economia já muito débeis.
3. Vê passar pelo seu território um corredor que dá todas as vantagens ao seu inimigo e ainda cede essa área aos americanos, que a sublocam aos consórcios da sua preferência.
A isto — ao esmagamento de uma das partes, sobre cujos despojos cai como uma ave de rapina — chama Trump a “paz”. É o prenúncio do que tentará fazer á Ucrânia. E, no entanto, se houvesse nele algum vestígio de capacidade diplomática e vontade genuína de promover entendimentos, as condições eram perfeitas para ele brilhar. Olhe-se novamente o segundo mapa… A Arménia tem, encravado em território azeri, o Nagorno-Karabakh. E o Azerbaijão tem, encravado em território arménio, o Nakhichevan. Enclaves de dimensão idêntica. Poderiam ser permutados, permitindo a cada um dos países a continuidade territorial que pretende. E, em clima de paz, seria viável que os cidadãos de cada um deles continuassem a visitar regularmente os territórios que eram anteriormente seus ou, mesmo, aí residissem. O Alto Karabakh continuaria na esfera religiosa e cultural da Arménia, o mesmo sucedendo com o Nakhichevam em relação aos azeris. Entendimentos para os quais Trump não tem vocação nem interesse. O seu método é bem mais simples: chega ao local do conflito, encontra um dos contendores já caído… dá-lhe o tiro de misericórdia e rouba-lhe a carteira. Está feita a paz.