Depois de aturadas e difíceis conversações, as autoridades de Kiev deram luz verde a Moscovo para enviar ajuda humanitária para o leste da Ucrânia. Não obstante os acordos alcançados, fica sempre o receio de que Vladimir Putin envie “capacetes azuis” para a região e acabe por dividir o país vizinho.

Os analistas políticos russos são da opinião de que o envio de ajuda humanitária não irá contribuir para o fim da guerra entre as tropas ucranianas e os separatistas pró-russos. “Depois da ajuda humanitária russa, antes de tudo para o Donbass, chegarão observadores estrangeiros e verão o que aí realmente acontece”, declara Oleg Kudinov, presidente do Centro de Consulta Política, ao diário “Moskovskii Komsomolets”.

Segundo ele, a criação de corredores humanitários será seguida do envio de “capacetes azuis”: “se até ao outono Kiev não esmagar Donbass, terá lugar a divisão do país e a presença de ‘capacetes azuis’, e isso será por muito tempo”.

Na véspera, ao anunciar o envio de ajuda humanitária para o leste da Ucrânia, Vladimir Putin declarou que ela seria acompanhada de “escolta”, o que criou receios em Kiev. “Muito depende do que será mais importante: o ‘humanitário’ ou a ‘escolta’. Se se tratar simplesmente de ajuda humanitária, não deverão surgir problemas. Se ela for acompanhada de homens russos armados, principalmente militares, o conflito aumentará de dimensões”.

O Kremlin, pela voz do seu porta-voz Dmitry Peskov, tenta acalmar os receios: “Ela será organizada pela Cruz Vermelha Internacional, mas será constituída por uma coluna russa que entrará no território ucraniano no lugar acordado com a parte ucraniana”.

Porém, os receios são grandes. Oleg Soskin, director do Instituto de Transformação da Sociedade de Kiev, sublinha: “Ele [Putin] não pode manifestar apoio aberto aos guerrilheiros, mas eles recebem armas russas. Como ele não pode continuar a fazer desse modo os fornecimentos, recorre à via humanitária”. Além disso, este analista não exclui a possibilidade de a coluna russa vir a ser atacada, e que isso possa servir de pretexto para uma intervenção militar directa do Kremlin.

Durante muito tempo, Kiev recusou esta proposta de Moscovo e só a aceitou depois de intensas consultas com os líderes da UE e dos EUA, fazendo destes garantes da sua integridade territorial.

Segundo as notícias da imprensa russa, tudo ficou definido entre Putin e os dirigentes ocidentais, mas os receios continuam no ar. Tanto mais que, depois de amanhã, o actual senhor do Kremlin vai discursar na Crimeia perante os deputados do Parlamento russo. Será para anunciar novas conquistas, ou antes para “apenas” reafirmar que “A Crimeia é nossa!”?