Quem sou eu para ficar desiludido com aquilo que os outros escrevem, sobretudo se escrevem sobre aquilo que lhes diz mais respeito do que a mim? Pelo menos muitos daqueles que assinaram a espécie de manifesto que é “A clareza que defendemos”, no Público de dia 10, encontram-se provavelmente mais à direita do que eu e têm, é claro, toda a legitimidade para defenderem para o grupo a que pertencem uma imagem consoante aos seus desejos. Mas, se não tenho autoridade para a desilusão, tenho pelo menos o direito a uma certa surpresa por ver algumas pessoas de quem genuinamente gosto e admiro subscreverem um papel que é uma espécie de telejornal da SIC, com direito a Luís Costa Ribas e tudo.

O manifesto, se é que a palavra convém, testemunha uma grande nostalgia pelos velhos tempos de uma direita vista como símbolo da decência e da civilidade e um visceral desgosto pela sua presente cedência a populismos e autoritarismos diversos. Para sublinhar a grandeza moral dessa nostalgia e desse desgosto, afirma-se até que os pecados que a esquerda comete nesse mesmo sentido não devem em caso algum servir de justificação para que se siga uma tal via. Até aqui, pelo menos na aparência, tudo bem. Também a mim me acontece muitas vezes ter saudade do passado e percebo perfeitamente que outros não partilhem a minha funesta paixão, irreprimível e avassaladora, por Donald Trump, embora me custe entender que isso deva com qualquer necessidade conduzir à apresentação de um telejornal da SIC.

Os problemas vêm depois, e o primeiro deles é a amálgama – palavra que os subscritores do manifesto apreciam certamente, já que ela aparece cinco vezes no curto texto – a que procedem na sua condenação sem apelo do mundo presente. Facto tão mais estranho quanto o manifesto se apresenta como uma crítica de indevidas amálgamas que a direita dos outros tende a praticar, numa deriva – outra palavra que aparece cinco vezes – estrangeira aos bons costumes, nomeadamente aquelas que se revelam na conivência da outra direita com os tais populismos e autoritarismos. Em que consiste a amálgama própria ao manifesto? Consiste em juntar tudo no mesmo saco, Bolsonaro e Trump, os governantes da Hungria e da Polónia, o Vox espanhol, e, presume-se, o que mais der jeito ao argumento, incluindo aqueles que, por cumplicidades e tibiezas, a eles se colam, mais ou menos disfarçadamente. Nenhuma palavra é dita sobre a diversidade das várias situações enumeradas, ou das tradições próprias a cada um dos países, embora seja expressa uma magnânima compreensão (mais um momento de elevação moral), que não custa nada, pelas “razões de descontentamento e exasperação dos seus apoiantes”. E, no entanto, para ver claramente alguma coisa na situação presente, não se pode fazer a economia dessas diversidades, sob pena de tudo confundir e de nos afastarmos a passos largos de todo o contacto com a realidade.

Outro problema tem a ver com o populismo. Como qualquer conceito do vocabulário político, é um termo declaradamente equívoco, ao ponto de, bem vistas as coisas, não haver homem político que, mais ou menos frequentemente, não possa dele ser acusado. Mas a equivocidade não é sinónimo de indeterminação completa. E um autor conhecido, defensor de um populismo de esquerda, forneceu uma definição que, com todas as suas limitações, é em grande medida aceitável: trata-se de um discurso, surgido num clima de insatisfação política, que é capaz de reunir reivindicações particulares e heterogéneas num todo que se apresenta como uma recusa do statu quo.

Ora, aceitando esta definição parcial, o exemplo local mais elucidativo do populismo, porque, por mais delirante que seja, o mais articulado teoricamente, não nos vem sequer da direita, vem-nos da esquerda, nomeadamente do Bloco. Toda a conversa em torno do “interseccionalidade”, toda a facilidade em lidar na mesma frase com as questões do género e as alterações climáticas e por aí adiante, estabelecendo relações internas puramente fantasmáticas entre problemas intrinsecamente diversos, são o exemplo maior do populismo entre nós, dando lugar a “discursos demagógicos, incendiários e revanchistas”, para falar como o abaixo-assinado. A direita pratica o género, por esse mundo fora? É claro que o pratica. Mas é à esquerda que, parcialmente abandonado o núcleo de racionalismo que ainda estruturava o marxismo de Marx, a ele se dedica com mais inusitado fervor. Sob a capa da benevolente placidez de Catarina Martins, que praticamente nunca em público se irrita com nada, é esse populismo que orquestra o discurso do Bloco. Catarina Martins merece, de resto, um genuíno aplauso pela sua maneira de suavizar tudo o que é rude e agreste no seu partido, capturando assim um número muito razoável de eleitores que, caso o Bloco fosse em primeiro lugar representado por Louçã ou até por Mariana Mortágua, desapareceriam num ápice. Ora, no manifesto, o populismo encontra-se exclusivamente associado à direita – a esquerda sofre, quando muito, de radicalismo –, e assim se falseiam por inteiro os dados do problema.

Agora que chegámos a casa, é a altura de falar daquilo que, como dizia o outro, é conspícuo pela ausência, ou, se se preferir, ostensivamente subentendido. Já li, sob a pena de pelo menos um dos subscritores do manifesto, que o Chega ou André Ventura não são mencionados por uma só vez em todo o texto e que, portanto, é pelo menos desonesto metê-los ao barulho. Francamente, deve ser a brincar, e a brincadeira é simultaneamente pueril e de mau gosto. O Chega, em primeiro lugar pelas conversações que viabilizaram o novo governo dos Açores, aparece no centro de tudo, como núcleo que irradia o mal e corrompe o universo em seu torno. E aparece mostruosamente magnificado, como um objecto gigante numa paisagem exígua. A coisa já vem de trás, é claro, e sempre me surpreendeu. Que os signatários do manifesto adoptem uma tão desproporcionada e alucinada visão, surpreende-me ainda mais.

Senão, vejamos. A relação das pessoas com as ideias (neste caso, as ideias políticas) oscila entre um radical cepticismo e um quase sentimento de identidade. Essa oscilação dá-se num contínuo, que vai de uma descrença radical a uma crença absoluta, passando pela dúvida, a aproximada certeza e um sem-número de graus intermediários. Não digo que no Chega não haja doutrinários que aspirem a certezas políticas. Mas, dada a sua natureza de partido de protesto – o tal protesto ao qual os signatários do abaixo-assinado dizem reconhecer “as razões de descontentamento e exasperação” de quem por ele envereda –, os doutrinários estão condenados à obscuridade e à extinção. O próprio André Ventura, que não brilha excessivamente pela coerência das suas ideias – repetir aqui e ali umas pequenas obsessões, por perceber que elas correspondem a genuínos sentimentos de preocupação por parte de faixas significativas da população, não chega para a tal coerência – percebe-o perfeitamente. O que sobra é um número muito significativo de votantes que, à falta de outra oferta na qual sintam a proximidade com as suas angústias, está pronto a entrar no barco. São eles todos de extrema-direita, deploráveis fascistas que visam destruir a nossa bela democracia? É claro que não são, na sua extensíssima maioria. E a sua relação com certas ideias mudará mal sintam que um projecto político diferente os pode integrar, mostrando-lhes respeito e uma atenção à qual até agora não tiveram direito.

E precisamente por causa disso, faz todo o sentido uma aliança da direita democrática com o Chega, que, qualquer que seja a infelicíssima extravagância de uma ideia ou outra, não constitui, de toda a evidência, um partido anti-democrático. A recusa de qualquer entendimento, por mais ténue que seja, é que poderia acentuar um movimento de radicalização, acossando os indivíduos e afastando-os cada vez mais dos patamares da democracia. Rui Rio, que acumulou erros durante estes últimos anos, acabou por perceber este simples facto, honra lhe seja feita. Os signatários do abaixo-assinado aparentemente não. Deixaram-nos um texto que é a expressão possível das suas belas almas, irradiando uma boa consciência retirada na sua intimidade mais profunda e uma pureza transparente, que não é senão, nas palavras de um autor célebre, “vapor sem forma que se dissolve no ar”. Vários deles valem incontavelmente mais do que isto. Espero que o “objecto oco que criaram para si mesmos”, para continuar com o mesmo autor, se desvaneça rapidamente dos seus espíritos.

A terminar, dois pedidos. O primeiro: que não se venha falar das “lições da história” e do exemplo de líderes que começaram por ser aparentemente inócuos e vistos como ridículos e que acabaram monstros inomináveis. É preciso medida no uso das analogias, e medida é o que mais tem faltado. O segundo: que, tanto quanto possível, se estabeleça um acordo que impeça referências a Sá-Carneiro como alguém que representava a social-democracia na sua mais intransigente recusa de qualquer cedência à direita mais conservadora. Votei na primitiva AD e lembro-me bem desses tempos. Lembro-me também como, a partir de um certo PS – e mesmo de um certo PSD – até à extrema-esquerda, tudo aquilo era o retorno do “fascismo” em estilo puro e duro.