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Uma certa esquerda

Autor
  • Marina Santos
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No Porto de Lisboa um navio que deveria descarregar e carregar contentores em horas demorou quatro dias – e cada dia custa milhares de euros. E quando um armador perde dinheiro deixa de usar tal porto

Vi por estes dias o sr. Mário Nogueira a dar uma entrevista na televisão. E incomodou-me, como sempre, que falasse em nome dos professores. Sobretudo que falasse em nome de uma classe de trabalhadores com direitos que considera adquiridos, quando na verdade quem está a defender são os antigos professores que estão já na carreira, mais protegidos e a ganharem mais (diga-se a verdade, é quem lhe paga as quotas e o sustenta). Apesar de abordar a questão dos milhares de contratados que continuam precários — mesmo com dezenas de anos no serviço público, mal pagos e sujeitos a tudo nas escolas –, estes não são a prioridade na sua agenda política.

Esta esquerda, com a sua retórica dos direitos adquiridos e o espicaçar do “papão da direita”, tornou-se o porta-voz dos mais favorecidos. Continua contudo a hastear a sua bandeira de superioridade moral face aos outros a que chama capitalistas, neoliberais e outros rótulos como argumentos “ad hominem”, atacando as pessoas em vez de discutir as ideias.

Esta exposição pública do caso da progressão na carreira dos professores contrasta fortemente com o silêncio sobre a greve dos trabalhadores portuários. Estas greves cíclicas nos períodos de verão voltaram, tal como os incêndios, e têm consequências tão desastrosas como estes.

Desta feita, apesar de já haver um contrato colectivo de trabalho acordado com os sindicatos, em Lisboa e Setúbal convocam plenários constantes (120 nos últimos 10 anos) e, depois de um mês de greve às horas extraordinárias, avançam para mais de um mês (até dia 10/09). E a greve é em nome de…”mais direitos sindicais”: não para eles, dizem, mas para os outros!

O caos está a instalar-se nos portos, os clientes reclamam constantemente com as linhas de navegação e com os transitários, havendo já sérios problemas quer no âmbito das importações quer das exportações a nível marítimo. O silêncio nos meios de comunicação social é, no mínimo, estranho – pelo menos houve um comunicado da AGEPOR (Associação dos Agentes de Navegação). Os terminais marítimos de Lisboa perdem credibilidade e os armadores já receiam vir cá com os navios.

Para que se compreenda a seriedade do assunto, um navio que deveria descarregar e carregar contentores numa questão de horas, demorou quatro dias – e cada dia custa milhares de euros. Quando um armador perde tanto dinheiro e compromete a viagem, é natural que resolva já não fazer escala em Lisboa, que é o que tem acontecido com vários deles (por ex. a Maersk, o maior armador mundial).

A área dos portos em Lisboa tem sido cobiçada pelo sector imobiliário e várias soluções de mudança de localização dos portos marítimos têm sido apresentadas por diversos governos. Sem questionar a sua viabilidade, sei que neste momento Sines não é solução devido à escassez de infraestruturas ferroviárias e outras alternativas como o Barreiro ainda não existem. Estaremos à espera que as fábricas não tenham matérias-primas e os produtos escasseiem para os consumidores? E, uma vez mais, os sindicatos protegem quem lhes paga e apresentam uma agenda própria que é incompatível com os reais interesses do país.

Confesso que estou farta de retóricas de esquerda (tal como das de direita). O grito “Acorram ao Paço que matam o Mestre [de Aviz]” continua a ser o chamariz para as massas que acreditam que a democracia está em perigo e, com ela, os “interesses/ direitos dos trabalhadores” quando na verdade estão a ser ludibriadas para que os objectivos políticos de alguns sejam atingidos.

Economista

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