O Primeiro-Ministro de Portugal anunciou que vai apresentar queixa sobre o tuíte do utilizador Volksvargas em que Donald Trump agradece uma mensagem em que Montenegro o elogia lambuzadamente e ainda lhe oferece os Açores. Luís Montenegro classifica a publicação como um “acto de desinformação com elevada difusão pública”. No fundo, o PM considera que a patranha tem verosimilhança suficiente para que alguém creia nela. É possível que a irritação de Montenegro seja maior porque o próprio chegou a acreditar. Se calhar, acordou muito cedo e, ao fazer um scroll pelo tuíter, sentado na retrete enquanto esperava que o Dulcolax fizesse efeito, deu com o post de Volksvargas. Ainda rameloso a sua primeira reacção foi: “Olha! O Trump respondeu-me! Mas a quê? Quando é que eu escrevi isto?” Só depois de lavar a cara percebeu que era aldrabice e isso arreliou-o ainda mais.

Só que Montenegro exagerou. Não tem razões para se preocupar, não existe a mínima hipótese de a mensagem apócrifa poder ser considerada verdadeira. Basta lê-la e, mesmo com a atenção reduzida que um utilizador dedica às redes sociais, muitas vezes partilhada com outras actividades como ver televisão, cozinhar, conduzir ou fazer amor, é fácil perceber que só pode ser forjada. Vejamos o que diz:

“Vossa excelência, líder supremo e grande arquiteto dos nossos tempos modernos. Escrevo-lhe hoje ainda entusiasmado pela magnitude dos seus feitos recentes e porque sei que o senhor valoriza um bom negócio. Enquanto outros na Europa podem queixar-se das suas políticas de tarifas, vejo-as como são: uma exigência de excelência e lealdade. Portugal não quer ser apenas mais um ‘país da UE’ para si, queremos ser o seu principal parceiro no Atlântico. Por isso, estamos disponíveis para discutir uma visão que assegura o acesso soberano dos EUA às nossas ilhas dos Açores. Enquanto o resto da Europa paga pelos seus erros, deixemos Portugal ser a exceção.”

É claramente paródia. Sim, começa com subserviência perfeitamente plausível em Montenegro. O tom de sabujice não destoa do tipo de discurso que associaríamos ao nosso Primeiro-Ministro. Porém, incorporada no texto, há uma pista que permite identificar instantaneamente a falsificação: “ (…) queremos ser o seu principal parceiro no Atlântico. Por isso, estamos disponíveis para discutir uma visão que assegura o acesso soberano dos EUA às nossas ilhas dos Açores”. Ora, é evidente que Montenegro nunca diria isso. Não por ser uma decisão unilateral potencialmente anti-patriótica, mas por ser uma decisão. Trata-se de uma característica que, de modo algum, conseguimos associar à personalidade de Montenegro: resolução. Pensar numa estratégia para Portugal e aplicá-la, sem titubear.

O que levanta suspeitas não é a acção ser patética, é ser acção. Luís Montenegro habituou-nos, nestes quase dois anos enquanto chefe de Governo, a não arriscar, a nunca se comprometer com nada. Ainda na semana passada, questionado sobre que candidato apoia na 2ª volta, quis manter-se equidistante (o que seria uma tomada de posição), mas depois, num discurso sobre um tema qualquer sem interesse, repetiu despropositadamente a palavra “seguro” várias vezes (desposicionando-se). Tem medo de assumir que não apoia, depois apoia sem assumir. Não é firme. É óbvio que o PM nunca escreveria uma carta destas a Trump porque, para fazer uma coisa tão vergonhosa, teria de pintar a cara de preto e Montenegro já demonstrou que é um meias-tintas.

Acho mal que Montenegro processe o autor de uma sátira com a desculpa da desinformação. É um ataque à liberdade de expressão e um atestado de estupidez ao povo português. Sucede que o povo português sabe o que a casa gasta e, habituado a esperar meses por documentos oficiais, desconfia de atestados emitidos pelo Estado com tanta agilidade.

Felizmente, uma vez que é Montenegro, vai acabar por dar o dito por não dito e a queixa não vai a lado nenhum.