De onde vem o activismo contra Israel no Ocidente? Dizem-nos que o problema é a política de Netanyahu. Mas não é só obviamente Netanyahu: é o Estado de Israel, como se depreende do grito “do rio até ao mar”, e são os judeus em todo o mundo, como se vê pelo assédio aos estudantes judeus nas universidades americanas e pelo ataque à sinagoga em Manchester. Dizem-nos ainda que é a guerra e a morte de civis em Gaza. Mas também não é só a guerra e a morte de civis em Gaza. Se fosse, os activistas não incitariam à destruição de Israel “por todos os meios necessários”, sabendo que isso pressupõe o arrastamento de uma guerra em que o Hamas sacrifica a população civil, e também não seria tão notória a sua decepção com o cessar-fogo proposto por Donald Trump.
A China ocupa o Tibete, mas não há um activismo anti-chinês. A Rússia ataca a Ucrânia, mas não há um activismo anti-russo. Porque é que só há flotilhas e manifestações contra Israel? E porque é que a gente que embarca e usa os megafones é a mesma de outras agitações, como a campanha contra os combustíveis fósseis? Porque estes são activistas para quem lutar contra Israel ou contra o petróleo significa lutar contra a mesma coisa: o “capitalismo”, de que Israel seria um “agente”. Nada aqui é novo. A campanha contra Israel foi lançada por Estaline nos anos 50. Os argumentos de que Israel é uma “entidade colonial” que extermina os “nativos” constam da propaganda comunista desde essa época. Pode haver, nas manifestações, pacifistas ou simples simpatizantes da Palestina. Nunca teriam dado à campanha anti-Israel a organização e a amplitude que só o extremismo esquerdista alicerçado nas universidades e comunicação social lhe poderia incutir.
A intimidade entre a extrema-esquerda ocidental e os grupos armados palestinianos é antiga. Na década de 1970, os terroristas do bando Baader-Meinhof treinaram em campos palestinianos. Hoje, desiludidos com a “classe operária”, os esquerdistas confiam em que a luta contra Israel lhes permita explorar a massa de imigrantes muçulmanos intoxicados pelo anti-judaísmo endémico no Médio Oriente. É a estratégia de Jean-Luc Mélenchon e de La France Insoumise em França, e talvez a última esperança do BE. O “islamo-gauchisme” pode parecer paradoxal quando põe feministas a marchar ao lado dos mais brutais promotores do patriarcado. Mas faz sentido quando percebemos que as “causas” (Palestina, minorias, etc.) não são, para os esquerdistas, mais do que bandeiras ocasionais com que mobilizar ingénuos para movimentações a que talvez não aderissem sem a maquilhagem “humanitária”.
O radicalismo esquerdista não está apenas circunstancialmente aliado ao Hamas. O radicalismo esquerdista e o radicalismo islâmico têm conteúdos diversos, mas são estruturalmente similares: ideologias para as quais a destruição do mundo tal como ele existe justifica toda a violência e todo o sofrimento imposto aos outros. O paraíso de uns é o socialismo soviético e o dos outros o Islão primitivo. Mas ambos lutam para subverter o que uns e outros chamam o “imperialismo ocidental”. O apelo à “globalização da intifada” significa o reconhecimento, pelos esquerdistas do Ocidente, de que a sua luta é a mesma dos islamistas radicais e que, por isso, deveriam actuar de maneira idêntica, violentamente. Em meados da década de 1960, Che Guevara incitou as esquerdas radicais do mundo a “criar um, dois, três, muitos Vietnames”. Os esquerdistas de hoje esperam “criar uma, duas, três, muitas Gazas”. Por isso, não tenham dúvidas: se o presidente Trump conseguir parar a guerra em Gaza, com a libertação de todos os reféns israelitas e o fim do poder do Hamas, será uma péssima notícia para as flotilhas e para as manifestações.