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A entrada no ano de 2021 traz consigo novos anseios, propósitos, esperança e, com eles, oportunidades.

Se há região no mundo que saiu, à partida, favorecida pela eleição de Joe Biden como Presidente dos Estados Unidos da América foi a Europa. O seu antecessor, Donald Trump, bastante cético de alianças multilaterais tais como a NATO ou a Organização Mundial de Saúde, e desprezando e destratando a integração europeia, olhou para os países do Velho Continente – especialmente para a Alemanha –, enquanto Estados que se aproveitam do poderio económico e militar de uma grande potência mundial como os EUA.

De que forma mudará, agora, a perceção americana em relação à Europa? É natural que a administração Biden continue a colocar no topo das suas prioridades a competição com a China, a resposta às ameaças vindas da Rússia e prossiga determinada em manter o Irão sob controlo. A principal diferença, é que Biden investirá, nesta nova fase, na revitalização da aliança transatlântica e no estabelecimento de uma relação de trabalho com a União Europeia. Será normal dar-se novamente mais relevância a entendimentos multilaterais, especialmente no que se refere aos temas prementes e inadiáveis das alterações climáticas e dos acordos comerciais.

Apesar do maior alinhamento e cooperação que a administração Biden trará nas relações entre os EUA e a Europa, não restam muitas dúvidas de que, dada a crescente preponderância da China no mundo, a Europa estará longe de ser o centro das preocupações norte-americanas. Esta realidade constitui, por si só, a oportunidade, e necessidade, de a Europa investir de forma crescente – e definitiva – na sua autonomia militar e securitária.

A “muleta” composta pela aliança transatlântica, que tanto descanso proporciona aos europeus, deve constituir o mote para se honrar o compromisso relativo aos 2% do PIB alocados à Defesa, auferindo maior robustez e autonomia na resposta aos desafios que surgirão num século XXI que traz consigo uma nova configuração geopolítica repleta de incertezas. O futuro da Europa tem de ser, hoje, irremediavelmente acautelado e preparado.

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A NATO, sendo a aliança militar mais duradoura e bem-sucedida da história da Humanidade, foi criada com o propósito particular de defender a Europa – e não o que se passa diretamente no continente asiático. É precisamente sob esta premissa, que Biden estará a olhar para a Europa, pretendendo vê-la focar-se nos seus desafios internos, enquanto os EUA atribuirão o seu esforço e foco à China que, de uma forma ou de outra, representa e acarreta ressonâncias e repercussões à escala global.

O principal risco para a Europa reside em si mesma. Os europeus serão tentados a interpretar o renovado compromisso transatlântico dos Estados Unidos como uma reedição da antiga relação entre líder e seguidores. A verdade, no entanto, é que tal há muito deixou de ser sustentável num mundo com uma renovada configuração geopolítica: desfeito pela pandemia Covid-19 e cada vez mais moldado pela competição EUA-China.

A administração Biden apresentará, aos europeus, a oportunidade histórica de alcançarem uma crescente autonomia estratégica e cooperação transatlântica enquanto dinâmicas que se reforçam mutuamente. É fulcral que cada Estado europeu e a União Europeia como um todo aproveitem esta oportunidade e assumam a sua responsabilidade carreada de ações, perante aquele que é o seu próprio futuro. Há ideias e ideais que não se defendem sozinhos.

A atuação europeia na esfera da Defesa deve passar pelo foco na importância que a NATO lhe confere – mas mais do que isso –, numa estratégia que seja capaz de enfrentar os desafios securitários mais complexos da região, seja para lidar com uma Rússia ávida de desestabilização em regiões como os Bálticos e Balcãs, no distanciamento e crescente impasse com a Turquia, nas reservas de energia em águas disputadas no Mar Mediterrâneo oriental, ou perante os casos da Hungria e da Polónia, com posições cada vez mais extremadas e, como tal, menos livres e liberais.

A geopolítica mundial está a mudar e, com ela, também a preponderância norte-americana e ocidental está em causa. Não devem restar dúvidas de que há muitos países que farão – e fazem – o possível para minar e desestabilizar uma Europa que se encontra frágil e longe da autossuficiência. Se permanecermos nesta zona de conforto será, definitivamente, tarde de mais.

O que está em causa é a defesa e garantia de proteção da nossa forma de vida, tal como a conhecemos. Dos nossos valores, refletidos na Democracia e na salvaguarda intransigente dos Direitos Humanos. Aproveitemos o milagre transatlântico e tornemo-nos mais autónomos. Mais capazes.