Quando calha e também quando não calha, lá vem o mantra da ocasião: Vai tudo correr bem! Por razões que a ciência não explica, nem muito menos a religião, há quem acredite que esta frase tem efeitos curativos imediatos, desde que dita com a fezada dos que acreditam que um desejo, pronunciado enquanto se fazem figas, é infalível.

É tal o poder deste slogan, que até há janelas e varandas enfeitadas com a fórmula do elixir da saúde eterna. Parece que a expressão afasta os vírus, as enfermidades e os maus-olhados com a mesma eficácia com que, outrora, o sangue do cordeiro pascal, nos umbrais das casas dos judeus cativos, afastou o anjo exterminador.

É de agradecer a mensagem de esperança veiculada nesta frase, sobretudo em nome daqueles que mais sofrem com a actual pandemia e que, por isso, importa consolar. Mas, em nome da verdade, há que dizer que nem tudo vai correr bem, como também não vai tudo correr mal: como sempre acontece, algumas coisas correm melhor e, outras, pior.

É, aliás, nesta certeza das coisas boas e más que apostam os vaticínios dos astrólogos. Se o horóscopo prevê que, para os sagitários e na primeira quinzena do mês, algumas coisas vão correr bem, mas outras não, obviamente acerta em cheio. Porquê? Porque, qualquer que seja o signo do zodíaco, ou as duas semanas em questão, nunca tudo corre bem, ou mal, a ninguém. Para o dizer não é necessário ser mago, bruxo ou vidente; e, para acreditar que assim é, não é preciso ser crédulo.

Não, nem tudo vai correr bem. Há coisas que não vão correr bem, porque vão correr muito bem. Há coisas que vão correr mal e até há coisas que vão correr pessimamente. Aliás, é destas últimas que mais se fala na comunicação social.

Correu tudo bem para o desgraçado George Floyd? Não, infelizmente não. Correu tudo bem para Ihor Homenyuk, o cidadão ucraniano assassinado no aeroporto de Lisboa? Não, infelizmente não. Correu tudo bem para a desaparecida e, muito provavelmente morta, Madeleine McCann? Não, infelizmente não. Correu tudo bem para os milhares que já morreram do novo coronavírus? Não, infelizmente não. Correu tudo bem para os que perderam os seus empregos, por causa desta pandemia? Não, infelizmente não. Então – e a lista, como é óbvio, é interminável – como é que ainda há quem ande por aí a dizer, com a inconsciência dos idiotas, que “vai tudo correr bem”?!

Para um determinado fenómeno, só há duas possíveis explicações: a natural e a sobrenatural. Quando alguém tem uma dor, toma um analgésico, porque sabe que há uma razão científica que explica a acção desse medicamento sobre a maleita que padece.

Quando um fiel cristão baptiza o seu filho, fá-lo em virtude de um princípio revelado, segundo o qual aquele recém-nascido, ao ser-lhe administrado esse sacramento, recebe uma graça. Embora este efeito não seja empírico, a atitude do crente não é absurda, porque a sua fé é, de certo modo, racional. A fé não só não se opõe à razão como a pressupõe: Cristo provou, sobretudo pela sua ressurreição, atestada por mais de quinhentas testemunhas (1Cor 15,6), que a sua palavra é verdadeira e, portanto, digna de crédito. Irracional seria, pelo contrário, acreditar nele sem que tivesse provado ser digno dessa confiança ou, tendo-o provado tão abundantemente, não crer nele.

O principal inimigo da fé não é a ciência, mas a ignorância. A irracionalidade é também o pior adversário da ciência. Ante a insuficiência da ciência, em relação a algum mal para o qual ainda não foi encontrada a cura, como o novo coronavírus, há quem recorra às “medicinas alternativas” e outras pseudociências que, de científico, nada têm. Estas reações irracionais nascem, por vezes, do desespero dos ignorantes, de que os oportunistas se aproveitam, nomeadamente para daí retirar proveitos económicos.

Recordo o tristíssimo fim de um doente oncológico que, persuadido por um familiar a abandonar os tratamentos médicos a que estava a ser submetido num hospital, se entregou a um curandeiro que, com mezinhas e outros produtos naturais alegadamente curativos, precipitou a sua morte, que poderia não ter acontecido, ou só mais tarde e em melhores condições. Não foi um caso único: um casal vegan, privando um filho recém-nascido dos alimentos necessários para o seu desenvolvimento, causou a sua morte.

A medicina não tem ainda resposta eficaz para todas as doenças, mas a solução nunca está nas falsas “alternativas” – pense-se, por exemplo, na chamada “medicina tradicional chinesa” –, mas no desenvolvimento da única verdadeira medicina, que é, obviamente, a científica, porque fundada na razão. As pseudociências manipulam os conceitos científicos de forma aparentemente racional mas, na realidade, falaciosa.

Nem todos os que morrem se salvam ou estão agora, como alguns dizem, melhor. Graças a Deus e à razão, sabemos que a vida continua, e também que, os que já partiram, se encontram no Céu, no purgatório ou no inferno.

Ninguém sabe quantos vão para o Céu. Sabe-se, com absoluta certeza, que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4). Mas não basta que Deus o queira, é preciso que o homem consinta e coopere na sua salvação.

Estão necessariamente no paraíso os fiéis que foram canonizados pela Igreja, bem como os recém-nascidos baptizados e falecidos antes de terem chegado ao uso da razão. Sobre o destino eterno dos outros defuntos, só Deus sabe: pode ser que se tenham salvo muitos dos que humanamente não era suposto, como algumas mulheres públicas, que Jesus disse que precederiam os fariseus no Reino dos Céus (cf. Mt 21, 31). Mas também se podem ter condenado não poucos dos que, por parecerem virtuosos, esperava-se que se salvassem. “Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está no Céu. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos, em teu nome que expulsámos os demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?’ E, então, dir-lhes-ei: ‘Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’” (Mt 7, 21-23).

Jesus Cristo advertiu: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24). E Winston Churchill, o grande vencedor da Segunda Guerra mundial, não disse: ‘Vai tudo correr bem’, mas, pelo contrário, aos seus compatriotas prometeu “sangue, suor e lágrimas”.

Um político, médico ou sacerdote, talvez diga, com boa intenção, que “vai tudo correr bem”: é excelente que tenham esta boa intenção e, sobretudo, trabalhem nesse sentido. Mas não se pode confundir um desejo, por sinal sem qualquer fundamentação racional, com a realidade. Como dizia o outro, prognósticos só no fim do jogo.

Ninguém confia nas autoridades políticas, sanitárias ou religiosas que dizem que “vai tudo correr bem”, porque, se não forem charlatães, são pelo menos ingénuos. Precisamos de cientistas, governantes e pastores que sejam responsáveis, ou seja, que tenham a coragem de dizer a verdade, porque só a verdade nos faz livres (Jo 8,32).