Todos nos recordamos do triste dia no qual alguém se lembrou de convidar os jovens portugueses a emigrar porque o país não estava a criar oportunidades para as novas gerações, ao invés de serem procuradas, e apresentadas, soluções para este problema a curto, médio e longo prazo.

Década após década, perdemos a oportunidade única de cumprir Portugal tal e qual nos dizia Fernando Pessoa.

Portugal é um país relativamente pequeno, no qual uma grande parte da população e dos seus recursos estão concentrados apenas nalgumas cidades no litoral e parece não existir vontade por parte dos nossos governantes para inverter esta situação.

Vejamos o Alentejo que aguarda, há anos, pelo seu hospital central, na cidade de Évora. No entretanto, quantos hospitais surgiram nas grandes cidades?

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Vamos desejar que um filho estude, trabalhe ou forme família numa cidade sem acesso a um hospital a curta distância?

E quem diz um hospital poderá falar em escolas e noutros recursos, indispensáveis para retirar populações às grandes cidades, estimulando a economia no país de norte a sul, este e oeste.

Quando olhamos para os jovens, que são o retrato do presente e do futuro do país, desejamos que tenham emprego e acesso à habitação para, no segundo seguinte, o negarmos porque não investimos de forma equitativa em todo o território e permitimos que o turismo consuma as grandes cidades, de forma desmedida e insustentável, retirando oportunidades e condições de vida a tudo e a todos.

Investimos no turismo, alimentando as famílias que dele vivem, que, diga-se de passagem, são uma minoria no espectro populacional português.

Que país estamos nós a criar e para quem?

Que Portugal é este, no qual os mais jovens têm de acampar ou dormir em veículos para que não percam a sua matrícula numa universidade?

É um infortúnio não nascer ou não ter família em cidades como Porto e Lisboa?

Colocar um tecto máximo de cerca de mil euros para o aluguer de um T2 numa cidade como Lisboa é uma solução no Portugal real?

Quantos casais jovens têm 1000 euros para colocar de parte por mês apenas para a renda da casa?

A intenção, é certo que é boa, mas não chega, tal como não chegam para tantas pessoas os planos de renda convencionada desta vida que, entre cada concurso com 2000 candidatos, seleccionam apenas entre 14 e 22 habitações.

A solução para tudo isto está na saída das nossas casas citadinas, ali bem ao lado nas placas da autoestrada, que dão acesso aos caminhos do Portugal profundo.

A solução passa por uma vida ideal, repleta de qualidade de vida, no nosso interior, no Portugal profundo, no Portugal por descobrir e por explorar, no qual se respira ar puro e não existe trânsito.

Um Portugal onde podes adquirir um terreno e depositar a casa modular dos teus sonhos por um montante que não terás, seguramente, que ficar a pagar a vida toda como terias de fazer por um apartamento na cidade ou pela habitação de aluguer que nunca vai ser tua e vai consumir, mês após mês, grande parte do teu salário, colocando os teus sonhos e as tuas viagens pelo mundo em segundo plano.

Neste Portugal que sugiro, até poderás ter que trabalhar na cidade o que não é problemático visto que até temos das melhores estradas da Europa. Entretanto quando saíres de casa de manhã, para trás ficará a tua esposa ou o teu marido e o teu filho que sabes que vai respirar ar puro, vai poder brincar na rua, e cuja probabilidade de contrair uma doença respiratória crónica é bem inferior à probabilidade de a contrair vivendo numa grande cidade.

A tua eletricidade vai chegar à tua casa através de painéis solares.

Não será esta solução melhor do que a emigração?

Melhor do que abandonar as raízes, a família, os amigos, a terra, a comida e a participação no fluxo económico do teu país?

Vais ser um urbano no campo, alguém que vai reaprender a viver, ao invés de sobreviver, que é, aliás, o fado triste dos millennials e das gerações mais novas ainda.

Hoje, são milhares as pessoas que apenas necessitam de um computador e de Internet para trabalhar e está claro que, no futuro, vão ser, seguramente, muitas mais.

Para estas pessoas é indiferente estar a viver num apartamento minúsculo na cidade ou numa casa no Alentejo.

Vais-me dizer, já de seguida, que sou lunática, uma vez que não existe rede móvel no monte?

Tens razão, mas isto da Internet, das redes móveis e de tudo o resto é uma questão económica para as operadoras.

Estou certa que, se existirem clientes e população, a fibra acaba por se disseminar à velocidade da luz por toda a parte.

Vais-me perguntar pela cultura, pelo teu cinema e pela movida nocturna, elementos sem os quais, como bom Millennial, não sabes viver?

Vamos pensar em que regiões se realizam os melhores festivais portugueses?

Pois é, a cultura é construída pelas pessoas nesses descampados espalhados pelo Portugal profundo.

No campo o conceito, tão em voga, de slow living é uma realidade quase obrigatória bem como nos é oferecida, de forma sedutora, o botão off das tecnologias que nos preenchem de miopia física e emocional, abraçando assim o chamamento da natureza e daqueles que amamos.

Eu sei que a ideia de abandonar o que conhecemos para o que não conhecemos é difícil, ainda por cima, imaginar fazer isso para onde ainda não existe quase nada.

Mas também não tenho dúvidas que essa ideia se torna bem mais atractiva quando é no nosso idioma e não noutro.

Saibamos preencher Portugal de norte a sul, este e oeste, porque a realidade é que as nossas grandes cidades já quase não são portuguesas, olhando para aqueles que as podem economicamente habitar e para os idiomas que falam.

Se a vida hoje não nos permite fazer omeletes na cidade porque não as fazer com ovos caseiros no campo?