1 Durante 40 anos, os partidos à esquerda do PS estiveram excluídos do arco da governação. Em parte, por responsabilidades deles, mas noutra parte por preconceito. Em 2015, o muro que impedia o diálogo à esquerda do PS foi derrubado. Ainda bem para a esquerda, mas também para a democracia. O LIVRE – então integrado numa plataforma mais vasta denominada L/TDA – não foi bem sucedido no resultado eleitoral, mas a sua proposta de descongestionamento das relações entre os partidos da esquerda teve sucesso.

2 Seguiu-se a maioria parlamentar da chamada “gerigonça”. Foi um tempo de recuperação da paz social, de reposição de rendimentos e da inversão de uma política de excessiva austeridade que a vinda da troika nos tinha imposto. A existência de um acordo escrito – de resto, exigido por Cavaco Silva – constituiu um guião positivo para a estabilidade política. Porém, desde muito cedo se sentiu que continuava a faltar um projeto de futuro que unisse PS/PCP/BE. O que os juntava era o combate aos erros que apontavam ao passado, mas já não a definição de um rumo. O fracasso do investimento público foi a nota mais eloquente desse desacerto, ainda por cima disfarçado por uma intolerável estratégia de cativações, que objectivamente enganou os portugueses.

3 Vieram as eleições de 2019. O PS ganhou e a esquerda foi maioritária, mas logo se viu que PS, BCP e BE não estavam empenhados em construir o futuro em conjunto. Já quase só restavam os fantasmas da troika. Nessa altura quem esteve melhor foi o BE, a propor a celebração de um acordo escrito que permitisse a continuação da aliança, o que PS e PCP rejeitaram. Mas, no ano seguinte, foi o BE a dar uma machadada na possibilidade de um projecto comum, quando quis inviabilizar o orçamento para 2021. A morte da “gerigonça”, tal como nascera em 2015, veio com o chumbo do orçamento para 2022, protagonizado pelo voto da rejeição do PCP e do BE, ainda para mais ditado por razões que não eram de matéria orçamental. Nesse dia, à esquerda, a honra do convento foi defendida pelo PAN e pelas deputadas não inscritas.

4 E agora? Não deverá haver maioria absoluta de qualquer força política (e, se assim for, ainda bem porque nenhuma a merece). Seremos governados por uma maioria à esquerda ou por uma maioria à direita ou por um bloco central? Todas essas soluções serão democráticas (o povo é que manda). Naturalmente no pressuposto, que acredito que se verificará, de se conseguir manter um cordão sanitário que nos defenda da xenofobia anti-patriótica do Chega.

5 Se a direita democrática tiver maioria ou se for formado um bloco central, será a democracia a funcionar. Mas uma alternativa de um Governo à esquerda continua a ser possível e, para muitos (em que eu me incluo), aquela que melhor garante a justiça social e um desenvolvimento económico sustentável. Porém, isso depende de um esforço de convergência que nem sempre os partidos da esquerda souberam honrar. É neste contexto que o voto no LIVRE é particularmente importante. É o voto útil para quem acredita no projecto social democrata, ecológico e progressista que o partido defende. Mas pode também ser o voto tático e estratégico para quem queira assegurar a presença no parlamento de uma força moderada, apologista do diálogo e da busca de consensos, construídos na base do trabalho, do rigor e da boa fé.

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