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Jane Fonda: “Eu não sou a minha anca falsa”

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A atriz e guru do fitness esteve em Lisboa para falar sobre envelhecimento e conversou com o Observador sobre feminismo e como estar em forma depois dos 70: uma questão de postura, mesmo de bengala.

A filha de Henry Fonda e da socialite Frances Ford Seymour nasceu em 1937.

Pascal Le Segretain/Getty Images

As luzes apagam-se e o silêncio da expectativa é interrompido por uma salva de palmas. Jane Fonda entra numa sala do hotel Pestana Palace para partilhar a sua experiência sobre envelhecimento numa conferência que teve lugar esta quinta-feira em Lisboa. É difícil vê-la do fundo mas, por entre as muitas cabeças da plateia, apercebemo-nos de uma figura elegante, vestida de branco e com uma cabeleira farta.

Só depois de a atriz se sentar é que damos conta da bengala, acessório que dificilmente associamos à ex-guru do fitness, mesmo que ela tenha 78 anos. “Há cinco dias estava a caminhar nas montanhas e vi um homem mesmo giro, sem t-shirt. Passou por mim e eu tropecei”, começa por dizer, divertida, numa tentativa de explicar o aparato. “Aprendi três lições: a primeira é que continuo a caminhar, a segunda é que ainda olho para homens bonitos e a terceira é que, quando caio, corro mais riscos de me magoar a sério.” A introdução na conferência A Idade é Uma Escolha, promovida pela L’Oréal Paris, está feita. É este apenas o ponto de partida.

Jayne Seymour Fonda, filha de Henry Fonda e da socialite Frances Ford Seymour — que viria a cometer suicídio ainda Jane era uma adolescente –, nasceu noutro século, em 1937, ainda a Segunda Guerra Mundial não tinha começado e o filme E Tudo o Vento Levou estava longe de estrear nas salas de cinema. Setenta e oito anos depois, mantém uma aparência jovem, com os traços de sempre a marcarem-lhe o rosto pelo qual o tempo parece não ter passado com muito rigor. No currículo leva dois Óscares de Melhor Atriz pela participação nos filmes Klute (1971) e Regresso dos Heróis (1978), o cargo de ativista política e ambiental e a experiência de ex-modelo e ex-guru do fitness. Muitas pessoas numa só porque houve tempo para tudo, inclusive para três casamentos. Só não houve tempo para a entrevista — dos cinco minutos a sós que nos foram prometidos restaram-nos apenas três para serem partilhados com outras jornalistas. Mas quis Jane Fonda, e só Jane Fonda, que a conversa durasse mais e, no final, o gravador registou 11 minutos.

HOLLYWOOD, CA - JUNE 05: Honoree Jane Fonda attends the 2014 AFI Life Achievement Award: A Tribute to Jane Fonda at the Dolby Theatre on June 5, 2014 in Hollywood, California. Tribute show airing Saturday, June 14, 2014 at 9pm ET/PT on TNT. (Photo by Frederick M. Brown/Getty Images for AFI)

Frederick M. Brown/Getty Images for AFI

“Tinha medo de envelhecer”

O tom de voz é enérgico e a afirmação também: “As limitações físicas não nos podem definir”, começa por dizer Jane Fonda na conferência que a trouxe pela primeira vez a Portugal, mesmo de bengala. “Eu não sou a minha dor, eu não sou a minha anca falsa. Não posso correr, mas ainda posso andar.” A intenção não é ignorar a idade que aparece irredutível no bilhete de identidade nem romantizar o passar do tempo, antes explicar que mesmo depois de operações plásticas e de contributos médicos é possível envelhecer com bem-estar e alguma dose de estilo à mistura. Defender, em poucas palavras, o chamado envelhecimento ativo.

Já fiz cirurgias plásticas, mas a verdadeira razão porque pareço mais jovem é a minha postura. Eu tinha medo de envelhecer [quando era mais nova] e nunca imaginei que fosse viver tanto tempo. Mas quando estamos na velhice o medo desaparece e descobrimos que ainda somos nós próprios”, garante, afirmando que é possível desacelerar o envelhecimento na escolha de uma vida saudável.

O rosto do terceiro ato da vida

São 78 anos de vida, mas poucos são os sinais que nos fazem acreditar na idade cronológica. Não é apenas uma questão de aparência, ainda que a figura esguia e a cabeleira farta ajudem, mas também o facto de Jane Fonda continuar a trabalhar como se estivesse na flor da idade. Atualmente a participar na série Grace and Frankie, a atriz confessa que tem agendado um filme com Robert Redford cujas filmagens começam no outono de 2016. A isso acrescentam-se outros projetos, sobre os quais não há tempo para conversar. “É pouco usual que uma pessoa da minha idade trabalhe tanto quanto eu. Sempre disse que queria ajudar a dar um rosto às mulheres mais velhas e isso é muito importante para mim. A minha carreira é agora mais importante do que quando era nova.

Durante muito tempo o facto de sermos mais velhas significava que não merecíamos [de tudo um pouco]. Esta é a primeira geração a fazer a diferença, a reinventar o envelhecimento. Estamos a tornar-nos exemplos a seguir pelas pessoas mais jovens, para que se saibam preparar para as últimas etapas da vida”, diz ao Observador.

Na pele de uma feminista

Fonda nem sempre compreendeu o movimento que defende vigorosamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Foi só quando se tornou uma ativista em prol do fim da guerra no Vietname que a atriz teve contacto com feministas no verdadeiro sentido da palavra. “Havia alguma coisa de diferente nelas… Era como se me vissem pelo que eu era. E se os homens não respeitassem as mulheres, elas defendiam-nas. E, depois, explicaram-me que ser feminista não implica ser contra os homens. Não queremos tirar uma fatia à vossa tarte, queremos uma tarte maior!”, diz, como se diante dela estivesse um par de homens e não quatro jornalistas de olhos postos numa mulher ainda altiva, bem articulada e de uma postura de fazer curvar qualquer um.

A elevação do papel da mulher não se resume à vida em sociedade. É a própria Jane Fonda que mergulha temporariamente na sua vida privada para explicar que também ela, enquanto mulher, se viu em tempos limitada nas relações amorosas — a atriz esteve casada três vezes, primeiro com o realizador francês Roger Vadim, entre 1965 e 1973, depois com o ativista político Tom Hayden (1973-1990) e ainda com o magnata dos média Ted Turner, de quem se separou em 2001.

CANNES, FRANCE - MAY 16: Jane Fonda attends the Premiere of "The Sea Of Trees" during the 68th annual Cannes Film Festival on May 16, 2015 in Cannes, France. (Photo by Andreas Rentz/Getty Images)

Andreas Rentz/Getty Images

“Tive casamentos que não eram… Eu ganhava o meu dinheiro e não era dependente de homens, mas a minha voz estava silenciada porque pensava que se eu falasse [e desse a entender] quem realmente era, eles deixar-me-iam”, conta-nos num discurso mais pausado, não sem antes admitir que chegou a pensar que sem um homem não era ninguém. “Aos 62 anos fiquei solteira porque decidi que não queria morrer sem perceber quem era enquanto mulher. Foi aí que me tornei feminista.”

A beleza do bisturi

“Já admitiu várias vezes que fez cirurgias plásticas e também disse que gostava de ter tido a coragem de não as ter feito. Tem medo de parecer a idade que tem?” A pergunta, à semelhança das outras previamente estudadas, tinha como alvo os belos 78 anos de Jane Fonda que já antes admitiu ter-se submetido a operações plásticas: retocou bochechas, pálpebras e papos debaixo dos olhos.

O tema não é de todo estranho à atriz mas, desta vez, a tão aguardada resposta foi negada ao Observador. Não que isso nos impeça de recordar as declarações que Fonda fez em tempos sobre o assunto: ao The Telegraph, contou em maio do ano passado que não é essencial uma atriz submeter-se a operações plásticas caso deseje manter-se no círculo de Hollywood.

Depende do quão corajosos somos. Tenho amigas — uma dela é a muito estimada Vanessa Redgrave — que nos permitiram vê-las envelhecer. Tiro-lhes o chapéu. Sou corajosa em muitos sentidos, mas não nesse. Precisava de trabalhar, então fiz algumas cirurgias plásticas. Não é que tenha sido demasiado, não é que não se consiga ver as minhas rugas”, desabafou. “Mas acho que [a cirurgia plástica] provavelmente trouxe-me uma década de trabalho.”

Não foram raras as vezes em que a atriz admitiu ter tido problemas com a sua própria imagem à medida que ia crescendo, mesmo que isso contrariasse (e contrarie) a ideia que o mundo tem dela. O filme Barbarella é, possivelmente, um dos mais conhecidos da sua carreira. E não é difícil perceber porquê: apresentado nas salas de cinema em 1968, mostrava uma jovem e sexy Jane Fonda a protagonizar uma longa-metragem de ficção científica com um cunho satírico — se à data não foi um sucesso nas bilheteiras, ou até mesmo entre os críticos, atualmente é visto com outros (e bons) olhos. Barbarella foi meio caminho andado para que Fonda fosse considerada um sex symbol, ainda que a expressão não lhe assentasse que nem uma luva.

De facto, esta é a mulher que cresceu a não gostar do reflexo que via ao espelho. É sabido que Fonda culpa sobretudo o pai, o aclamado e já falecido ator Henry Fonda, pela sua falta de autoestima. “Eu cresci com o meu pai a dizer-me que era gorda”, recordou ao Telegraph. “E eu nunca fui gorda. Mas ele tinha os seus problemas. Só mais tarde consegui olhar para trás e dizer: não tinha nada que ver comigo. Ele casou-se cinco vezes e todas as mulheres tinham problemas com o próprio corpo.”

Fonda cresceu a acreditar que devia ter uma determinada aparência, caso contrário ninguém iria amá-la. Talvez seja por isso que hoje, quando lhe perguntamos qual a importância de ser-se atrativa, a atriz diz de forma determinada que existem vários tipos de beleza:

O que é sobrevalorizado é a noção de que temos de ser umas beldades clássicas, que temos de nos apresentar de uma certa forma. E se não formos assim, vamos sentir-nos culpadas”, explica, agora com a voz mais carregada e insistindo na tónica da confiança pessoal. “O objetivo é sermos o melhor de nós próprias e isso, às vezes, não acontece de forma natural para algumas pessoas, pelo que é preciso trabalhá-lo.”

Atualmente, Fonda garante que um dos benefícios de envelhecer é o facto de os homens não olharem tanto para ela, embora diga que mesmo quando era jovem nunca foi o tipo de mulher de fazer virar cabeças (o que arranca um “come on!” em uníssono das quatro jornalistas presentes).

A carreira, essa, ninguém lhe tira. E o mesmo se pode dizer em relação à fama que, com tempo, colou-se ao nome e à figura de Jane Fonda. Um estatuto que, na sua opinião, é por estes dias vulgarmente atribuído. A crítica é (in)direta às “Kim Kardashians” desta vida:

Não gosto da importância que atualmente se dá às celebridades. É ridículo. As pessoas não deveriam ficar famosas por causa de uma sex tape mas sim porque o mereceram. Porque estão a fazer algo que vale a pena.”

Artigo atualizado às 20h49 para corrigir a informação sobre os Óscares ganhos pela atriz.

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