Caso José Sócrates

A prima, o colega de faculdade, o irmão da funcionária. Como os arguidos da Operação Marquês se conheceram

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Há histórias previsíveis, mas outras que são meros fruto do acaso, como a prima que mete uma cunha para o ex-colega ou a funcionária que ouve falar de um emprego de motorista para o irmão.

José Sócrates (ao centro) e Carlos Santos Silva (à direita)

Tal como Sérgio Godinho canta sobre “a vida”, a teia de conhecimentos entre os arguidos na Operação Marquês também é “feita de pequenos nadas”. Na base dos círculos que formam este caso, onde alegadamente se forjaram várias operações de branqueamento de capitais e de fuga ao fisco que terão lesado o Estado em 58 milhões de euros, há relações que nascem das mais variadas formas. Há filhos que continuaram as amizades que os seus pais já mantinham de longa data, há relações que começaram com a recomendação de um ex-colega para um lugar na empresa do primo e há o motorista que soube de uma oportunidade de emprego através da irmã. Algumas histórias começam no início da segunda metade do século XX e há outras consideravelmente mais recentes.

Nas próximas linhas, descubra como, segundo o relato feito na acusação, a que o Observador teve acesso, os principais arguidos da Operação Marquês se conheceram uns aos outros.

José Sócrates: do amigo de infância até ao motorista, passando pelo sócio da gasolineira

Para começar a contar a história desde o início, há que começar pela relação de José Sócrates com Carlos Santos Silva, o alegado testa-de-ferro do ex-primeiro-ministro. Em várias ocasiões, José Sócrates diz que é “amigo de infância” de Carlos Santos Silva. Porém, segundo a acusação, a proximidade entre os dois só veio mais tarde, entre 1983 e 1986, quando Carlos Santos Silva trabalhava como empreiteiro na zona da Covilhã e quando José Sócrates trabalhava para a autarquia daquela cidade. Nessa altura, Carlos Santos Silva “aprofundou o conhecimento com o arguido José Sócrates” e desenvolveu com ele “uma relação de grande amizade, confiança e proximidade, que se manteve ao longo dos anos”. A esta amizade juntaram-se duas mulheres: Sofia Fava, com quem José Sócrates esteve casado até 2001; Inês do Rosário, casada com Carlos Santos Silva desde 1997.

Foi também por intermédio de relações amorosas que José Sócrates terá conhecido Henrique Granadeiro, presidente do Conselho de Administração da Portugal Telecom entre 2008 e 2013. A amizade terá começado por intermédio da primeira mulher de Henrique Granadeiro, a jornalista Margarida Marante, que morreu em 2002, e da sua amiga Fernanda Câncio, ex-namorada de José Sócrates e atualmente jornalista do Diário de Notícias.

Depois, há Hélder Bataglia, administrador e acionista do grupo Escom. O caminho do empresário com raízes em Angola até José Sócrates fez-se através do primo do ex-primeiro-ministro, José Paulo Pinto de Sousa. Este conheceu Hélder Bataglia em Angola, onde ambos cresceram. São amigos de infância por intermédio dos pais de cada um, que já eram “amigos de longa data”. Os laços de amizade acabaram por transformar-se em laços familiares: Hélder Bataglia iniciou uma relação com a irmã de José Pinto de Sousa, e prima de José Sócrates, com a qual teve uma filha, em 1999.

Quando nasceu a sua sobrinha, José Sócrates e Hélder Bataglia já se conheciam há muito tempo — segundo a acusação, pelo menos desde os anos 1980. Mas só em 2000, pelo meio deste círculo de familiares e amigos próximos, Carlos Santos Silva e Hélder Bataglia foram apresentados. José Sócrates viria também a juntar José Paulo Pinto de Sousa com Carlos Santos Silva, tendo os dois acabado por participar na sociedade Duraria SA, uma empresa de engenharia.

Fora do circuito familiar, e já dentro do circuito político, José Sócrates conheceu Armando Vara. Vara já levava quatro anos como deputado pelo PS quando, em 1987, José Sócrates entrou para aquela bancada parlamentar. Em 1990, foram os dois sócios numa empresa de venda de combustíveis na Reboleira, no concelho da Amadora. O escritório que servia de sede à sociedade foi-lhes cedido pelo empresário José Guilherme. A partir dessa altura, segundo a acusação, estabeleceram uma “relação de confiança e de grande proximidade que subsistiu ao longo dos anos e se mantém até à data atual”.

Mais tarde, no primeiro mandato de António Guterres como primeiro-ministro, foram os dois secretários de Estado. No segundo mandato, cada um tornou-se ministro: José Sócrates com a pasta do Ambiente, Armando Vara com a da Juventude e do Desporto. Depois, já com José Sócrates como primeiro-ministro, em 2005, Armando Vara foi nomeado presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos — mas não sem antes, sob protesto, o ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, ter apresentado a demissão. No mesmo ano, José Sócrates conheceu a filha do seu amigo, Bárbara Vara, também arguida.

Foi durante os anos de Armando Vara na Caixa Geral de Depósitos que, segundo a acusação, travou conhecimento com José Diogo Gaspar Ferreira, que a ele se dirigiu para pedir financiamento para o projeto Vale do Lobo — algo que Armando Vara lhe terá concedido, mas com alegadas contrapartidas para seu benefício próprio e também de José Sócrates. Um dos investidores no empreendimento de Vale do Lobo era Hélder Bataglia — que Armando Vara já conhecia. Este foi trazido para o negócio através de Rui Horta Costa, amigo de juventude de José Diogo Gaspar Ferreira, que passou a trabalhar para Hélder Bataglia depois de o ter conhecido através do irmão.

Nos anos 1990, Armando Vara ficou a conhecer duas pessoas do círculo próximo de José Sócrates: Hélder Bataglia e Carlos Santos Silva, com os quais Vara viria a lidar de perto. Com Hélder Bataglia, manteve “contactos ao longo dos anos no âmbito da sua vida empresarial e financeira”, incluindo em Moçambique e Angola. Com Carlos Santos Silva, fez negócio em 1999, quando contratou os seus serviços como empreiteiro para a construção de uma moradia em Montemor-o-Novo.

Segundo a acusação, a articulação entre José Sócrates e muitos dos arguidos na Operação Marquês era feita por outro arguido: o motorista João Perna. Este acabou por entrar no círculo de José Sócrates por intermédio da sua irmã, funcionária do Partido Socialista, que já o tinha chamado para ajudar na colagem de cartazes e serviços de condução durante campanhas eleitorais. Em junho de 2011, pouco depois de José Sócrates ter perdido as eleições e anunciado a sua retirada da política, a irmã de João Perna soube que o ex-primeiro-ministro estava à procura de um motorista. Falou com o irmão e este acabou por ficar com o emprego, que começou em agosto desse ano.

Carlos Santos Silva: o homem dos contactos que contratou um ex-colega da prima

A par de José Sócrates, Carlos Santos Silva é um dos principais eixos na rede de contactos desvendada pela acusação da Operação Marquês. Na mesma década em que “aprofundou o conhecimento” com José Sócrates, Carlos Santos Silva conheceu outra peça essencial para o puzzle da Operação Marquês: Joaquim Barroca, administrador do Grupo Lena. Conheceram-se em 1985, quando Carlos Santos Silva foi trabalhar para Castelo Branco, na construção da variante do IP6.

A partir dessa altura, passaram a “manter uma relação de proximidade e amizade”. Tanto que, em 2001, a convite de Joaquim Barroca, Carlos Santos Silva foi convidado para trabalhar para o grupo Lena. Depois, Joaquim Barroca fica a conhecer José Sócrates. Segundo a acusação, o contacto entre os dois existe “pelo menos desde 2005” — o despacho não especifica se os dois se conheceram antes ou depois de março, quando José Sócrates tomou posse.

Segundo a acusação, Carlos Santos Silva também apresentou Joaquim Barroca a Hélder Bataglia — que, recorde-se, conheceu o empreiteiro por intermédio de José Sócrates. O administrador do grupo Lena e o administrador do grupo Escom conhecem-se “pelo menos desde 2006”, altura em que passaram a ter “diversos contactos”.

Foi de uma forma curiosa, e aparentemente fortuita, que o economista Rui Mão de Ferro entrou no círculo de Carlos Santos Silva. Até ao primeiro trimestre de 2009, Rui Mão de Ferro trabalhou para uma empresa transformadora de plástico em Beja. Ali, era colega de Isabel Viegas, prima de Carlos Santos Silva. Quando Rui Mão de Ferro deixou de trabalhar naquela empresa alentejana, a colega arranjou-lhe uma reunião com o seu primo, que acabou por resultar na sua contratação. Assim, a partir do primeiro trimestre de 2009, Rui Mão de Ferro passou a ser um assalariado de Carlos Santos Silva. E foi naquele grupo empresarial que Rui Mão de Ferro ficou a conhecer o advogado Gonçalo Trindade Ferreira, que trabalhava como conselheiro jurídico de Carlos Santos Silva.

Gonçalo Trindade Ferreira conheceu Carlos Santos Silva por intermédio do seu primo, Armando Trindade era antigo colega de faculdade, amigo e assalariado de Santos Silva. Em 2008, Gonçalo Trindade Ferreira conheceu Carlos Santos Silva e “passou a colaborar profissionalmente no seu grupo empresarial, prestando-lhe serviços jurídicos e outros”.

Ricardo Salgado: o homem que todos conhecem

Ricardo Salgado não é, nem nunca foi, propriamente um desconhecido em Portugal. Conhecido como “Dono Disto Tudo” até à queda do Grupo Espírito Santo em 2014, era um nome conhecido de todos os portugueses. Por tudo isto, no que toca a Ricardo Salgado, o processo de acusação é parco em explicar como cada arguido conheceu o homem forte do GES.

Há exceções. É o caso de Henrique Granadeiro, amigo de Ricardo Salgado “desde a juventude” e com o qual chegou a passar férias no Brasil. Segundo a acusação, a amizade mantida entre os dois “estreitou[-se]” com a assunção de funções na PT da parte de Henrique Granadeiro. “Pelo menos desde 2006, o BES detinha uma posição relevante no capital da Portugal Telecom”, contextualiza a acusação, que refere então que “ao longo dos anos até 2014”, ano em que o BES caiu, Ricardo Salgado “nomeou pessoas da sua confiança para cargos de liderança nos órgãos societários das sociedades desse grupo”.

Entre estes, além de Henrique Granadeiro, estava Zeinal Bava. Este terá conhecido Ricardo Salgado “por via das funções que desempenhava na PT”. Apesar de o banqueiro não ser seu superior hierárquico, a acusação escreve que este tinha “um ascendente pessoal” sobre o ex-administrador da Portugal Telecom.

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