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Erupção cutânea

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Quem não ganha uma erupção cutânea nas estranhas circunstâncias políticas de hoje? Este meu último surto foi provocado pela oficialização do “não é bem assim”.

1. Ando impaciente. Pensava que o ter já visto muito, que a prática aturada – e apurada – que tenho da natureza humana ou que a idade me podiam ter precavido contra estes excessos de impaciência, mas não. Cai-me mal que façam de mim parva a este ponto, ou a qualquer outro ponto. E nem a quadra Pascal e o que ela me recomenda amenizaram esta espécie de irritação, como uma erupção cutânea. Podem estranhar a palavra, não acho outra melhor: quem não fica assim nas circunstâncias que são hoje as nossas estranhas circunstâncias políticas?

Este último surto – não é a primeira vez que sou atacada – foi provocado pela oficialização do “não é bem assim”. Passou a ser totalmente natural uma coisa ser propagandeada como sendo ”assim”e a realidade mostrar-nos que afinal “não é bem assim”. Uma novidade. Como se tivéssemos entrado numa nova era, um novo regime de vida, uma decididamente nova modalidade de fazer política.

Senão, repare-se nisto:

a) o Presidente da nossa cansada República vai em pessoa inaugurar o novo nome de um aeroporto a uma ilha. Acto já de si singular e a provocar estranheza, mas eis que a bizarria se torna aguda: o primeiro-ministro também vai. Vão os dois? Voam de Lisboa ao Funchal, com o mesmo (leve) propósito? Sim, voam. Não havendo explicação racional nem plausibilidade política, resta uma intuição que embora original deve ser verdadeira: ambos são um passatempo (barato) um para o outro. Nenhum deles aliás esconde a felicidade causada pela cumplicidade que os atacou, como a mim a erupção cutânea. O nome do aeroporto glorificando um futebolista (genial é certo…) casa aliás às mil maravilhas com o ar deste tempo de facebooks e instagrams, mas, that’s the point, afinal o nome “não é bem assim”, porque pode não “ser bem este”.

Pode ser, não se sabe, talvez seja. Já lá está uma placa e um irrisório e letal busto assinado por um “autodidacta”, mas o nome do aeroporto ainda não está oficializado. Ou seja: não foi bem assim como”eles” disseram, mas que importância tem? A media amplificou a tournée regional do extraordinário trio das duas altas individualidades nacionais e do futebolista, o país parou, o país gostou (mesmo que não tenha sido “bem assim”).

b) O caso da ida – que não foi ida – do ministro das Finanças para o Eurogrupo também “não foi bem assim”. Até ao dia em em que escrevo (segunda-feira) nenhum alto responsável europeu “certificou” a ideia, não consta que tenha havido “conversações”, não se conhecem iniciativas que comprovem o desejo de ver Centeno liderar aquela função. Admito evidentemente que num elevador ou diante de uma bica no intervalo de uma sessão, alguém tenho dito ao ministro que “ele é que, etc.”, mas que garantia de credibilidade haveria nisso? Além de que seria no mínimo estranho – mas posso estar enganada – que o resto do Eurogrupo anuísse em ter como novo líder alguém vindo do país que com mais empenho, maior veemência e notável ruído pediu a demissão de Dijsselbloem, frente ao quase silêncio do resto do “sul”. É certo que Dijsselbloem pode partir antes do final do mandato se deixar as Finanças – caso provável após a derrota socialista nas eleições holandesas –, já que tradicionalmente o Eurogrupo é liderado por um ministro das Finanças. Será porém esse fracasso partidário e não o primarismo infeliz das suas recentes investidas contra o sul que lhe darão – ou não – uma guia de marcha. (Sul por Sul, o que me dizem nas portas onde bati para o meu trabalho de casa é que a escolha pode recair no espanhol Guindos.) O que interessa nesta história é o que interessa ao poder: ganho para a geringonça. Ficionou-se abusiva e abusadoramente a projecção internacional de Mário Centeno, o governo fez oportunisticamente de conta que em Bruxelas somos gente, o país engoliu a história sem se interrogar porque deixou de se interrogar ou se importar. Que interessa aos portugueses que nada disto tenha sido “assim”, desde que o ministro lhes “devolva” ou “distribua” ou “dê” mais dinheiro (que não é nosso), prometendo-lhes além disso que não os maça?

c) A história de que a venda do Novo Banco não vai desaguar nos nossos pobres bolsos também “não é bem assim”. Qualquer político sério o sabe, qualquer bom economista o corrobora. A diferença, justamente pouco séria, é que o Governo também sabe mas não o diz. Diz “de momento”, ardilosa expressão. Sim, talvez os custos da aventura não aterrem já em cima do nosso fim de mês mas lá mais para diante ou lá mais para o ano, não se sabe. Ou melhor, sabe-se. Mas o que interessa é fingir que não, andar para frente, cada dia é um dia, e a geringonça vive disso mesmo, cada dia é mais um dia “seu”.

d) Paulo Macedo foi durante quatro pesados anos o (assim chamado) “coveiro” do Serviço Nacional de Saúde. Sucedeu-lhe um (suposto) salvador do mesmo Serviço Nacional de Saúde. Anunciado como preparado, experiente, competente, dedicado. Afinal parece que “não é bem assim.” Salvo a dedicação, que ignoro se existe, nem a preparação, nem a competência, nem experiência parecem condizer com o actual estado de saúde desta área governativa. As dívidas dos hospitais roçam o astronómico; há muito que não se verificavam listas de espera deste tamanho, as urgências (um cavalo de batalha do actual ministro que prometeu agilizá-las ao máximo) estão atulhadas. As ordens e instruções para trocar o investimento por salários e benesses não podia acabar bem.

Ignoro se a ordem veio de cima ou da cabeça do ministro – o que não ignoro é que foi isto que aconteceu. Como a comunicação social misteriosamente se desinteressou das reportagens incandescentes que fazia, desistindo dos alarmes que acendia e das campainhas que tocava na Saúde, parece que está tudo bem. Está como quase tudo o resto, está “não é bem assim”. (Só não está pior graças ao sentido de responsabilidade e à capacidade de serviço da muita gente séria e boa que lá trabalha.)

No tempo do (falso) coveiro do SNS e apesar de austeridades, troikas e Gaspares, abriram-se os hospitais Beatriz Ângelo (Loures) os de Amarante, Guarda, Lamego e o novo de Vila Franca de Xira, (para citar os que me lembro agora). E houve- por exemplo -. investimento de vulto em instituições de saúde tão vitais como o IPO de Lisboa e do Porto. Não me parecem maus exemplos de boa gestão.

2. Os casos a que aludi acima – propositadamente distintos entre si – mostram como o “é assim” que nos impingem tem sido recorrentemente falso, substituído com publicidade e sem vergonha pelo “não é bem assim”.

Não, não é uma questão linguística, nem de interpretação, nem sequer um problema que se resuma à conjugação do verbo mentir. É uma nova modalidade de prática política e de acção governamental. Não a conhecíamos, mas vai-se sempre a tempo.

O próprio tempo é que pode não dar tempo ao tempo.

3. De modo que é isto. E um dos mais felizes com “isto” é o Presidente (o muito amado) pois só lhe falta andar pelos telhados do país para anunciar ainda mais alto tantas boas novas. Peço desculpa, mas hei-de lembrar esta estonteante felicidade presidencial sempre que vier a propósito. Qualquer dia também ela deixará obviamente de ser “bem assim”. Mas até lá e para que daqui a um, dois, cinco, dez anos, a felicidade não fique sepultada no tão português esquecimento das coisas, não subestimarei o extraordinário entendimento que o actual presidente tem das suas funções e de como “acha” que deve exercê-las.

4. A matança dos cristãos coptas no Egipto no último domingo (chamado o de Ramos na liturgia católica) foi a porta de entrada para a Paixão de Cristo que se revive e celebra por estes dias. Dolorosa entrada a selar a Semana Maior. Mas a grande, ou melhor, a única grande questão que esse gesto brutal e demencial suscita é perguntarmo-nos que vamos nós fazer com ele. Que significado lhe dar, que peso lhe reconhecer, que fronteira perceber que ele passou, que limite lhe conceder?

Muitos semi-ignoraram o assassinato, uma coisa lá longe, praticada sobre um povo “diferente”; outros, espantosamente, parece que já se habituaram a matanças assim, uma trivialidade, como quem vai pôr gasolina ou comprar tabaco; para outros ainda, a esmagadora maioria, o tal povo longínquo, só conta e é notícia se estiver nas praças das primaveras árabes em vez de numa igreja minoritária a rezar mesmo que seja assassinado a seguir.

Mas – insisto – só há uma pergunta: que fazer com o que sucedeu a partir do momento em que não podemos disfarçar a responsabilidade de pertencer à civilização ocidental e de sermos filhos da matriz cristã onde foi forjado o chão de onde somos?

Que compromisso nos irá merecer a memória do sangue dos que, no último domingo, não puderam chegar ao fim das suas orações numa igreja do Egipto?

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