1. António Guterres. O homem do momento. O oposto dos Trump da vida. O político que humaniza e vai ter ainda mais poder e influência sobre quem escraviza. O pai de filhos. O marido que perdeu a sua mulher mas foi capaz de continuar sem ela aquilo que começara com ela. O conciliador nato. O lutador incansável. O homem de causas. O socialista católico. O homem que na última década atravessou todas as fronteiras e cruzou todos os caminhos para resgatar o sentido de vida a quem perdeu tudo porque foi obrigado a largar casa e família. O candidato vencedor que levou os 15 países do Conselho de Segurança a uma ‘rara demonstração de união’.
A inteligência, a humanidade e a solidariedade de Guterres fazem-nos acreditar mais nas pessoas, nos decisores, nos políticos. Homens como ele fazem falta no mundo. Guterres tem pela frente desafios tremendos e demasiadas crises, mas foi eleito para isso mesmo. Ou melhor, por isso mesmo. A unanimidade entre todos disse-o claramente: António Guterres era o candidato mais preparado para enfrentar todos estes desafios. A pessoa certa, como se escreveu nos jornais internacionais que fizeram manchete desta eleição consensual.
Dentro e fora do país há quem não goste de Guterres (ai daqueles de quem todos gostam!) mas a sua marca no mundo construiu-se nos 10 anos de ACNUR, em viagens, contactos e encontros à porta aberta e fechada; em visitas a campos de refugiados que mais parecem campos de concentração; nas dolorosas fronteiras com muros cada vez mais altos e mais intransponíveis, cheios de arame farpado; em conferências onde partilhou e ouviu histórias reais que nos interpelam, nos mobilizam e obrigam a uma nova atitude. A sua marca é a esperança. O seu tema é a humanização. A sua ferramenta é o diálogo. Ouvir, ouvir, ouvir. Guterres ouve infinitamente mais do que fala e isso nota-se na sua acção.
Também há e haverá sempre os ‘haters’ profissionais, os militantes do ódio, os adoradores da desgraça, mas hoje em dia Guterres está acima deles. Muito acima. Felizmente, de todas as gerações, de todos os quadrantes políticos e geográficos, emergem políticos como ele, cuja missão é salvar, resgatar (insisto) e fazer tudo o que está ao seu alcance para resolver velhas guerras e evitar novos conflitos. Neste caso não me pediram para votar, nem o meu voto contaria muito no âmbito das Nações Unidas, mas se pudesse ter votado, tê-lo-ia feito com a mesma alegria e a mesma convicção com que todos votaram em António Guterres.
2. Robert Sarah, outro homem resgatador. Outro marco contemporâneo. Outro nome do momento. Terceira figura do Vaticano, foi o bispo mais novo da Igreja Católica. O menino do mato que nasceu em Ourus, no coração da Guiné dos planaltos, filho dos campos, e se tornou cardeal, é, há muito tempo, um dos mais desassombrados cardeais da Igreja Católica. Perseguido pelo governo ditatorial e sanguinário de Sékou Touré, tornou-se bispo aos 34 anos de idade, quando João Paulo II o nomeou para presidir ao arcebispado de Conacri. Correu risco de vida e esteve a pontos de ser assassinado, mas acabou por ser providencialmente salvo em virtude da morte do seu próprio carrasco.
Robert Sarah vem a Portugal neste mês de Outubro, para uma conferência aberta na Universidade Católica, já no dia 19, mas também para uma visita a Fátima. A sua história de perseguição e luta, de pobreza e provação sem desistências, é um testemunho poderoso e transformador contido numa fabulosa entrevista autobiográfica recém-publicada em Portugal com o título “Deus ou Nada”. Sarah sabe o que é a discriminação e também ele se revelou nesse contexto de hostilidade radical. Se agora escrevo e junto na mesma crónica estes dois homens é por sentir que cada um revela uma enorme coragem e compreende a pobreza em toda a sua dimensão.
Num tempo em que os economistas falam em crises e ajustamentos, parece-me mais iluminante falar de purificação. Ou oportunidade de despojamento. Se numa latitude vencem os políticos visionários que se entregam às grandes causas da humanidade, noutra dimensão vencem os testemunhos dos que espalham o bem e arrastam consigo multidões. As multidões que enchem as igrejas em África, enquanto na Europa elas se esvaziam.
Guterres e Sarah nunca devem ter sido conjugados desta forma e penso que nem sequer se conhecem, mas cada um deles atravessa o momento e marca a contemporaneidade pelo exemplo que dá e pelo poder que tem. Aliás, pela maneira como exercem esse mesmo poder. Sarah, como Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, a lendária 3ª figura do Vaticano. Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas, talvez a 3ª figura política mais importante do mundo. Não sei. Só sei que um e outro transformam o mundo por serem homens capazes de fazer bem o Bem.