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A avalanche que matou 16 sherpas em abril deste ano levou centenas de turistas a abandonar a ideia de tentar subir a montanha mais alta do mundo, o Monte Evereste. Mas esta sexta-feira, uma cidadã chinesa de 40 anos atingiu o pico, a 8.848 metros de altitude. Foi a primeira pessoa a empreender esta jornada depois do acidente mais grave da história daquela rota, reportou a Reuters.

Seguiu, acompanhada por cinco guias sherpa, a rota sudeste criada por Sir Edmund Hillary e Tenzing Norgay Sherpa, em 1953, acabando com a tentativa dos guias sherpa para boicotar esta temporada de escalada em honra dos amigos e familiares mortos.

Apesar de já terem morrido mais de 250 pessoas nas encostas da montanha, há mais quatro mil alpinistas que já atingiram o seu cume. Para o país a presença de alpinistas é muito importante, o turismo representa cerca de 4% do produto interno bruto, segundo a Reuters. Cada alpinista paga dez mil dólares (mais de sete mil euros) no pedido de autorização da escalada.

Para conseguir começar a escalada, a alpinista chinesa teve de apanhar um helicóptero até ao acampamento 2, porque o troço mais perigoso do percurso, entre o acampamento base e o acampamento 1, ainda estava bloqueado pelo resultado da queda de neve e blocos de gelo durante a catástrofe.

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A derrocada

“Não foi verdadeiramente uma avalanche”, disse ao Observador o alpinista profissional João Garcia. A avalanche é feita de neve recente e o que aconteceu foi uma derrocada. “ Grandes blocos de gelo, os seracs, caem e partem-se ficando retidos nas fissuras do glaciar, as cravasses, e noutros blocos”, explica. Pode acontecer que a queda de um ou mais blocos provoque a queda em cadeia dos restantes.

No dia 18 de abril os guias sherpas, do povo das montanhas nepalesas, preparavam o percurso para os turistas – precisava de ser marcado com cordas, facilitado com escadas e guarnecido com mantimentos nos vários acampamentos.

O perigo não era desconhecido para os sherpas. O troço entre o acampamento base e o acampamento 1 é o que apresenta mais risco de avalanche ou derrocada, e pode ter de ser reformulado quatro ou cinco vezes durante uma época.

“É uma roleta russa”, descreve o alpinista, mas normalmente os picos de frio são menos arriscados. Desta vez, a derrocada aconteceu mesmo no pico de frio, antes das 7h00 da manhã. O trajeto localiza-se no glaciar Khumbu, que como todos os glaciares é uma acumulação de gelo em constante movimento, ainda que imperceptível, explica João Garcia.

Wangdi Sherpa, um dos sobreviventes, revelou à CNN como ele e o assistente sobreviveram escondendo-se atrás dum bloco de gelo. “Podemos fazer isso porque estávamos à frente. Cerca de 12 atrás de nós sobreviveram, mas os outros morreram”, revelou o guia. “Aqueles que já tinham seguido à nossa frente também sobreviveram.”

Mas como demonstrou a mulher que se prepara agora para regressar, não há nada que impeça os alpinistas de tentar atingir o pico da montanha mais alta do mundo.