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São raros os festivais de cinema onde a maior parte dos realizadores são mulheres. A particularidade do festival “Olhares do Mediterrâneo – Cinema no Feminino”, que se estreia esta sexta-feira, no Cinema São Jorge, em Lisboa, é que todos os filmes em cartaz foram realizados por mulheres. Mais: são todas provenientes de países mediterrânicos, nomeadamente, Portugal, Espanha, França, Croácia, Turquia, Marrocos e Palestina.

Parece que as películas realizadas por mulheres têm mais dificuldade em entrar no circuito comercial do cinema. “Apenas 15% dos filmes mais divulgados são realizados por mulheres”, começou por dizer ao Observador Isabel Valente, da organização da mostra. “Por isso, a nossa opção vai para filmes de grande qualidade que de outra forma teriam mais dificuldade em chegar ao público”, explica.

Isabel Valente, que participou na organização do evento juntamente com o CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia, e com pessoas “unidas pelo amor ao cinema”, diz que não há um cinema feminino, mas que há, definitivamente, um olhar feminino sobre as coisas que é importante mostrar. “Existe uma maior tendência para que a realizadora coloque mais mulheres em frente à câmara” e aborde “temas relacionados com a sua realidade, a conciliação do trabalho com a vida familiar e a mudança social”. O filme “When I saw you“, da realizadora palestiniana Annemarie Jacir, é um desses exemplos, com a temática dos refugiados abordada do ponto de vista de uma criança.

O programa inaugura esta sexta-feira, às 18h30, com uma curta-metragem da espanhola Celia Ricco Clavellina, “Luisa no esta en casa“, à qual se segue a longa-metragem “Sonja and the bull”, da croata Vlatka Vorkapic.

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De Portugal poderemos ver, sábado, às 21h00, o documentário “8816 versos“, de Sofia Marques. A realizadora acompanhou uma parte do processo de trabalho do ator António Fonseca, que durante quatro anos decorou os 8816 versos que compõem Os Lusíadas.

Gastronomia, música, exposições e debates

Nem só de sétima arte se fazem os Olhares do Mediterrâneo. Até porque quando se fala em Mediterrâneo é inevitável falar da dieta classificada como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2013. “A dieta mediterrânica inclui valores como o convívio, a partilha, é mais do que apenas comer”, justifica Isabel Valente.

Na abertura da mostra, sexta-feira às 20h15, haverá uma prova de vinhos e degustação de petiscos turcos e mediterrânicos, com o apoio da embaixada da Turquia e de entrada livre. No sábado, às 17h00, é a sessão de Life cooking de dieta mediterrânica que toma conta do primeiro andar do Cinema São Jorge, com direito a degustação no final. No domingo, quem quiser pode assistir a uma cerimónia marroquina do chá.

Na música, destaque para o concerto de Luísa Amaro, que acompanhou o guitarrista Carlos Paredes em centenas de concertos por todo o mundo e foi a primeira mulher a gravar em guitarra portuguesa. No novo álbum “Argvs”, que agora apresenta, é acompanhada pelo português Gonçalo Lopes (clarinete baixo), pelo italiano Enrico Bindocci (piano) e pela cantora cipriota Kyriacoula Constantinou. Todos membros de países mediterrânicos.

Para o encerramento da mostra está reservada uma surpresa. Luísa Brandão (voz) e João Lucena e Vale (piano) vão protagonizar uma performance especialmente concebida para a ocasião. “Nem nós sabemos o que é que eles prepararam”, contou Isabel Valente.

Os bilhetes para cada filme custam quatro euros. Estudantes, desempregados, menores de 25 e maiores de 65 anos pagam 3,50 euros. Já para o concerto de Luísa Amaro, os bilhetes custam 10 euros. As restantes atividades têm entrada gratuita.