Ricardo perdeu a visão aos 18 anos, mas ganhou a capacidade de “observar muito do que não se vê com os olhos” e faz questão de dizer que os cegos não são super-heróis, apenas “não veem, nada mais do que isso”.

O jovem, hoje com 31 anos, ficou cego num pós-operatório de uma cirurgia que correu mal. Os primeiros tempos não foram fáceis: “Era um dia de revolta, um dia de frustração, um dia de tristeza profunda, um dia de querer desistir de tudo”.

Parou de estudar, parou com tudo. “Tive um período em casa literalmente sem fazer nada, porque a força que existia era zero ou abaixo disso”, conta à agência Lusa Ricardo Teixeira, autor do livro “Curva no escuro”, recentemente editado.

Depois de um período de revolta interna, já que exteriormente nunca a revelou, Ricardo decidiu que era tempo de recomeçar e apostou num curso de massagem de recuperação na Associação Promotora de Emprego para Deficientes Visuais.

“Não era coisa que alguma vez tivesse pensado fazer”, porque a sua formação era na área da multimédia, mas era preciso recomeçar “fosse por onde fosse”.

E com “tropeções e uma frustração aqui e além”, foi estudando e praticando artes marciais.

“Gostei da área e nunca mais parei de estudar”, disse, comentando com um sorriso rasgado: “Passei de um pós adolescente que estava em casa sem fazer nada para um tipo que estava metido em dois e três cursos ao mesmo tempo e a trabalhar em dois sítios”.

Ricardo terminou os cursos de massagem de recuperação e de osteopatia e começou a estagiar na Escola Superior de Dança, onde está a trabalhar e a ajudar na recuperação das lesões dos alunos.

O seu dia-a-dia é uma azáfama, sempre a correr, mas sem necessitar de bengala branca: “Baralho-me mais com ela”, diz, com graça.

“Faço a minha rua a correr e não vou contra nada”, uma situação que suscita a curiosidade das pessoas, que o questionam sobre como consegue correr, escrever no teclado do computador ou fazer artes marciais sem ver.

“São coisas perfeitamente normais” e dá como exemplo: “As pessoas quando vão à casa de banho durante a noite normalmente nunca acendem a luz e não batem em nada e se for preciso até se desviam do gato que está a dormir no corredor”.

“O corpo vê de todas as maneiras. O cérebro fica mais atento ao sentido que está disponível. É tão simples quanto isso”, explica.

A perceção, a intuição, a imaginação e a sensibilidade também dão informação. “Apesar de não ser fácil”, é uma questão de a ler e processá-la.

Ricardo escreveu o “Curva no escuro” para esclarecer dúvidas, desmistificar alguns assuntos e “lutar contra a noção de espetacularidade” que existe em relação a quem não vê.

O cego é “uma pessoa com as outras, apenas não vê. Não se transformou nem num super-herói, nem numa pessoa que é incapaz de fazer seja o que for”, insiste.

“Eu conheço pessoas que têm um grau de visão baixa e fazem dança aérea e não são de outro planeta”, sustenta, considerando que as pessoas questionam porque não estão habituadas a lidar com a situação.

Para Ricardo, se o Estado criasse condições e se “tudo fosse encarado como sendo normal”, as pessoas deixariam de encarar os cegos como sendo especiais ou diferentes, passando a vê-los de “forma normal e igual”.

Mas não é isso que acontece: “A situação já tem o peso que tem, não precisa de um nível de dramatismo acrescido de uma espetacularidade. É encarar as situações com realismo, como elas são”.

Texto de Helena Neves