As ruas do centro de Madrid estavam praticamente vazias esta quinta-feira de manhã. Muitas estações de metro foram encerradas ou funcionaram com limitações durante o período matinal.

A Porta do Sol, por exemplo, – para onde foram convocadas três manifestações não autorizadas pelo Governo – estava vedada. No centro da praça, encontravam-se muitos polícias de plantão.

Porta do Sol esta quinta-feira de manhã

Não era possível chegar até ao Congresso, onde Felipe VI foi proclamado rei de Espanha. E também não havia um local onde os fãs da monarquia pudessem reunir-se para assistir em direto à cerimónia. Alguns – poucos – optaram por esperar atrás de grades colocadas ao longo do percurso que a caravana real fez. O Observador estava na Gran Via quando o carro onde seguia Felipe passou. As pessoas que assistiam acenaram com bandeiras, mas sem grande entusiasmo. Duas mulheres que não quiseram ser identificadas disseram ao Observador: “Está visto. Vimo-lo bem. Não há mais. Eles estão com medo”.

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Aparentemente, a maior parte da população estava concentrada em frente ao Palácio Real, onde, desde bem cedo, guardava um lugar para poder assistir, por volta das 12h30, ao aceno dos novos reis.

A caminho da Praça do Oriente, onde se situa o palácio, entre a Gran Via e a Porta do Sol, um homem tem uma grande bandeira tricolor, – uma faixa vermelha, outra amarela e uma roxa – símbolo da república. Julian Reballo, 73 anos, tinha conhecimento da proibição de simbologia republicana no dia da proclamação do novo monarca, mas mesmo assim quis manifestar-se: “Temos medo que a polícia faça algo, mas somos republicanos e manifestamo-nos desta forma”, disse ao Observador. Reballo quis protestar porque acha que a transição real foi “uma vergonha” e defende a realização de um referendo para escolher a forma de Estado.

Julian Reballo, à esquerda, com a bandeira republicana

Junto a ele está um grupo de cerca de dez pessoas que trazem emblemas republicanos presos nas camisas ou estão vestidos com as cores da república. Como Francisco Vega Crespo, 62 anos, que quer ser fotografado de corpo inteiro para que se veja que o boné é roxo, a t-shirt é amarela e os calções são vermelhos – “cores do regime mais humano que existiu na Europa”, diz. Uma mulher embrulha-se numa grande bandeira tricolor, outra tem um adesivo que lhe tapa os lábios e onde se pode ler a palavra “liberdade”, escrita em maiúsculas. A polícia está a poucos metros de distância, mas não se aproxima.

As cores republicanas atraem jornalistas e outros manifestantes – jovens e pessoas que passavam na rua. Serão algumas dezenas. Juntam-se e, ao ritmo de Guantanamera, cantam “Felipe quien te ha votado”.

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Francisco Vega Crespo, no centro, com o braço estendido

A certa altura o grupo começa a avançar em direção às forças de segurança. Há alguns empurrões e uma mulher é agarrada pela polícia, mas libertada rapidamente. Ao fim de pouco tempo, os polícias permitem que os manifestantes ocupem um espaço na Porta do Sol.

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O momento em que os manifestantes se aproximam da polícia

Nesse momento, os apoiantes da monarquia que se encontravam nos vários pontos do cortejo real começam a dirigir-se para o Palácio Real e os dois grupos gritam palavras de ordem como se estivessem num duelo desportivo. Acenando com as bandeiras espanholas, alguns simpatizantes monárquicos dirigiam-se aos republicanos dizendo: “Fora daqui” e “Viva a Espanha”.

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Monárquicos e republicanos na Porta do Sol

Na Casa dos Correios, situada na Porta do Sol, foi instalado um gigantesco retrato dos novos reis. Duas mulheres comentam como Felipe se parece com o pai, Juan Carlos.

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Seguindo em direção ao Palácio Real, juntamo-nos a muitos milhares de espanhóis que esperam assistir à saudação de Felipe VI. Perto da Plaza Mayor, muitas lojas disponibilizam, nas montras, souvenirs com a fotografia do casal real. Junto à Praça do Oriente, a multidão é travada pela polícia. Já não cabe mais ninguém junto ao palácio, diz uma mulher ao Observador. Muitos começam a voltar para trás e a encher os restaurantes e tascas da zona.

Encostada a uma parede está Maria del Pilar, 60 anos. Tem uma camisola branca onde reconhecemos o rosto de Francisco Franco e a citação: “Nenhuma casa sem aquecimento, nenhum espanhol sem pão”. Maria del Pilar diz que a sua presença na cerimónia desta quinta-feira tem o objetivo de “lembrar aos espanhóis e aos reis de onde vem a legitimidade da monarquia. Vem de Franco”.

Maria del Pilar está acompanhada pela filha, Sandra Gutierrez, 34 anos. Dizem-se as duas franquistas e rejeitam a ideia de que Franco “foi um ditador”. “Foi um governante autoritário e não um ditador”, afirma Sandra, que nasceu depois da morte do governante, mas que, diz, ouviu a avó contar-lhe histórias benéficas sobre Franco e a sua época.

Sandra Gutierrez considera que Juan Carlos foi “nefasto” e Maria del Pilar acrescenta que o antigo monarca jurou defender as leis franquistas, para depois as “atraiçoar”. Mãe e filha não têm grandes esperanças quanto a Felipe VI. “Felipe é escravo da elite mundial, do grupo Bilderberg e dos maçons”, diz Maria del Pilar, para quem isto explica que a cerimónia de proclamação do novo rei tenha sido laica.

Quem deveria governar – perguntamos. “Um rei legítimo, católico, que não esteja submetido aos poderes internacionais”, resume Maria del Pilar.

No percurso inverso, falámos com Estela Azores, 35 anos e com a mãe, Mercedes Ãguilla, 60 anos. Vieram de Córdoba e Granada, respetivamente, para ver um acontecimento que, segundo Mercedes, “acontece uma vez na vida”. Mercedes Ãguilla diz “não gostar nada” das reivindicações republicanas e da ideia do referendo: “Vivemos 39 anos com a monarquia porque é aquilo de que gostamos”. Estela Azores acrescenta: “A família real espanhola é a melhor do mundo”.

Segundo o El País, a polícia deteve três pessoas durante a cerimónia de proclamação de Felipe VI e identificou vários membros do movimento 15-M. Ainda para esta quinta-feira está convocada uma manifestação republicana que deverá ter lugar às 20h, na Porta do Sol, no entanto esta zona de Madrid continua fechada e poderá não ser possível realizar aqui qualquer protesto.