A conferência “O futuro da ciência em Portugal”, iniciativa da Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, que teve lugar esta terça-feira na sala do Senado, na Assembleia da República, centrou-se mais no passado e presente do que no futuro. Os convidados e audiência, composta principalmente por investigadores, apontaram alguns dos mais importantes obstáculos ao avanço da ciência em Portugal – a inexistência de uma carreira profissional de investigador foi um dos mais referidos.

Os critérios de qualidade são cada vez mais exigentes para investigadores e institutos de investigação, mas a maior parte da ciência realizada em Portugal é feita por pessoas sem vínculo laboral. Apenas 15% dos investigadores em Portugal têm contrato de trabalho neste momento e 80% nunca tiveram, referia Sofia Roque, bolseira e membro da Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis.

Um bolseiro de investigação científica não tem vínculo jurídico-laboral com a instituição que o acolhe e o financiamento que recebe é um complemento de formação avançada, embora tenha um compromisso de exclusividade com o financiador. Assim, os bolseiros são obrigados a viver com as bolsas como se de ordenados se tratassem. Se as receberem, claro. Segundo João Lopes, representando a Associação de Bolseiros de Investigação Científica na bancada, há contratos de bolsa assinados em janeiro deste ano que ainda não tiveram um único mês pago.

Maria Mota, investigadora no Instituto de Medicina Molecular e oradora num dos painéis da conferência, concorda que um aluno de doutoramento não tenha contrato de trabalho para ser livre de abandonar aquela investigação se assim o desejar. Mas considera que não se podem criar bolsas de investigação científica para todas as tarefas que têm de ser desenvolvidas num instituto de investigação.

A necessidade de profissionalizar a carreira de investigador e também a dos técnicos de laboratório e dos gestores de ciência, foi defendida, do lado da audiência, por João Lavinha, investigador no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, mas teve eco noutros investigadores quer da assistência quer na mesa dos oradores. “Há pessoas que são bolseiras há mais de dez anos”, notava Sofia Roque, dos Precários Inflexíveis.

os investigadores não podem gastar o tempo a gerir projetos

Muitas vezes são os investigadores que têm de procurar financiamento, vencer todas as burocracias e fazer a gestão financeira do projeto, abdicando para isso do tempo que dedicariam à ciência. “Precisamos de pessoas focadas para investigação de ciência. Não podem ser os investigadores a gastar o seu tempo com a gestão dos projetos”, reclamava Manuel Sobrinho Simões, orador na conferência e investigador no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup).

Outros dos problemas com recursos humanos é a falta de renovação dos quadros das universidades. Carlos Fiolhais, comunicador de ciência e investigador na Universidade de Coimbra, dizia no tom brincalhão que o caracteriza que não se importava de ceder o lugar na universidade a um investigador mais jovem. “O futuro da ciência depende da vida nos nossos jovens, são eles que têm a capacidade criativa e que são capazes de dar saltos mentais.”

A não renovação dos quadros e a existência de investigadores com uma média de idades superior a 50 anos era a acusação feita aos Laboratórios de Estado por Paulo Sá e Cunha, vice-presidente executivo da Agência de Inovação, onde a média de idades dos investigadores ronda os 30 anos. Além disso, cinco dos Laboratórios de Estado consomem cerca de um quarto do orçamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia e precisam urgentemente de serem restruturados, afirmava Maria Mota. “Ou são remodelados, ou são fechados.”

Mas existem outros problemas: o novo código de contratação pública, a falta de um plano estratégico de longo prazo, a redução dos financiamentos e as burocracias para os conseguir. Ainda dentro dos financiamentos surge a discussão do que se deve financiar – apostar na investigação fundamental, na invoação ou uma não vive sem a outra?

Numa conferência onde se debatia o futuro da ciência sentiu-se a ausência do ministro da Educação e da Ciência, Nuno Crato, mas a relatora da temática “Ciência”, Elza Pais, apressou-se a justificar que o ministro não estava presente porque não tinha sido convidado. Esta não seria a única referência ao ministério que se diz da Educação e Ciência. Carlos Fiolhais apontava como uma das lacunas a ausência de relação entre as duas pastas – Educação e Ciência -, e dá como exemplo a falta de ligação entre o ensino superior e os institutos de investigação.

Sobrinho Simões também defende a comunicação entre ministérios. No caso específico da investigação que desenvolve sobre cancro, assume que haveria benefícios em relacionar institutos de investigação, ministério da Educação e da Ciência e ministério da Saúde. Também Maria Mota defende a comunicação entre instituições para rentabilizar esforços e financiamentos.