É a mais recente descoberta paleontológica dos investigadores espanhóis e portugueses da Sociedade de História Natural (SHN) de Torres Vedras: uma nova espécie de dinossauro ornitópode que pisou território português há 152 milhões de anos. Chama-se Eousdryosaurus nanohallucis e a avaliar pelas dimensões do exemplar descoberto, era um dinossauro pequeno (com apenas 1,60 metros de comprimento) que viveu no período do Jurássico Superior – o tempo dos gigantes.

Os vestígios fossilizados do Eousdryosaurus foram encontrados pela primeira vez em 1999 pelo senhor José Joaquim, um paleontólogo amador que tem dedicado os últimos 20 anos da sua vida à prospeção na zona da costa litoral oeste, tendo doado todo o seu espólio à câmara para integrar depois a coleção da Sociedade de História Natural. E terá sido precisamente no meio desse espólio de milhares de ossos e blocos por preparar que a SHN se deparou com aquele pequeno bloco revelador.

“Estava inserido dentro de um bloco de arenito na base das arribas na zona de Porto das Barcas [Lourinhã], ou seja, destacado da sua camada de origem devido à ação abrasiva do mar”, explicam os investigadores da Sociedade de História Natural por escrito ao Observador. Mas isso foi há 15 anos. E só hoje, mais de uma década depois, as conclusões sobre o espécime foram publicadas na revista internacional Journal of Vertebrate Paleontology.

Porquê tanto tempo depois? “Os ossos eram muito delicados”, explica Bruno Silva, diretor da SHN, ressalvando, claro, as “interrupções naturais” que decorrem durante todo o processo de investigação e tratamento dos fósseis.

De Eousdryosaurus a Manuelino

Esta não é a primeira vez que a SHN descobre novas espécies que habitaram o planeta há milhões de anos. Na verdade, o estudo do registo de dinossauros do Jurássico Superior português permitiu já a descoberta de mais de uma dezena de novas espécies, mas esta é a única vez em que surge um novo ornitópode dryossáurio – grupo de pequenos dinossauros bípedes, herbívoros (fitófagos, para sermos mais corretos) e muito possivelmente ágeis que viveram nos territórios da Europa, América do Norte e África durante o final do período do Jurássico e início do Cretácico.

IMG 3. Pe Eousdryosaurus

O pé foi o que permitiu distinguir a espécie, devido ao polegar (DI) de reduzidas dimensões

Trata-se de um esqueleto parcial “muito bem conservado”, onde se encontram elementos da cauda, da
cintura pélvica e das patas posteriores, incluindo um pé completo. E foi precisamente através do pé (ou melhor, de um dos dedos do pé) que os investigadores conseguiram identificar o Eousdryosaurus como um espécime nova. Tem a particularidade de ter um polegar de pequenas dimensões e dirigido para a frente – uma característica que o distingue dos restantes. Não é por acaso que o nome do animal, Eousdryosaurus nanohallucis, quer dizer “dryossáurio do oriente com polegar reduzido” (D I, na imagem em cima).

“Era um animal de postura bípede e cuja configuração dos ossos dos membros posteriores revelam que quando se deslocava, sobretudo quando corria, era bastante ágil e bem adaptado à corrida, sendo provavelmente veloz”, explica a equipa de Torres Vedras.

Outra particularidade que não deixou os investigadores indiferentes foi o tamanho do exemplar estudado: 1,60 metros de comprimento, desde o focinho até à ponta da cauda, e cerca de meio metro de altura (até ao topo da cintura pélvica). Ou seja, um animal pequeno que viveu no tempo dos gigantes há 152 milhões de anos.

Segundo a equipa da Sociedade de História Natural, os ossos encontrados estavam em “excelente estado de conservação“, estando preservadas partes “tão delicadas como os finos tendões ossificados das vértebras caudais anteriores”. Mas mesmo assim, foi preciso um trabalho minucioso de longos anos para dar por concluída a investigação.

Anos de intenso trabalho que levaram a equipa de investigadores – composta por elementos da SHN mas também do Grupo de Biologia Evolutiva da UNED, em Espanha, e da Universidade de Lisboa – a apelidarem o esqueleto do “nome carinhoso de Manuelino“. Porquê? Talvez por Eousdryosaurus nanohallucis ser demasiado difícil de pronunciar, ou talvez porque “temos sempre tendência para batizar os nossos bichos”, explicou Bruno Silva, ao Observador. Manuelino, porque sim.

A verdade é que, desde que os fósseis foram retirados da rocha na Lourinhã, foram precisos perto de 15 anos de estudo e tratamento do espécime para chegar o dia em que o Manuelino pôde ser visto na comunidade paleontológica como um novo dinossauro ornitópode até então desconhecido.

A apresentação oficial do novo espécime do Jurássico Superior português será feita esta terça-feira, pelas 17 horas, no Museu Municipal Leonel Trindade, em Torres Vedras.