As urnas de voto abriram na Escócia às 7h desta quinta-feira, 18 de setembro, que pode entrar para a História, caso os 4,3 milhões de escoceses que são chamados às assembleias de voto digam ‘sim’ à independência do país face ao Reino Unido. Mas essa não parece ser a conclusão da mais recente sondagem, realizada pela Ipsos MORI para o London Evening Sarndard, que dá ao ‘não’ 53% dos votos, batendo o ‘sim’ por seis pontos percentuais. Segundo os resultados publicados pelo jornal, havia ainda 4% de eleitores indecisos.

Os resultados deste trabalho surgem ao encontro das sondagens mais recentes. Em geral, davam a vitória do ‘não’, com uma vantagem média de quatro pontos percentuais em relação aos votos pela independência da Escócia.

Também nas casas de apostas o otimismo pela independência mudou subitamente nas últimas horas. Depois de semanas em que o ‘sim’ seguia à frente nas preferências dos apostadores britânicos, entre terça e quarta-feira a grande maioria das casas registou um grande aumento das apostas na vitória do ‘não’ face a uma descida das apostas no ‘sim’.

Tudo está dependente dos indecisos, que segundo todos os estudos de opinião, representam entre 5 a 6% do eleitorado, tendo assim o poder efetivo para mudar o resultado deste referendo, de que só haverá novidades durante a madrugada de sexta-feira, uma vez que as urnas só encerram às 22h de quinta.

Os apoiantes do ‘não’ sabem da importância das pessoas que ainda não se decidiram e, por isso, nos últimos dias, têm-se multiplicado em esforços de apelo à união, repetindo o slogan “Better together” (estamos melhor juntos, em tradução livre) e fazendo promessas consideradas históricas, como é o caso do “juramento” de David Cameron, Ed Milliband e Nick Clegg, líderes dos principais partidos britânicos, que asseguraram que, caso os escoceses queiram permanecer no Reino Unido, o seu parlamento terá poderes reforçados.

“Vamos dizer às pessoas que ainda têm dúvidas e estão hesitantes, pessoas que estavam a pensar votar ‘sim’ ontem e que podem ser convencidas hoje – vamos falar-lhes dos riscos reais” da independência, disse Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico, num discurso inflamado do último dia de campanha.

Os “riscos” da independência estão bem identificados pelos apoiantes do ‘não’. Segundo Gordon Brown, eles têm que ver principalmente com fatores económicos: a incerteza relativamente à moeda que uma Escócia independente utilizaria; aumento exponencial da inflação; aumento das taxas de juro; um défice que continuaria a precisar de ser controlado; o potencial desemprego de cerca de um milhão de escoceses que têm funções relacionadas com a união.

Para o lado do ‘sim’, o último grande apoio veio do tenista escocês Andy Murray, a quem já se vinha pedindo uma tomada de posição há semanas. Murray escreveu na rede social Twitter que esta quinta vai ser “um grande dia para a Escócia”.

Também Alex Salmond, primeiro-ministro da Escócia, aproveitou as últimas horas da campanha para escrever uma carta aberta aos seus cidadãos na qual refuta os argumentos apresentados pelos apoiantes do ‘não’, classificando-os de “tática do medo”.

“Para cada tática para meter medo, há uma mensagem de esperança, oportunidade e possibilidade. A oportunidade do nosso Parlamento ganhar reais poderes de criação de emprego, a possibilidade de preservar o nosso querido Serviço Nacional de Saúde e a construção de uma relação renovada de respeito e equidade com os nossos amigos e vizinhos da restante união”, escreveu Salmond no site do seu partido, o Partido Nacional Escocês.

Esta quinta-feira marca o fim de um longo caminho, iniciado nos anos 1970, quando o Partido Nacional Escocês (SNP) conseguiu, pela primeira vez, levantar o debate sobre a pertença da Escócia no Reino Unido, que dura há 307 anos, desde que James VI, rei da Escócia, se tornou também rei de Inglaterra por Isabel I de Inglaterra não ter deixado herdeiros. O Guardian preparou este vídeo para que as pessoas não-britânicas percebam exatamente o que se está a passar na Escócia.

Campanha até ao último minuto

Este jornal inglês, à semelhança de quase todos os outros jornais, tomou uma posição clara contra a independência da Escócia, argumentando que o Reino Unido “merece uma segunda oportunidade” – uma posição que, aliás, mereceu a desaprovação de vários jornalistas do Guardian, que não se reveem na posição editorial do matutino. Mas a posição contra a independência foi assumida por quase todos os meios de comunicação britânicos; apenas o Sunday Herald se mostrou abertamente a favor.

Assumir uma posição relativamente a questões desta natureza é uma tradição dos meios de comunicação anglo-saxónicos, mas até isso está a ser posto em causa numa campanha muito emotiva.

“O facto de muitos escoceses, criticados por todos os quadrantes como tolos, fraudes e ingratos, terem-se recusado a ser intimidados é, por si só, um triunfo político. Se votarem pela independência, fá-lo-ão desafiando não apenas o consenso de Westminster mas também o dos seus apoiantes: as pessoas complacentes que alegam falar em seu nome”.

Foi desta forma, algo violenta, que George Monbiot, jornalista do Guardian, demonstrou a sua oposição ao jornal para o qual escreve. A intimidação de que fala sentiu-se ao longo de todo o processo eleitoral, de parte a parte. Mas parecem ser os apoiantes do ‘não’ aqueles com mais motivos de queixa. Segundo uma sondagem online feita para o BuzzFeed, 46% das pessoas que se manifestaram contra a independência dizem ter sido ameaçadas pessoalmente pela campanha do ‘sim’, enquanto apenas 24% dos ‘aye’ diz o mesmo dos ‘nay’.

A campanha faz-se até ao último minuto e recorrendo a todas as táticas. Ainda agora, quando as votações já decorrem, estão montados stands à porta de muitas assembleias de voto onde se distribuem autocolantes e outros materiais propagandísticos – o Observador está junto a uma, em Edimburgo.