Os bascos sabem beijar? Rafa, o protagonista andaluz de “Ocho apellidos vascos” que os portugueses podem agora ver sob o título “Namoro à espanhola”, acha que não e acredita que a basca Amaia se apaixonou por ele logo ao primeiro beijo porque, como explica num dos vídeos promocionais do filme, no País Basco os homens não sabem beijar.

Opinião bem diversa sobre a qualidade dos beijos dos homens andaluzes tem Amaia, a jovem da esquerda radical basca – abertazale – que odeia os espanhóis e particularmente os andaluzes de brilhantina e que acaba vestida, ou melhor dizendo começa o filme devidamente despida de um fato de sevilhana nos braços de Rafa, a quem não falta um cabelo brilhantemente empastelado.

“Ocho apellidos vascos” veio lembrar aos espanhóis que os povos precisam de rir. Rir de si mesmos. Dir-se-á que tudo isto é óbvio e não tem novidade alguma mas se se acrescentar que o pano de fundo da acção de “Ocho apellidos vascos” é a forma estereotipada como bascos e andaluzes se vêem, o que é óbvio em qualquer outro lugar do mundo que não esteja sob os efeitos das paixões nacionalistas deixa de o ser.

Este filme está para o conflito basco como “La vaquilla” de Berlanga esteve para a guerra civil espanhola ou “Allo! Allo!” para a ocupação nazi: não há factos sobre os quais não se possa fazer humor. A questão é saber fazê-lo. E o realizador Emilio Martínez Lázaro soube fazê-lo embora não tenha inventado nada.

Uma história de amor entre protagonistas vindos de campos contrários é uma técnica amplamente reconhecida e a que os guionistas de “Namoro à espanhola”, Borja Cobeaga e Diego San José, recorrem: Rafa é um sevilhano típico do bairro de Triana, que nunca saiu do sul e Amaia é uma basca abertazale. O acaso fê-los encontrar-se e quando ela deixa Sevilha ele põe-se a caminho do País Basco. O resto, do ponto de vista do enredo amoroso, é fácil de adivinhar mas o que faz a relação de Rafa e Amaia avançar ou recuar não é propriamente o amor, que está lá quase desde o início, mas sim o facto de no meio nacionalista donde Amaia provém não ser possível entrar alguém que não tenha os seus oito apelidos bascos, quatro do lado da mãe e quatro do lado do pai. Rafa vai ter de passar por basco custe o que custar. E aí entra o riso.

Que “Ocho apellidos vascos” ia ser um dos grandes sucessos do cinema espanhol percebeu-se quando nas salas constantemente cheias em que era exibido as gargalhadas se repetiam invariavelmente. De que riam os espanhóis, estivessem eles em Sevilha ou em Bilbau? Riam de si mesmos e riam de poder rir pois a temática nacionalista é quase invariavelmente abordada em Espanha sob uma perspectiva dramática e dolorosa e talvez seja esse o segredo do sucesso deste filme: trouxe o riso a um assunto em que, à excepção do programa de humor “Vaya Semanita”, sobram as lágrimas e as recriminações.

Um bom conjunto de personagens secundárias (o grupo de andaluzes amigos de Rafa, Koldo, o pai nacionalista de Amaia, e Merche/Anne que passa por mãe basca de Rafa), elas mesmas estereótipos dos preconceitos nacionalistas, fazem o resto.

Os próprios críticos acabaram por ter de se render ao sucesso do filme: o influente El Pais, que começou por definir “Ocho apellidos vascos” como “uma excelente ocasião falhada”, acabou a dedicar-lhe um extenso e elogioso texto intitulado “‘Kale borroka’ en el cine español” que é o mesmo que dizer que “Ocho apellidos vascos” revolucionou o cinema daquele país.

Reacções irritadas

 

É claro que houve quem se sentisse ofendido: a começar pelos sectores da ETA que através do jornal Gara criticaram duramente o filme de Emilio Martínez Lázaro, identificando-o como um filme reacionário, próprio de uma Espanha governada pela direita mais rançosa (a esquerda radical de cada país vive convencida que a sua direita é sempre a mais rançosa) e indignando-se pelo facto de alguns dos actores que representam personagens bascas não serem bascos e, por fim mas não por último, mostrando o seu espanto com o facto de uma rapariga supostamente abertazale casar-se envergando um vestido branco próprio de um “casamento cigano”.

No outro campo, o das vítimas do terrorismo da ETA, a indignação foi também grande pois consideram que o nacionalismo basco está longe de se restringir ao nacionalismo caturro de herriko taberna a que dá notavelmente corpo o actor Karra Elejalde no papel de Koldo, o pai nacionalista de Amaia.

Mas a boa fortuna de “Ocho apellidos vascos” não se esgotou no enorme sucesso de bilheteira: Dani Rovira, o actor que faz de Rafa, passou do quase anonimato (fazia e faz stand up comedy) para o primeiro plano. Clara Lago, a protagonista feminina, pode não ter sido muito incensada pela crítica mas teve um tal sucesso junto do público que acabou a protagonizar com Dani Rovira a campanha de verão do Corte Inglês que, para quem não saiba, é em Espanha uma espécie de prémio de consagração de popularidade. E, para que a história de “Ocho apellidos vascos” acabasse da forma mais cinéfila e espanhola possível, os dois, Dani Rovira e Clara Lago, acabaram por se apaixonar e foram capa da Hola que logo fez um daqueles títulos que a celebrizaram enquanto revista rainha do papel couché: “En ¡HOLA!, el primer beso de Dani Rovira y Clara Lago.”

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Pode interessar esta história fora de Espanha? Há gags como os dos apelidos bascos que Rafa se inventa para si e para a amiga que faz de sua mãe e que são os nomes de apresentadores bascos de televisão, do marido basco da infanta Cristina, … que quase só fazem sentido em Espanha. Mas a garantia de que se vai rir e o tumulto em que os nacionalismos trazem a Europa levarão certamente a que se compre o bilhete para ver “Um namoro à espanhola”. Porque rir e amar ainda são os melhores remédios para se levar a vida com tino e a política com bom senso.

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