“Sábado o país foi confrontado com um acontecimento que deixou todos os democratas imensamente preocupados. O que foi feito a um ex-primeiro-ministro com um enorme aparato lesivo do segredo de justiça não pode passar em vão”, escreveu esta terça-feira Mário Soares na coluna de opinião que escreve no Diário de Notícias,  “O tempo e a memória”.

O ex-presidente da República e figura histórica do Partido Socialista aproveitou o espaço no diário para apontar o dedo à comunicação social e ao “espetáculo mediático” que tem feito, ao violar, também ela, o segredo de justiça. Mário Soares refere-se à revelação dos factos que só deveriam ser conhecidos quando o juiz se pronunciasse. “Independentemente do que está em causa e da separação de poderes entre a política e a justiça”, escreveu.

Sobre a prisão preventiva de José Sócrates, pelos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção, o ex-presidente da República disse ainda que ninguém sabe se foi a Procuradoria-Geral da República que comandou a polícia.

Preso porquê?

Entre os socialistas, cresce a contestação ao que se passou nos últimos dias. O deputado socialista João Soares considerou injusta a medida de coação de prisão preventiva aplicada a José Sócrates, salientando estar preocupado com a “promiscuidade entre política e os negócios e entre a Justiça e a comunicação social”.

“Considero injusta a medida de coação de prisão preventiva aplicada (…) a José Sócrates. Conheço há muito e confio, como cidadão e advogado, em João Araújo, advogado de José Sócrates. Portanto, quero crer que essa medida é, como João Araújo disse, injustificada”, escreveu João Soares na sua conta pessoal no Facebook.

O antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa criticou também toda a situação e condução mediática do período que mediou o interrogatório do ex-governante.

“Desde o momento da sua detenção, e durante três dias, a investigação foi ‘libertando’ para a comunicação social os ‘factos’ que considerou necessários divulgar para ‘fundamentar’, junto da opinião pública, a medida de coacção mais gravosa. A cirurgia foi feita de tal forma que dispensou, no comunicado do Tribunal, a divulgação dos fundamentos da prisão preventiva. Enquanto cidadão, preocupa-me tanto a promiscuidade entre a política e os negócios, como entre a Justiça e a comunicação social”, refere no Facebook

Capoulas Santos revelou ao Observador que viu “com consternação” a medida de coação aplicada a José Sócrates, salvaguardando que vai “aguardar por mais informação, nomeadamente, sobre os factos objetivos” que estão por detrás da prisão preventiva do antigo primeiro-ministro. “O país precisa de saber” quais são as razões do juiz Carlos Alexandre, reforçou.

O ex-ministro da Agricultura de José Sócrates acrescentou, ainda, que se revia “nas palavras de Ferro Rodrigues”, que pediu para que separassem as águas entre a atuação política do PS e as suspeitas que recaem sobre o antigo primeiro-ministro.

Correia de Campos desafina: deixar a justiça trabalhar

António Correia de Campos, ministro da Saúde do Governo de José Sócrates entre 2005 e 2008, também já se pronunciou sobre a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro. À TSF, disse que é “amigo pessoal de José Sócrates”, que promete dar-lhe todo o apoio, mas que não quer manifestar-se sobre a Operação Marquês. “Não tenho rigorosamente nada a dizer. (…) Vivemos num Estado de Direito e é assim que temos de continuar”, referiu.

O ex-ministro disse ainda que não tem nada a recear e que o poder judicial é que deve decidir na matéria. “A opinião de terceiros não conta rigorosamente para nada”, afirmou, acrescentando que conhece o “espírito lutador” de Sócrates. “Sei que lutará pela sua liberdade física e pela sua honra”, referiu.

Ferro Rodrigues segue a linha de Costa: amigos, amigos…

O atual líder parlamentar do Partido Socialista, António Ferro Rodrigues, reiterou, esta terça-feira, a mensagem deixada por António Costa de que é “preciso separar os sentimentos que aproximam os socialistas a José Sócrates” da investigação judicial em curso. Ainda assim fez questão de enviar “em termos afetuosos, quero enviar um abraço à família de José Sócrates e, nomeadamente, aos seus dois filhos”

Numa breve declaração aos jornalistas, depois de chegar à Assembleia da República (AR), Ferro Rodrigues garantiu que o PS mantém presente “a responsabilidade para com o país e para com o seu futuro” e, por isso, continuará a preparar uma política alternativa à do Executivo PSD/CDS.

O socialista afirmou, ainda, que o congresso do partido, no próximo fim de semana, não será afetado pelas suspeitas que recaem sobre José Sócrates.