Uma paisagem pincelada por desertos, penhascos e grandes crateras. Traços que parecem desenhar a forma de um pato de borracha. Estas são algumas das primeiras descobertas da sonda “Rosetta”, que continua na sua missão de orbitar o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, ou simplesmente Chury, publicadas esta sexta-feira pela revista científica Science.

Os dados sobre o cometa impressionam: são 4,1 quilómetros de comprimento, 3,2 quilómetros de largura e 10 milhões de toneladas, mas de um corpo menos denso do que a cortiça ou a madeira — o que faria com que, se caísse no mar, flutuasse como um icebergue. As analogias não ficam por aqui: o Chury é tão poroso e tão vazio no interior que mais se assemelha a uma esponja ou uma pedra-pomes.

Foram estas as conclusões da equipa de cientistas que está a analisar os dados e as imagens recolhidas pela Rosetta e que está a tentar compreender a composição, a densidade e a atividade do 67P. É o mais perto que a humanidade está de desvendar alguns dos maiores mistérios sobre os cometas, a borda de uma paisagem alucinante que se aproxima do Sol a mais de 20 quilómetros por segundo e que, neste momento, ainda se encontra a mais de 500 milhões de quilómetros da Terra, como escreve o El País.

Um dos fatores que mais está a impressionar os cientistas é a similaridade do traçado geológico do cometa com algumas das paisagens encontradas também na Terra, como explicou Luísa M. Lara, investigadora do Instituto de Astrofísica da Andaluzia e coautora de três dos seis estudos publicados pela Science, ao mesmo jornal.

Entre as mais de 15 mil imagens captadas pelo OSIRIS – um sistema de imagem que segue a bordo da Rosetta – foi possível encontrar grandes extensões de dunas que recordam os desertos terrestres, zonas com grandes crateras – que podem revelar um passado preenchido por encontros violentos com outros corpos celestes – ou, ainda, superfícies mais íngremes que lembram, por exemplo, os vulcões de lama do Chile, sublinhou a investigadora. Mas, para Luísa M. Lara uma das vistas mais espetaculares em todo o cometa é um penhasco com cerca de 900 metros.

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Os penhascos de Cometa Churyumov-Gerasimenk

(crédito: ESA/Sonda Rosetta)

Apesar das descobertas recentes, continuam a existir muitas questões por responder, sobretudo a origem da estranha forma de pato de borracha. Luísa M. Lara acredita que “o cometa não poderia ter perdido tanto material apenas pelo efeito do Sol” e avança com uma explicação: a cabeça e a cauda do cometa podem ser, afinal, resultado da colisão entre dois cometas que, depois, se uniram e formaram o Chury. “Algo nos nossos modelos está a falhar”, assumiu a investigadora. Resta, agora, perceber o quê. E a ciência nunca esteve tão perto de o conseguir.