Vital Moreira, antigo cabeça-de-lista do Partido Socialista às eleições europeias em 2009, tem tecido duras críticas ao programa anti-austeridade e anti-troika do recém-eleito Governo helénico. No blogue Causa Nossa, Vital Moreira tem acusado Tsipras de ter um programa “pura e simplesmente irrealizável”, que levará a Grécia para a “bancarrota e para a saída do euro”. Mas as críticas do ex-juiz de Ratton não se destinaram apenas aos gregos: por cá, segundo Vital Moreira, a aproximação da esquerda portuguesa, com PS incluído, é de um “oportunismo pouco recomendável”.

“A tentativa de todas as esquerdas em Portugal para cavalgarem a vitória da esquerda radical na Grécia, incluindo partidos que pouco têm a ver com o Syriza, como o PS e o PCP, releva de um oportunismo pouco recomendável. (…) Faltava o partido de Marinho e Pinto. Subitamente parece que “todos somos Syriza” (salvo seja, no que me diz respeito)”, escreveu Vital Moreira a 26 de janeiro.

Já antes, quando ainda não se conhecia o vencedor das eleições na Grécia, o ex-deputado tinha criticado “a simpatia” que alguns setores do PS tinham demonstrado para com uma eventual vitória da coligação de extrema-esquerda. “Julguei que as simpatias do PS na Grécia iam para o Pasok, o partido socialista grego, principal vitima do desmoronamento da ficção económica e orçamental que a Grécia era e que a crise de 2008 pôs a nu”, comentou, reagindo às declarações de Eduardo Cabrita, presidente da comissão de Orçamento e Finanças, e de João Galamba, secretário nacional do partido, ao Observador.

Este último pronunciou-se, ainda, sobre uma questão que António Costa ainda não esclareceu: os socialistas defendem ou não uma conferência da dívida? Galamba disse “que que faz todo o sentido e está em linha com o que o PS tem defendido”. Vital Moreira, por sua vez, afastou completamente essa hipótese, prevendo que essa será a primeira grande derrota de Tsipras:

“A primeira derrota do novo Governo grego vai ser a falta de adesão à sua proposta de conferência dos países periféricos sobre a dívida. Não creio que algum dos governos convidados esteja disponível para integrar esse “sindicato dos devedores”, até porque nenhum deles defende o não pagamento, como propõe o Syriza (com as consequências já à vista na subida dos juros da dívida grega). A sede para a discussão de qualquer afeiçoamento da dívida (maturidades, juros, etc.) é obviamente o Conselho da União e o BCE”, sublinhou Vital Moreira.

Ainda sobre a posição do PS em relação ao Syriza, o ex-deputado revelou-se satisfeito com o esclarecimento de Vitalino Canas – no rescaldo da vitória de Tsipiras, o deputado socialista sublinhou que o Syriza não era o parceiro do PS. Vital Moreira reagiu assim:

“O esclarecimento era necessário, sobretudo depois do equívoco criado por posições pouco avisadas oriundas do PS logo após a vitória do Syriza (…) O que me “faz espécie” são aqueles que entre nós combatem o BE e que depois festejam a vitória do BE grego. Ainda por cima, receio bem que as coisas vão correr mal na Grécia e que a identificação com o Syriza não vai ser propriamente um ativo político“, escreveu a 28 de janeiro.

Dias depois foi a vez do secretário-geral do partido, António Costa, ter afirmado que o PS “não é nem será o PASOK”. O que comentou Vital Moreira? “Faltou dizer: “O PS não é nem será o Syriza“!”, num artigo intitulado “O dito e o não dito”.

As observações de Vital Moreira não se centram apenas na aproximação de alguns socialistas aos gregos do Syriza. A posição de Francisco Louçã, que ao Diário de Notícias afirmou que “é a primeira vez que os portugueses têm um Governo que os defende na União Europeia”, referindo-se ao Governo de Tsipras, mereceu duras críticas de Vital Moreira, que chegou mesmo a perguntar “como é que haja quem leve a sério políticos destes?!”.

“Engana-se portanto quem pensa que os nossos representantes políticos em Bruxelas são quem nós elegemos. Afinal, delegámos esse poder aos gregos! Deve ser por isso que a principal das medidas do novo Governo grego em prol dos interesses portugueses é pregar um calote de 500 milhões de euros quanto à divida que a Grécia tem para Portugal, pela nossa participação no primeiro resgate da Grécia em 2010/11. Não se poderia imaginar maior desvelo dos nossos novos defensores sem mandato em Bruxelas…”.

O que pensa, então, Vital Moreira sobre o programa de Alexis Tsipras? É assente numa estratégia de financiamento “puramente ficcional” e que “sem fundos próprios, tendo renegado a assistência financeira da troika e sem poder ir ao mercado refinanciar-se, a Grécia só pode entrar em default“, criticou. Ou seja, concluiu Vital Moreira, “a única explicação para este enigma é que o Governo Syriza se prepara para cessar pagamentos internos e externos, encaminhando-se deliberadamente para a bancarrota e para a saída do euro“.