Até já “escola de Paris”, olá pop art. As paredes e o chão do Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, em Lisboa, despem-se dos clássicos e recebem, até dia 3 de maio, 49 obras de artistas como Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Jasper Johns, Tom Wesselmann e Robert Rauschenberg. A exposição “Sonnabend | Paris – New York” reúne algumas das primeiras obras da coleção histórica da Galeria Sonnabend, hoje na posse do português António Homem, e que nos anos 60 confrontou pela primeira vez a Europa com este tipo de arte.

Não há quem não conheça as latas de sopa Campbell, que Andy Warhol tomou para objetos de arte e imortalizou em serigrafia, e que estão entre as obras presentes em Lisboa. Ou as famosas interpretações de banda desenhada de Roy Lichtenstein. Mas nem sempre foi assim. Quando a pop art chegou em força à Europa, em 1962, foi rotulada de arte menor.

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Uma das famosas latas de sopa Campbell, de Andy Warhol.

Até que o impensável aconteceu: em 1964, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza foi dado pela primeira vez a um artista americano, Robert Rauschenberg. A controvérsia na cena artística europeia, nomeadamente na chamada “escola de Paris”, onde se inseria Maria Helena Vieira da Silva, foi grande, mas a pouco e pouco foi ganhando o seu espaço. Uma das grandes responsáveis por isso é Ileana Sonnabend, que na galeria que abriu em Paris, em 1962, deu destaque a novos movimentos artísticos como a pop art, o minimalismo e o conceptualismo. Andy Warhol, um dos artistas que entrou na Europa graças à Galeria Sonnabend, chamou-lhe a “mãe da pop art”.

Na exposição que inaugura esta quinta-feira, às 18h30, vão estar trabalhos que foram mostrados em Paris pela galeria durante os seus primeiros cinco anos de atividade, entre 1962 e 1967. António Homem é o curador da mostra e o responsável máximo pelas obras, desde a morte de Ileana, em 2007. Nascido em Lisboa em 1939, começou a trabalhar com a Galeria Sonnabend, em Paris, em 1968. Participou na fundação da mesma Galeria em Nova Iorque, em janeiro de 1970, e na inauguração do novo espaço no Soho, em Manhattan, em 1971. Conhece bem estas obras mas, mais do que isso, conheceu de perto os artistas.

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António Homem, aqui ao lado de uma tela de Ileana Sonnabend da autoria de Andy Warhol, conheceu todos os grandes ícones da pop art.

“Tem uma outra dimensão fazer esta exposição aqui porque é unir totalmente a minha vida de criança e adolescente com a minha vida de adulto. Estava a dizer a brincar que se eu tivesse um psicanalista teria sido uma grande vitória para ele“, disse António Homem, a rir. Entre o grupo de jornalistas que seguiu na visita guiada pela exposição, esta quarta-feira, estava a tia que não o via há mais de 40 anos, e cujo reencontro se proporcionou pela vinda do colecionador à cidade onde viveu até aos 16 anos.

António Homem selecionou alguns dos trabalhos mais marcantes visualmente e preocupou-se em passar uma amostra da variedade que pauta a importante coleção. O que não deve ter sido fácil para um homem que viveu toda a vida apaixonado pela arte e que continua a fazer novas descobertas nas obras que possui. “Quis recriar a exposição que provocou um choque. Espero que ainda tenha um efeito surpresa” 50 anos depois, disse.

O percurso começa com “Sliced Bologna”, um óleo sobre película de poliéster de James Rosenquist que costumava ser colocado no meio de uma divisão, para que o público o pudesse atravessar. Ao cimo das escadas está a interpretação que Andy Warhol fez de Ileana Sonnabend, em duas telas. Afinal, é ela a personagem principal da exposição.

Robert Rauschenberg, a estrela de Veneza em 1964, é o único artista com direito a uma sala própria. António Homem conta que, ao contrário do que muitos pensam, o artista americano não retratava objetos como crítica ao consumismo. “Ele via uma grande beleza e poesia nos objetos”, contou o curador. “Recordo-me que ele gostava muito de ter flores ao pé dele enquanto trabalhava e, para ele, as flores que não murchavam não prestavam, porque não envelheciam. Portanto, não viviam.”

Esmalte, jornal, papel impresso e o punho de uma camisa sobre tecido. Rauschenberg encontrava beleza nos objetos mais banais.

Ao mesmo tempo que organiza esta exposição inédita em Portugal, António Homem era para ter levado outra parte da coleção para o Museu de Serralves, no Porto. Tal poderá acontecer em fevereiro de 2016, desta vez com obras selecionadas de um leque temporal mais alargado. Também para o ano o Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva pode acolher uma nova exposição da Sonnabend. Afinal, ainda há muito espólio que nunca foi mostrado no país do colecionador que herdou algumas das mais importantes obras da pop art.

Onde: Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, Praça das Amoreiras, 56, 1250-020 Lisboa
Quando: Inauguração dia 5 de fevereiro, às 18h30. Disponível até 3 de maio, de terça a domingo, entre as 10h00 e as 18h00
Quanto: 5 euros